Campinas perdeu força política?
Presidente da Câmara, Luiz Carlos Rossini, diz que cidade poderia eleger mais deputados, mas afirma que influência de Campinas também passa pela economia, universidades, pesquisa e cultura
ELEIÇÕES 2026: O PODER DO VOTO
Campinas poderia ter mais deputados estaduais e federais, considerando o tamanho de seu eleitorado. Isso, porém, não significa que a cidade tenha perdido importância política. As duas avaliações são do presidente da Câmara Municipal de Campinas, Luiz Carlos Rossini, e colocam em perspectiva uma questão que acompanha a cidade às vésperas das eleições de 2026: como medir a força política de Campinas e sua capacidade de transformar peso econômico, científico, populacional e eleitoral em representação e influência?
“Do ponto de vista de representação acho que Campinas poderia ter uma quantidade maior de deputados estaduais e federais, considerando nosso colégio eleitoral, mas infelizmente não há uma cultura política de votar em candidatos da cidade. Não sei bem explicar a razão”, afirma Rossini.

O tamanho desse colégio eleitoral dá dimensão à discussão. Campinas tem 870.672 pessoas aptas a votar nas eleições deste ano e ocupa a terceira posição entre os municípios paulistas, atrás apenas da capital, com 9,1 milhões, e de Guarulhos, com 948 mil. Está à frente de São Bernardo do Campo, Osasco, Santo André, São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto, segundo dados divulgados pela Justiça Eleitoral.
Ter muitos eleitores, no entanto, não assegura à cidade um determinado número de cadeiras. Deputados estaduais e federais são escolhidos pelo sistema proporcional e disputam votos em todo o Estado. O eleitor de Campinas pode escolher tanto candidatos ligados ao município quanto nomes com bases políticas em outras regiões.
O tema já havia aparecido na primeira reportagem da série “Eleições 2026: O poder do voto”. Em “Não basta escolher o motorista”, a Gazeta da Metrópole mostrou que quatro das seis escolhas que o eleitor fará em outubro serão destinadas ao Legislativo e levantou uma questão que agora ganha outra dimensão: quem falará por Campinas?
Representação, mas para defender o quê?
Rossini considera que contar representantes é apenas uma parte dessa discussão. Também importa saber de que maneira os mandatos se relacionam com as demandas da cidade.
“Nossos representantes têm tentado cumprir esse papel, cada um de seu jeito, mas a principal forma de medir essa influência, atualmente, está no valor das emendas parlamentares que destinam ao município”, afirma. Em seguida, aponta uma dificuldade: “É difícil identificar bandeiras políticas que ligam o exercício dos mandatos a causas ou temas da cidade, como: sustentabilidade, cultura, ciência e tecnologia, saúde.”
DESTAQUE
“É difícil identificar bandeiras políticas que ligam o exercício dos mandatos a causas ou temas da cidade.” — Luiz Carlos Rossini
A declaração estabelece uma diferença importante entre ter parlamentares ligados a Campinas e ter uma representação articulada em torno de interesses da cidade. Partidos e parlamentares não precisam defender as mesmas posições — divergências fazem parte da atividade política —, mas questões como infraestrutura, saúde, ciência, tecnologia e desenvolvimento metropolitano ultrapassam os limites administrativos do município e dependem também de decisões tomadas pelo Estado e pela União.
A discussão não se limita a quantos deputados possuem vínculos com Campinas. Inclui saber quais demandas do município conseguem chegar aos espaços onde decisões são tomadas, recursos são distribuídos e políticas públicas são definidas.
A história política de Campinas ajuda a explicar por que essa discussão persiste. Em períodos diferentes, a cidade foi o ponto de partida ou a base política de personagens que chegaram aos principais espaços de poder do Estado e do país.
De Campinas ao cenário nacional
O caso mais evidente é Manuel Ferraz de Campos Sales. Nascido em Campinas em 1841, exerceu a advocacia na cidade e foi vereador campineiro na década de 1870. Depois ocupou cargos na política paulista e nacional, foi ministro da Justiça, senador, presidente do Estado de São Paulo e chegou à Presidência da República em 1898.
Quase um século depois, Orestes Quércia construiu em Campinas a base de outra trajetória de projeção nacional. Nascido em Pedregulho, estudou na cidade e iniciou aqui sua carreira eletiva. Foi vereador, deputado estadual e prefeito de Campinas, elegeu-se senador e posteriormente chegou à vice-governadoria e ao governo do Estado de São Paulo.
São trajetórias produzidas em contextos muito diferentes e que não servem como régua automática para avaliar o presente. Ainda assim, ajudam a explicar de onde vem a percepção de que Campinas já projetou lideranças políticas com alcance maior do que o observado atualmente. Ter representantes nos Legislativos estadual e federal e produzir uma liderança de projeção nacional são fenômenos diferentes.
A história recente registra ainda uma trajetória interrompida. Antônio da Costa Santos, o Toninho, assumiu a Prefeitura em janeiro de 2001 e foi assassinado em setembro daquele ano, depois de apenas 253 dias de governo. Não há como saber que dimensão sua carreira política alcançaria, e qualquer conclusão a respeito pertenceria ao campo da hipótese.
“Campinas não perdeu sua importância”
Diante da comparação entre passado e presente, Rossini faz uma ressalva. Para ele, medir a força política de Campinas apenas pela quantidade ou pela projeção de seus representantes produz um retrato incompleto da cidade.
“Campinas não perdeu sua importância e peso político, pois a força da cidade não está só na representação política”, afirma.
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“Campinas não perdeu sua importância e peso político, pois a força da cidade não está só na representação política.” — Luiz Carlos Rossini
“As instituições de ensino e pesquisa, a diversidade de serviços, a produção intelectual e cultural e a força da economia local e regional, por si só despertam o olhar e interesse dos outros níveis de governo para a cidade”, completa.
Nessa perspectiva, a influência de Campinas também passa por universidades, centros de pesquisa, empresas, instituições e pela posição do município como polo regional. A eventual redução da projeção individual de suas lideranças políticas, portanto, não significa necessariamente uma redução equivalente da importância da cidade diante dos governos estadual e federal.
Rossini também vê parte das mudanças na representação política como resultado de um fenômeno que ultrapassa Campinas. “Acho que o que acontece aqui não é um fenômeno só local, a relativização da representatividade política é, também, consequência da polarização entre esquerda e direita, potencializada pela forma de propagação de narrativas pelas redes sociais.”
“Parece que conteúdo dos discursos ou das propostas não sensibilizam mais as pessoas. Vivemos um processo de minimização do debate político”, acrescenta.
Essa é a interpretação de Rossini sobre o cenário político. Já a dificuldade de explicar o comportamento específico do eleitor campineiro aparece na própria entrevista. Ao dizer que não existe uma cultura de votar em candidatos da cidade, o presidente da Câmara reconhece: “Não sei bem explicar a razão.”
O voto e a cobrança
Para Rossini, a eleição de 2026 recoloca a responsabilidade também sobre agentes políticos e eleitores. “Deveríamos todos, a começar pelos agentes políticos demonstrar que uma maior representatividade política poderia resultar em mais recursos para a cidade. Mais do que isso o voto deveria, além da intenção de esperança, vir acompanhado da responsabilidade da cobrança.”
Essa cobrança, na avaliação dele, pode ser favorecida pela proximidade entre eleitor e representante. “E aí votar em quem você conhece e confia, a proximidade deveria significar a possibilidade de cobrança e fiscalização do eleito. Acho que é preciso desenvolver a cultura do voto distrital.”
O modelo usado atualmente para eleger deputados no Brasil não é distrital. Em São Paulo, os candidatos disputam votos em todo o Estado pelo sistema proporcional. A defesa do voto distrital feita por Rossini expressa, portanto, sua posição sobre uma forma de aproximar eleitor e representante, e não a regra em vigor.
A proximidade geográfica também não garante, por si só, compromisso com Campinas. Na primeira reportagem desta série, a Gazeta já havia feito essa distinção: discutir representação regional não significa defender que o eleitor tenha de escolher necessariamente alguém que more perto. Um candidato de outra cidade pode assumir compromissos com Campinas e a Região Metropolitana, assim como um político domiciliado no município pode construir seu mandato em torno de outras agendas.
As respostas de Rossini levam a discussão de volta ao ponto de partida. Campinas possui 870.672 eleitores, o terceiro maior colégio eleitoral de São Paulo. Seu presidente da Câmara considera que esse contingente poderia resultar em maior representação estadual e federal e sente falta de bandeiras mais claramente ligadas aos interesses do município. Ao mesmo tempo, sustenta que a influência da cidade não depende exclusivamente dos políticos que ela consegue eleger.
A história mostra que Campinas já foi berço ou base política de personagens que alcançaram a Presidência da República, o Senado e o governo paulista. Hoje, a discussão sobre a força política de Campinas envolve também sua presença nos Legislativos estadual e federal e o peso econômico, científico, institucional e regional da cidade.
Por isso, a pergunta do título não encontra resposta apenas na quantidade de deputados eleitos. As eleições de 2026 permitirão observar quantos representantes ligados a Campinas chegarão aos Legislativos, mas a força política da cidade também será medida pelo que esses mandatos conseguirão fazer, pela capacidade de articulação em torno de interesses do município e pelo espaço que Campinas continuará ocupando nas decisões estaduais e nacionais.

