O que o avanço da direita revela sobre o eleitor brasileiro
Resultado das urnas fortalece o PL e o bolsonarismo e amplia uma questão que acompanhou a campanha: o que faz o eleitor reconhecer alguém como seu representante
ANÁLISE / ELEIÇÕES 2026
A direita saiu fortalecida das urnas de 2026. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno da eleição presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados, 24 a mais que em 2022. Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, e Lucas Pavanato, em São Paulo, ultrapassaram 3 milhões de votos e alcançaram as duas maiores votações da história para deputado federal.
Os números mostram o tamanho do resultado. Explicá-lo exige outra pergunta.
Durante a campanha, a Gazeta da Metrópole discutiu voto consciente, identidade ideológica e representação política. Agora, depois das urnas, é possível inverter o olhar. Em vez de perguntar apenas o que os candidatos ofereceram ao eleitor, interessa entender o que o eleitor reconheceu nesses candidatos para entregar a eles o seu voto.
Uma pista apareceu nas próprias entrevistas realizadas durante a campanha. Há eleitores que não conseguem mencionar um projeto concreto do candidato escolhido, mas conseguem explicar por que votam nele. Falam de família, segurança, religião, trabalhadores, corrupção, rejeição ao PT ou ao bolsonarismo, aborto, drogas, Supremo Tribunal Federal. O projeto pode ser desconhecido. A posição política, não.
Isso não significa necessariamente que o eleitor não saiba por que está votando. Pode significar justamente que seu critério de escolha é outro. Em vez de comparar programas ou procurar alguém socialmente parecido consigo, ele pode reconhecer no candidato valores, preocupações e uma interpretação do país próximas das suas.
A identificação deixa de ser “ele é como eu” e passa a ser algo mais subjetivo:
“Ele pensa como eu.”
É uma diferença importante porque ajuda a compreender escolhas que parecem contraditórias quando observadas apenas pela condição econômica. Um trabalhador de baixa renda pode votar em um empresário milionário. Alguém que se declara contra a corrupção pode relativizar acusações envolvendo um político com quem se identifica. Um beneficiário de determinada política pública pode rejeitar eleitoralmente o partido responsável por ela.
Essas escolhas só parecem incompreensíveis quando se parte da ideia de que renda, profissão ou interesse econômico deveriam determinar automaticamente o voto. Não determinam. O eleitor pode considerar segurança mais importante que economia, religião mais importante que classe social ou a rejeição a determinado grupo político mais importante que uma proposta que o beneficie diretamente.
A pesquisa do Datafolha sobre a posição ideológica dos brasileiros ajuda a mostrar essa complexidade. Em julho, 44% dos entrevistados foram classificados na direita ou centro-direita, contra 39% na esquerda ou centro-esquerda. Quando consideradas apenas questões comportamentais, a direita e centro-direita chegaram a 52%, enquanto esquerda e centro-esquerda somaram 29%. Nas questões econômicas, ocorreu o inverso: 45% foram classificados na esquerda ou centro-esquerda e 28% na direita ou centro-direita.
O mesmo eleitor, portanto, pode defender posições associadas a campos políticos diferentes. A própria pesquisa encontrou maioria favorável à proteção oferecida pelas leis trabalhistas, ao mesmo tempo em que 65% concordaram mais com a ideia de que depender menos do governo melhora a vida das pessoas. Em outra questão, metade preferiu pagar menos impostos e contratar saúde e educação privadas, enquanto 44% escolheram a alternativa de pagar mais impostos e receber esses serviços gratuitamente.
Não existe aí necessariamente uma incoerência. Existe uma pessoa organizando prioridades que não precisam caber perfeitamente nas categorias utilizadas por partidos, candidatos ou cientistas políticos. A questão eleitoral passa a ser qual dessas posições pesa mais no momento da escolha.
É nesse espaço que aparece o pertencimento político.
Antes da proposta, o reconhecimento
O eleitor não precisa ler um programa partidário para concluir que pertence a determinado campo. Pode chegar a essa identificação pela religião, pela experiência com a violência, pela maneira como entende o trabalho, pela confiança em determinadas instituições, pela rejeição a outras, pelos políticos que admira e também por aqueles que considera adversários.
Isso ajuda a explicar por que conhecer pouco sobre os projetos de um candidato não significa necessariamente ausência de motivação para votar nele. O eleitor pode desconhecer o que aquele político pretende apresentar no Congresso e, ainda assim, saber quais valores associa a ele, quais posições costuma defender e de que lado das disputas políticas acredita que ele esteja.
A representação, nesse caso, começa antes da eleição.
Durante a campanha, ao discutir a força política de Campinas, a Gazeta ouviu o cientista político e vereador Wagner Romão sobre a diferença entre simplesmente possuir representantes e transformar votos, interesses e articulação em capacidade efetiva de atuação política. A eleição acrescenta uma questão anterior a esse processo: antes de transformar o voto em representação institucional, é preciso compreender por que o eleitor reconheceu determinada pessoa como representante.
Esse reconhecimento não precisa ser econômico.
Um trabalhador pode não enxergar no candidato alguém que vive como ele, recebe o que ele recebe ou enfrenta as mesmas dificuldades materiais. Ainda assim, pode reconhecer naquele político alguém que interpreta o mundo de maneira semelhante à sua. A proximidade que produz representação deixa de ser social e passa a ser política, moral, religiosa ou cultural.
É por isso que a pergunta “por que o pobre vota no rico?” pode partir de uma premissa insuficiente. Ela pressupõe que a posição de classe deveria prevalecer sobre todas as demais dimensões da vida. Talvez seja mais produtivo perguntar por que, para determinado eleitor, a diferença econômica entre ele e seu candidato pesa menos do que aquilo que acredita compartilhar com esse candidato.
A mesma lógica ajuda a compreender outra aparente contradição: o eleitor que condena a corrupção e mantém o voto em um político envolvido em acusações ou episódios que, no adversário, provavelmente reprovaria.
Nesse caso, o pertencimento pode interferir não apenas na escolha, mas na interpretação do próprio fato. A acusação contra o adversário pode confirmar uma convicção anterior. Quando atinge alguém do próprio campo, pode ser considerada exagerada, injusta, seletiva ou politicamente motivada. A corrupção continua sendo rejeitada como princípio; o que muda é a maneira como cada caso é interpretado.
Esse mecanismo não pertence exclusivamente à direita. Identificação partidária, rejeição ao adversário e confiança seletiva também podem existir entre eleitores de esquerda. O dado politicamente relevante de 2026 é outro: foi a direita que conseguiu transformar essa identificação em uma vantagem eleitoral particularmente expressiva.
Bolsonaro e a construção de uma identidade política
Jair Bolsonaro continua central para compreender esse processo. Sua ausência da disputa presidencial não retirou o sobrenome Bolsonaro do centro da eleição. Flávio Bolsonaro recebeu mais de 56 milhões de votos no primeiro turno e chegou ao segundo turno na primeira colocação. Ao mesmo tempo, o PL ampliou sua bancada na Câmara, enquanto lideranças como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato alcançaram votações superiores a 3 milhões de votos.
O resultado sugere que o bolsonarismo não pode ser entendido apenas como a relação entre Jair Bolsonaro e seus eleitores. O ex-presidente permanece como referência central, mas ao redor dele se consolidou um campo político capaz de eleger outras lideranças e de organizar diferentes temas sob uma identidade reconhecível.
Segurança, religião, costumes, antipetismo, críticas ao STF, mérito, liberdade econômica e rejeição a pautas progressistas não possuem a mesma importância para todos os eleitores e nem sempre formam um conjunto perfeitamente coerente. Ainda assim, podem funcionar como sinais de reconhecimento. Pessoas diferentes encontram razões diferentes para concluir que pertencem ao mesmo campo político.
As redes sociais potencializam esse processo, mas não o explicam sozinhas. Elas permitem que o político mantenha uma relação cotidiana com seu público, selecione acontecimentos, interprete fatos e reforce posições compartilhadas. O alcance ajuda a construir notoriedade; não explica, por si só, por que determinada mensagem encontra ressonância.
As votações de Nikolas e Pavanato tornam essa distinção especialmente importante. Ambos construíram forte presença digital, mas atribuir mais de 3 milhões de votos de cada um apenas às redes seria confundir o meio com aquilo que circula por ele. A pergunta politicamente mais interessante é por que tanta gente reconhece nessas lideranças uma maneira de interpretar o país próxima da sua.
E a esquerda?
O mesmo raciocínio produz uma pergunta inevitável para a esquerda.
Se a matriz do Datafolha encontrou maior afinidade com posições de esquerda no eixo econômico, por que essa proximidade não se transforma automaticamente em identificação eleitoral com partidos e candidatos desse campo?
Talvez porque representação política seja mais complexa que concordância programática.
O trabalhador contemporâneo pode ser empregado com carteira assinada, autônomo, motorista de aplicativo, microempreendedor, comerciante ou combinar várias dessas condições ao longo da vida. Pode depender de serviços públicos e reclamar dos impostos; defender direitos trabalhistas e se enxergar como empreendedor; preocupar-se com salário e inflação, mas considerar violência, religião ou costumes determinantes para o voto.
Nesse cenário, defender políticas destinadas aos trabalhadores não garante automaticamente ser reconhecido politicamente por eles. Entre uma política pública e um voto existe uma etapa subjetiva: o eleitor precisa enxergar naquela força política alguém que o representa.
Esse talvez seja um dos desafios colocados pelo resultado de 2026 à esquerda brasileira. Não apenas descobrir quais propostas apresentar, mas compreender por que determinadas parcelas da sociedade podem concordar com algumas de suas posições econômicas e, ainda assim, não se reconhecer politicamente nela.
A questão também impede uma explicação fácil para o avanço da direita. Não basta atribuí-lo às redes sociais, à religião, à desinformação, à economia ou a qualquer fator isolado. Cada um deles pode participar da decisão. O que interessa compreender é como esses elementos se combinam até produzir identificação política.
O eleitor diante do espelho
A eleição de 2026 não permite reduzir milhões de votos a uma única motivação. Economia, segurança, religião, avaliação do governo, rejeição política, experiência pessoal e identificação com lideranças se combinam de maneiras diferentes. Transformar qualquer eleitorado em um grupo uniforme seria substituir análise por caricatura.
Os resultados, porém, permitem fazer uma pergunta que vai além da contagem dos votos: o que faz alguém reconhecer um político como seu representante?
As entrevistas realizadas durante a campanha oferecem uma pista. Há eleitores que não sabem citar um projeto do candidato escolhido, mas sabem quais valores associam a ele, quem ele enfrenta e de que lado acreditam que esteja.
Talvez seja essa uma das chaves para compreender o que saiu das urnas em 2026.
O candidato não precisa viver como seu eleitor, ter a mesma renda ou pertencer à mesma classe social. Para representá-lo politicamente, pode pesar mais outra forma de proximidade.
“Ele pensa como eu.”

