Comportamento

Quando cada um vê um mundo diferente, o que ainda chamamos de realidade?

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Algoritmos, escolhas pessoais, relações sociais e até mecanismos da memória participam da maneira como percebemos o mundo. Não é preciso viver numa realidade falsa para que pessoas diferentes construam percepções muito distintas a partir de fragmentos verdadeiros da mesma realidade

Duas pessoas acordam na mesma cidade, na mesma manhã, e consultam o celular antes de sair de casa. Uma encontra notícias sobre violência, crise econômica, conflitos políticos e denúncias de corrupção. A outra vê novos restaurantes, oportunidades profissionais, viagens, humor e histórias de empreendedorismo.

Depois de alguns minutos, ambas tiveram contato com acontecimentos reais. As notícias podem estar corretamente apuradas, as imagens podem ser autênticas e os fatos podem efetivamente ter ocorrido. Ainda assim, cada uma recebeu uma representação muito diferente do lugar e do tempo em que vive.

A diferença está também na seleção. Ninguém consegue acompanhar tudo o que acontece, e qualquer compreensão da realidade depende daquilo que recebeu atenção e daquilo que permaneceu fora do campo de visão.

Esse processo não começou com as redes sociais. Um jornal escolhe quais acontecimentos vão para a primeira página. Uma emissora decide o que entra no telejornal. Famílias, escolas, grupos religiosos, círculos profissionais e relações de amizade também participam da circulação de informações.

O ambiente digital acrescentou escala e personalização. Buscadores, redes sociais e plataformas de vídeo podem organizar conteúdos de maneira diferente para usuários diferentes. Ao mesmo tempo, cada pessoa escolhe quem seguir, onde clicar, o que pesquisar e quais fontes considerar confiáveis.

A percepção que emerge dessa combinação não é produto exclusivo de uma máquina nem resultado apenas da vontade individual.

Das sombras de Platão às telas do celular

Há mais de dois mil anos, Platão formulou uma das imagens mais conhecidas da filosofia ocidental para discutir a diferença entre aquilo que percebemos e aquilo que existe.

No Livro VII de A República, Sócrates descreve pessoas mantidas desde a infância no interior de uma caverna, posicionadas de maneira que conseguem observar apenas uma parede. Atrás delas existe uma fonte de luz. Objetos que passam diante dessa luz projetam sombras e, como os prisioneiros não conhecem outra experiência, aquelas projeções constituem o mundo que conseguem perceber.

A força da alegoria não depende apenas de as sombras serem falsas. Elas são uma representação limitada de algo que os prisioneiros não conseguem observar diretamente.

Em 1999, Matrix transportou uma questão semelhante para a ficção científica. No filme, milhões de seres humanos experimentam como verdadeira uma realidade produzida artificialmente. Trabalham, caminham pelas ruas, comem e estabelecem relações sem saber que aquilo que percebem é produzido por um sistema.

Existe, entretanto, uma diferença importante. Os prisioneiros de Platão compartilham as sombras da caverna e os habitantes da Matrix compartilham a mesma simulação. O ambiente informacional contemporâneo introduz outra possibilidade: a seleção pode variar de pessoa para pessoa.

Não é necessário que exista uma realidade artificial completa. Diferentes indivíduos podem receber combinações distintas daquilo que realmente acontece no mundo.

A bolha é mais complicada do que parece

A expressão “bolha de filtro” ganhou popularidade para descrever o risco de sistemas personalizados restringirem progressivamente a diversidade das informações apresentadas aos usuários.

A ideia chamou atenção para uma característica relevante da internet: aquilo que aparece na tela de uma pessoa não precisa coincidir com aquilo que aparece para outra. Com o tempo, porém, a expressão também passou a servir como explicação quase automática para polarização e isolamento ideológico.

A pesquisa científica apresenta um quadro mais complexo.

Em 2015, um estudo publicado na revista Science analisou como 10,1 milhões de usuários americanos do Facebook entravam em contato com notícias compartilhadas na plataforma. Os pesquisadores encontraram influência do ranking algorítmico sobre a exposição a conteúdos ideologicamente divergentes, mas concluíram que as escolhas dos próprios usuários desempenhavam papel ainda maior na limitação do conteúdo efetivamente consumido.

O resultado precisa ser interpretado dentro de seus limites. Tratava-se de uma plataforma específica, de usuários americanos e de determinado período. Além disso, os autores estavam vinculados ao Facebook, que financiou o trabalho. A pesquisa não permite transformar aquela relação entre algoritmo e escolha individual em regra universal para todas as redes sociais.

Estudos posteriores encontraram outras razões para observar também o comportamento dos usuários.

Em pesquisa publicada pela Nature em 2023, pesquisadores acompanharam a exposição e o engajamento com notícias no Google Search durante as eleições americanas de 2018 e 2020. O trabalho separou aquilo que aparecia nos resultados de busca daquilo que as pessoas efetivamente decidiam acessar.

Os participantes escolheram consumir notícias mais partidárias do que aquelas às quais haviam sido inicialmente expostos. O estudo também encontrou maior concentração de conteúdo de baixa confiabilidade entre aquilo que determinados usuários decidiram acessar do que entre os resultados apresentados pelo mecanismo de busca.

Naquele contexto, portanto, as escolhas individuais tiveram peso importante para explicar o consumo de informação. Isso não torna os sistemas digitais neutros, mas mostra que o usuário também participa da construção do ambiente informacional que frequenta.

Antes do algoritmo, já escolhíamos o que olhar

As pessoas chegam às plataformas carregando experiências, valores, relações sociais, preferências e opiniões anteriores. Escolhem determinadas pessoas para acompanhar, abandonam páginas que perderam interesse, procuram assuntos específicos e prestam mais atenção a alguns conteúdos do que a outros.

Também tendemos a conviver mais intensamente com determinados grupos. Amigos apresentam livros, músicas, notícias e opiniões. Colegas de profissão compartilham preocupações semelhantes. Famílias mantêm referências culturais próprias. Comunidades estabelecem assuntos considerados importantes e fontes consideradas confiáveis.

Duas pessoas, portanto, nunca tiveram exatamente a mesma janela para o mundo, mesmo antes da internet. O que mudou foi a capacidade tecnológica de observar continuamente essas escolhas e utilizá-las na organização das informações seguintes.

Uma banca de jornal oferece as mesmas capas a quem passa pela calçada. Um telejornal transmite a mesma sequência de notícias para milhões de espectadores. Um feed personalizado pode apresentar combinações diferentes para cada usuário.

A escolha individual continua existindo, mas acontece dentro de um ambiente que também responde ao comportamento de quem o utiliza.

O algoritmo também participa

Um experimento publicado em 2024 no periódico científico PNAS Nexus acompanhou durante um mês 2.142 usuários frequentes do YouTube para investigar como alterações nos sinais fornecidos ao sistema afetavam as recomendações da plataforma e o consumo posterior.

A intervenção aumentou a quantidade de notícias recomendadas e consumidas pelos participantes e tornou mais diversa a dieta informacional observada. Os pesquisadores encontraram ainda um ciclo de retroalimentação entre recomendação e consumo.

Outro resultado impede uma conclusão simplista: apesar da mudança no consumo de notícias, o experimento não encontrou alterações detectáveis em diversas atitudes políticas e crenças avaliadas durante o estudo.

A exposição importa, portanto, mas não funciona como um comando. Colocar determinada informação diante de alguém pode aumentar a possibilidade de consumo sem necessariamente transformar suas convicções.

Quando a própria memória faz a realidade parecer estranha

Há uma pequena cena de Matrix que se tornou uma das imagens mais conhecidas do filme. Neo observa um gato preto passar diante de uma porta e, logo depois, parece assistir exatamente à mesma cena.

“Déjà-vu”, comenta.

Para os personagens, aquilo é um alerta. Dentro da lógica do filme, a repetição indica que alguma coisa foi modificada na Matrix.

A cena funciona porque utiliza uma experiência que existe fora da ficção. Muitas pessoas já tiveram a estranha sensação de que um lugar, uma conversa ou determinado acontecimento já foi vivido exatamente daquela maneira, mesmo sabendo que a situação é nova.

A ciência não trata o fenômeno como indício de uma falha na realidade. Pesquisas sobre memória descrevem o déjà-vu justamente pela coexistência de duas avaliações contraditórias: uma situação produz forte sensação de familiaridade ao mesmo tempo que a pessoa reconhece que aquilo deveria ser novo.

Não existe uma única explicação estabelecida para todos os episódios. Estudos experimentais mostram, por exemplo, que uma situação nova com configuração espacial semelhante a outra vista anteriormente pode aumentar tanto a sensação de familiaridade quanto relatos de déjà-vu, mesmo quando a pessoa não consegue recuperar conscientemente a experiência anterior.

O interessante para esta discussão está menos em descobrir por que Neo viu o gato duas vezes e mais na experiência que a cena representa. Por alguns instantes, aquilo que sentimos e aquilo que sabemos parecem não combinar.

O déjà-vu não demonstra que vivemos numa simulação. Mostra algo muito mais cotidiano: nossa experiência da realidade depende também dos mecanismos pelos quais o cérebro reconhece, recorda e interpreta aquilo que está diante de nós.

Em Matrix, a sensação denuncia uma alteração no sistema. Fora do cinema, ela revela uma característica nossa.

Partes diferentes de uma realidade verdadeira

O problema ganha outra dimensão quando deixamos a memória individual e voltamos ao ambiente informacional.

Uma pessoa interessada em segurança pública pode receber diariamente notícias sobre roubos, homicídios e operações policiais. Outra, acompanhando negócios e inovação, pode encontrar sucessivas histórias de empresas em expansão. Uma terceira acompanha questões ambientais, enquanto outra concentra seu tempo em esportes, gastronomia ou entretenimento.

Todos esses acontecimentos podem ser verdadeiros. A repetição de alguns temas e a ausência de outros, entretanto, produzem recortes.

Se determinados fatos aparecem todos os dias enquanto outros raramente chegam à tela, pessoas diferentes podem desenvolver percepções distintas sobre aquilo que é frequente, urgente ou representativo da sociedade.

É nesse ponto que a comparação com Matrix encontra seu limite e, ao mesmo tempo, sua utilidade.

Não precisamos imaginar uma máquina escondendo uma realidade verdadeira de toda a humanidade e colocando outra em seu lugar. Talvez o problema contemporâneo não seja estarmos vendo uma realidade falsa, mas partes diferentes de uma realidade verdadeira.

Duas pessoas podem discordar não apenas sobre como interpretar os mesmos acontecimentos, mas sobre quais acontecimentos merecem ser considerados relevantes.

Quando desaparece o mundo em comum

Uma sociedade não depende de unanimidade. Jornalismo, ciência e democracia existem justamente porque fatos podem ser investigados, hipóteses podem ser confrontadas e interpretações podem divergir.

A discordância, entretanto, necessita de algum terreno comum.

É possível discutir as causas de um problema, sua gravidade ou a melhor maneira de enfrentá-lo. A conversa se torna mais difícil quando grupos diferentes sequer reconhecem os mesmos acontecimentos como relevantes.

Para o jornalismo, essa fragmentação cria um desafio particular.

Durante grande parte do século XX, jornais impressos e telejornais de grande audiência ajudavam, com todos os seus limites e critérios editoriais, a estabelecer uma agenda relativamente compartilhada de acontecimentos públicos. Milhões de pessoas podiam discordar da interpretação de uma notícia, mas sabiam que outras milhões também haviam sido expostas a ela.

A circulação digital enfraqueceu parte dessa experiência comum. Isso não significa que tenha existido no passado uma sociedade perfeitamente informada ou uma imprensa capaz de representar toda a realidade. Significa que a personalização multiplicou os caminhos pelos quais acontecimentos chegam — ou deixam de chegar — às pessoas.

Platão imaginou prisioneiros observando sombras na mesma parede.

Matrix imaginou uma humanidade conectada à mesma simulação.

O ambiente digital acrescentou uma possibilidade diferente: continuamos vivendo no mesmo mundo, mas podemos observá-lo através de janelas cada vez mais particulares.

O déjà-vu acrescenta uma provocação de outra natureza. Às vezes, nem precisamos de uma máquina para experimentar por alguns segundos a sensação de que existe alguma coisa estranha na realidade. Nosso próprio sistema de memória pode produzir familiaridade quando conscientemente esperamos novidade.

Isso não transforma o mundo numa simulação. Apenas lembra que entre o mundo e aquilo que experimentamos como realidade existe sempre um observador — com memória, expectativas, escolhas, limitações e uma janela particular para aquilo que acontece.

A questão, então, deixa de ser apenas quem está certo ou errado.

Passa a ser outra: quanto de realidade compartilhada uma sociedade precisa preservar para ainda conseguir discutir consigo mesma?