Ainda dá tempo
CRÔNICAS METROPOLITANAS – Por Alvin Wolf
Passei boa parte da vida dizendo “um dia”.
Um dia eu faço.
Um dia eu vou.
Um dia eu aprendo.
Um dia eu ligo.
Um dia a gente marca.
O problema é que nunca encontrei esse tal de “um dia” no calendário.
Procurei. Juro.
Tem segunda, terça, quarta, feriado, aniversário, boleto vencendo, consulta marcada, reunião que poderia ter sido um e-mail. Mas “um dia” não tem.
E mesmo assim passei anos depositando coisas nele.
Talvez você também tenha feito isso.
Quando somos mais jovens, o tempo parece uma espécie de conta bancária com saldo infinito. Gastamos sem olhar o extrato. Uma tarde jogada fora não significa nada. Um ano passa e haverá outro. Uma viagem pode ficar para depois. Um projeto pode esperar. O amigo a gente encontra qualquer hora.
Qualquer hora.
Outra unidade de tempo que também não existe.
Demorei para perceber isso.
Não aconteceu numa manhã especial. Não acordei iluminado, ouvindo passarinhos, disposto a mudar minha vida antes do café.
Foi chegando aos poucos.
Primeiro você percebe que algumas músicas que marcaram sua juventude estão fazendo quarenta anos.
Depois encontra alguém que não via havia muito tempo e pensa: “Nossa, como ele envelheceu”.
Até passar por um espelho e descobrir, com certa indignação, que o sujeito também deve ter pensado a mesma coisa de você.
O espelho, aliás, poderia ter um pouco mais de educação.
Mas não é exatamente a velhice que assusta.
É outra coisa.
Em determinado momento da vida, começamos a fazer umas contas que ninguém ensina na escola.
Quantos verões ainda vou ver?
Quantas vezes ainda vou entrar no mar?
Quantos Natais ainda vou passar com determinadas pessoas?
Quantos cafés ainda vou tomar com aquele amigo?
Quantas viagens ainda cabem?
Quantos livros ainda conseguirei ler?
Quantas pessoas interessantes ainda vou conhecer?
Quantas vezes ainda vou me apaixonar?
E não falo apenas de amor.
A gente se apaixona por uma pessoa, claro. Mas também por uma cidade. Por uma música. Por uma profissão. Por uma ideia maluca. Por um restaurante escondido numa rua qualquer. Por uma manhã de sol. Por um projeto que ninguém entende direito além de nós mesmos.
Será que ainda vou me apaixonar muitas vezes?
Espero que sim.
Porque talvez envelhecer tenha menos a ver com a quantidade de anos que carregamos e mais com a quantidade de coisas que ainda conseguem nos despertar curiosidade.
Só que há uma verdade inconveniente nisso tudo.
Talvez não dê mais tempo para tudo.
Pronto.
Escrevi.
E curiosamente essa constatação, que poderia ser triste, começou a me parecer libertadora.
Não dá tempo para tudo.
Então talvez tenha chegado a hora de escolher.
Escolher para quem queremos telefonar.
Onde ainda queremos ir.
Com quem queremos sentar à mesa.
Que projeto merece finalmente sair da gaveta.
Que pedido de desculpas já passou tempo demais esperando.
Que abraço não deveria ser adiado.
E também o que não merece mais nenhum minuto nosso.
Essa talvez seja uma das vantagens de perceber que o tempo tem limite: ficamos um pouco menos dispostos a desperdiçá-lo.
Eu desperdicei bastante.
Insisti em coisas que não valiam a pena. Adiei outras que valiam. Dei importância demais para algumas pessoas e atenção de menos para outras. Fiquei preocupado com problemas que desapareceram sozinhos e provavelmente perdi noites de sono tentando resolver coisas das quais hoje nem consigo me lembrar.
Fiz escolhas erradas.
Ainda faço.
Essa história de que a maturidade traz todas as respostas deve ter sido inventada por alguém bem mais jovem.
A maturidade, pelo menos a minha, trouxe perguntas melhores.
E uma delas anda me acompanhando:
Para o que eu ainda quero que dê tempo?
Não sei a sua resposta.
Aliás, talvez seja justamente esse o ponto.
Passei boa parte da vida acreditando que precisava fazer muitas coisas.
Hoje começo a desconfiar de que preciso fazer algumas.
Mas fazê-las de verdade.
Estar onde estou.
Ouvir quem está falando comigo.
Tomar café enquanto ele ainda está quente.
Dizer “eu gosto de você” enquanto a pessoa pode ouvir.
Começar aquele projeto mesmo sem saber se dará certo.
Ir.
Voltar.
Ficar.
Desistir, se for preciso.
Recomeçar, se ainda fizer sentido.
Não quero transformar isso numa lista de conselhos. Deus me livre. Tenho dificuldade suficiente para administrar minha própria vida.
Só estou contando uma coisa que descobri tarde — embora, espero, não tarde demais.
“Um dia” é uma péssima data.
Hoje funciona melhor.
Não sei quanto tempo ainda tenho.
Você também não sabe quanto tem.
E talvez essa seja uma das poucas coisas que nos tornam absolutamente iguais.
Mas enquanto escrevo estas linhas, há uma janela aberta, gente passando na rua, alguma coisa acontecendo em algum lugar e um pedaço de vida ainda esperando para ser vivido.
Ainda dá tempo.
Não para tudo.
Mas para alguma coisa.
E talvez a pergunta mais importante seja justamente esta:
para o que você quer que ainda dê tempo?

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

