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O mapa-múndi que aprendemos na escola distorce o tamanho dos países. Entenda por quê

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Após votação na ONU, debate sobre projeções cartográficas mostra por que a África parece menor nos mapas tradicionais e como diferentes representações mudam nossa percepção do planeta

A África tem aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia. Apesar disso, as duas regiões podem parecer quase do mesmo tamanho em um mapa-múndi tradicional. A diferença não está nas dimensões reais dos territórios, mas na maneira como a superfície curva da Terra é representada em uma folha de papel ou na tela de um computador.

Projeção de Mercator do mundo entre 85°S e 85°N – Fonte: Wikipedia

A questão ganhou destaque internacional em 4 de setembro de 2026, quando a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que incentiva o uso de mapas capazes de preservar as proporções das áreas continentais.

A proposta recebeu 164 votos favoráveis, um contrário, dos Estados Unidos, e seis abstenções. Apresentada pelo Togo, com apoio da União Africana, a iniciativa defende maior utilização de projeções equivalentes, como a Equal Earth.

A decisão não proíbe o mapa de Mercator, amplamente conhecido nas escolas, nem determina a adoção obrigatória de um novo modelo. O objetivo é estimular representações adequadas à comparação entre áreas geográficas e ampliar o conhecimento sobre as limitações dos mapas.

Por que a Groenlândia parece tão grande?

A projeção de Mercator foi desenvolvida em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator para atender às necessidades da navegação marítima.

Uma de suas características é representar linhas de rumo constante como retas. Isso facilitava o planejamento de rotas com auxílio da bússola, embora não significasse preservar todas as distâncias ou indicar necessariamente o trajeto mais curto entre dois pontos.

Essa propriedade tem um custo: as áreas representadas aumentam progressivamente à medida que se afastam da linha do Equador.

A Groenlândia, situada em altas latitudes do Hemisfério Norte, aparece muito ampliada. Já a África, atravessada pelo Equador, sofre uma ampliação relativamente menor.

Na realidade, o continente africano possui cerca de 30,3 milhões de quilômetros quadrados. A Groenlândia tem aproximadamente 2,16 milhões. A África, portanto, é cerca de 14 vezes maior.

Mercator não cometeu um erro ao desenhar seu mapa. Ele desenvolveu uma solução matemática para uma finalidade específica. A distorção das áreas é uma consequência dessa escolha.

Por que não existe um mapa-múndi perfeito?

Transformar a superfície curva da Terra em uma imagem plana exige distorções. É impossível preservar simultaneamente todas as áreas, formas, distâncias e direções em um único mapa.

O tema foi explicado pelo divulgador científico Eduardo Sato em um artigo publicado em novembro de 2017 no blog Torta de Maçã Primordial, integrante dos Blogs de Ciência da Unicamp.

No texto, intitulado “Será que você sabe ler o mapa-múndi? Eu não sei!”, Sato utiliza a comparação entre Argentina e Groenlândia para mostrar como uma projeção pode alterar nossa percepção das dimensões territoriais.

A Argentina tem aproximadamente 2,78 milhões de quilômetros quadrados, enquanto a Groenlândia possui cerca de 2,16 milhões. Apesar disso, a ilha ártica pode parecer maior quando observada na projeção de Mercator.

O autor também apresenta alternativas cartográficas que preservam determinadas propriedades, mas sacrificam outras.

A escolha de uma projeção depende, portanto, da finalidade do mapa. Um sistema adequado à navegação pode não ser o mais indicado para comparar o tamanho dos países. Da mesma forma, uma projeção que preserva as áreas apresenta distorções em outras características geométricas.

Projeção da Terra igual. Graticulado de 15°. A imagem é derivada do compósito do mês de verão do Blue Marble da NASA, com os oceanos clareados para melhorar a legibilidade e o contraste. Imagem criada com o software de projeções cartográficas Geocart.

O que é a projeção Equal Earth?

Desenvolvida em 2018, a Equal Earth é uma projeção equivalente. Isso significa que mantém as proporções relativas das áreas representadas.

Nela, a África aparece com dimensões compatíveis com sua extensão territorial em relação à Europa, à América do Norte e à Groenlândia.

A projeção não altera fronteiras nem redesenha os continentes. Ela utiliza outro método matemático para representar a superfície terrestre.

Também não elimina todas as distorções. Formas e ângulos podem ser modificados, mas as proporções entre as áreas são preservadas.

Por essa característica, a Equal Earth e outras projeções equivalentes são úteis em materiais educacionais e mapas destinados à comparação territorial.

Por que a discussão chegou à ONU?

A proposta foi apresentada pelo Togo, com apoio da União Africana, em meio a um debate sobre a representação do continente africano em mapas utilizados internacionalmente.

Os defensores da iniciativa argumentam que a presença histórica da projeção de Mercator em materiais escolares e institucionais pode contribuir para uma percepção desproporcional das dimensões dos continentes.

O assunto também foi abordado por Élide Valarini Oliver em uma coluna publicada no Jornal da Unicamp em 11 de setembro de 2026.

No artigo “We are not foreigners!”, a autora relaciona a discussão cartográfica à maneira como diferentes regiões do planeta são representadas e percebidas historicamente.

Essa interpretação acrescenta uma dimensão cultural ao debate, mas deve ser distinguida do aspecto matemático: a ampliação das áreas em altas latitudes na projeção de Mercator é uma propriedade demonstrável. Seus possíveis efeitos sobre percepções sociais e relações de poder envolvem outras questões históricas e educacionais.

A iniciativa levada à ONU reúne essas duas preocupações: promover representações proporcionais e ampliar a compreensão pública sobre as escolhas envolvidas na elaboração dos mapas.

Por que os Estados Unidos votaram contra?

Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a proposta. Sua representação criticou aspectos políticos e ideológicos da iniciativa.

O Togo, por sua vez, defendeu que a resolução busca ampliar o uso de representações proporcionais e não condenar todas as aplicações da projeção de Mercator.

Outros seis países se abstiveram: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.

A Ucrânia apresentou preocupações relacionadas à representação de territórios ocupados pela Rússia em mapas associados ao debate. A discussão sobre projeções cartográficas, entretanto, não altera fronteiras nem o reconhecimento internacional da soberania sobre esses territórios.

As manifestações mostram que uma questão aparentemente restrita à geografia também pode envolver disputas diplomáticas. Elas não modificam, porém, as propriedades matemáticas das projeções.

O mapa de Mercator vai desaparecer?

Não há determinação para substituir imediatamente os mapas utilizados em escolas, atlas ou aplicativos de navegação.

A resolução da ONU incentiva o uso de projeções equivalentes quando a comparação proporcional das áreas for importante. Mercator continua tendo aplicações específicas, sobretudo por suas propriedades relacionadas à representação de rumos.

O principal aprendizado é que nenhum mapa plano reproduz perfeitamente a Terra.

Antes de comparar o tamanho de dois países em um mapa-múndi, vale saber qual projeção foi utilizada. Dependendo da escolha, o desenho pode ajudar a compreender as dimensões reais dos territórios — ou produzir uma impressão bastante diferente delas.