A esperança venceu o medo. Outra vez?
Crônicas Metropolitanas | Alvin Wolf
Há lágrimas que não nascem da tristeza. Nascem do instante em que uma angústia, carregada por tempo demais, finalmente encontra descanso.
Foi o que vi naquele domingo.
Pessoas choravam ao receber a notícia da reeleição de Lula. Algumas se abraçavam. Outras sorriam com os olhos ainda molhados. Era o alívio de quem havia atravessado os últimos dias temendo um resultado diferente.
Mas não foram apenas as lágrimas que me marcaram.
Houve também os gritos.
Vieram do alto dos edifícios, rasgando a noite, como se a cidade, depois de prender a respiração por tanto tempo, finalmente pudesse respirar. Não eram apenas vozes celebrando uma vitória. Eram angústias antigas encontrando uma saída, medos que já não cabiam no peito, sentimentos represados que escapavam pelas janelas e ganhavam o céu.
Havia algo de libertador naquele clamor. Como se cada voz tentasse arrancar da alma o último vestígio da aflição. Como se, por um instante, a cidade inteira tivesse encontrado coragem para gritar aquilo que as palavras já não conseguiam dizer.
Uma eleição pode ser reduzida a números, percentuais e mapas coloridos. Mas aqueles rostos e aquelas vozes contavam uma história que nenhuma estatística seria capaz de narrar.
E, de repente, lembrei-me de uma frase antiga.
“A esperança venceu o medo.”
Lula a pronunciou em 2002, quando conquistou a Presidência da República pela primeira vez. Naquele Brasil, o medo era frequentemente associado à própria figura do candidato.
Um operário no Palácio do Planalto? Um sindicalista comandando a economia? Um homem que conhecera a fome governando um país acostumado a entregar o poder a quem jamais precisara explicar o que significava não ter o suficiente?
Para uns, a possibilidade representava uma transformação histórica. Para outros, despertava uma inquietação profunda.
A campanha adversária soube explorar essa insegurança. Regina Duarte apareceu na televisão dizendo que estava com medo. Sua declaração se tornou um dos retratos mais conhecidos daquela eleição.
Mas Lula venceu.
E a esperança, naquele outubro de 2002, tinha o significado de uma porta que se abria.
Vinte e quatro anos depois, a frase retornou à minha memória. Não porque a história tivesse se repetido, mas porque havia mudado.
Entre as pessoas cuja emoção testemunhei em 2026, o medo já não tinha o rosto de Lula. Tinha o sobrenome Bolsonaro.
Era o receio de uma nova Presidência da família, alimentado por preocupações com o futuro da democracia, com os direitos e com os rumos do país.
A eleição terminou. E o medo que havia atravessado tantos dias encontrou sua resposta nas ruas, nas janelas, nos rostos iluminados pela alegria.
Penso que há algo profundamente humano nessa cena. Passamos boa parte da vida tentando proteger aquilo que amamos: nossos filhos, nossos sonhos, a liberdade de escolher o próprio caminho. E, às vezes, uma decisão coletiva parece reunir todas essas preocupações em um único domingo.
Talvez por isso certas vitórias provoquem lágrimas. E talvez por isso algumas pessoas precisem gritar.
Não apenas pela pessoa que venceu, mas por tudo aquilo que cada um acredita ter preservado, recuperado ou tornado possível.
Em 2002, a esperança de muitos brasileiros era conhecer um país que ainda não havia existido sob a Presidência de Lula.
Em 2026, para aqueles que vi comemorar, era continuar acreditando no país que desejavam construir.
A frase permaneceu. O tempo mudou seu significado.
E há uma ironia nessa travessia de quase um quarto de século: o homem cuja chegada ao poder foi apresentada como motivo de medo tornou-se, para aqueles que celebravam sua reeleição, a resposta ao medo que sentiam de outro projeto político.
Naquela noite, porém, a história não estava nos discursos, nos números ou nas análises. Estava nas janelas abertas, nos braços que se encontravam, nas lágrimas que ninguém fazia questão de esconder.
Estava naquele grito que subia das sacadas e se perdia na imensidão da noite. Um grito que parecia trazer consigo todos os outros gritos que, durante tanto tempo, haviam permanecido presos na garganta.
E a cidade gritava.
Gritava por quem chorava. Por quem abraçava. Por quem já não encontrava palavras.
Gritava como quem se liberta de um pesadelo.
Como quem desperta.
Como quem volta a viver.
Foi então que uma frase de 2002 atravessou o tempo e encontrou, naquela noite, uma nova voz.
A esperança venceu o medo.
Outra vez.
E, finalmente, o Brasil pôde respirar.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

