Carta de bispos reacende debate sobre o papel da Igreja Católica na defesa da democracia e da justiça social
Manifesto divulgado às vésperas do segundo turno reúne 47 religiosos, critica posições atribuídas à candidatura de Flávio Bolsonaro e fundamenta seus argumentos na Doutrina Social da Igreja
Uma carta aberta assinada por 47 bispos católicos de 19 estados brasileiros faz duras críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e alerta para riscos à democracia, à soberania nacional e aos direitos sociais. Divulgado na quinta-feira (22), três dias antes do segundo turno, o manifesto defende que os eleitores católicos considerem os ensinamentos sociais da Igreja ao decidir seu voto.
Intitulado Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026, o documento não menciona nominalmente Flávio Bolsonaro nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entretanto, apresenta referências políticas e familiares que permitem identificar os dois candidatos. Os religiosos afirmam que o país enfrenta uma situação grave, na qual a escolha eleitoral pode produzir consequências profundas para a democracia e para a vida da população.
A carta foi publicada inicialmente pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, na noite de quinta-feira, quando reunia 35 assinaturas. Na manhã desta sexta-feira (23), a relação divulgada pelo g1 já apresentava 47 signatários. A articulação para a elaboração e divulgação do manifesto contou com a participação do movimento Bispos do Diálogo pelo Reino, que em agosto havia divulgado outra manifestação contra o que considera um avanço do conservadorismo autoritário.
Trabalho, pobreza e soberania nacional
Os bispos apresentam suas críticas a partir de documentos da Igreja Católica, relacionando propostas e posições políticas aos princípios da dignidade humana, do bem comum e da justiça social.
Na área trabalhista, questionam a posição atribuída a uma das candidaturas em relação ao fim da escala 6×1 e à remuneração por hora trabalhada. O manifesto cita a encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV, para defender que as transformações econômicas e tecnológicas sejam avaliadas não apenas pela eficiência, mas também pela dignidade do trabalhador, pelo direito a uma remuneração suficiente e pela possibilidade de participação na vida social.
A soberania brasileira é outro ponto central. Os signatários atribuem à candidatura criticada uma postura de submissão aos Estados Unidos e fazem acusações relacionadas às tarifas sobre produtos brasileiros, à interferência estrangeira no processo eleitoral e à exploração de terras raras. Essas alegações integram a avaliação política apresentada pelos autores do manifesto. Para fundamentar o argumento, recorrem ao ensinamento da Igreja sobre o direito dos povos à existência e à autodeterminação.
O combate à pobreza também ocupa espaço no documento. Os religiosos questionam a trajetória política do partido de um dos candidatos em relação aos programas sociais, embora reconheçam que ele tenha prometido manter algumas dessas iniciativas. A carta cita a exortação apostólica Dilexi Te, sobre o amor aos pobres, para reafirmar que a proteção das populações vulneráveis não pode depender exclusivamente das forças do mercado.
Armas, meio ambiente e memória da ditadura
Na questão da segurança, o manifesto critica propostas de ampliação do acesso a armas e as relaciona à política adotada durante o governo de Jair Bolsonaro. Os bispos contrapõem essa orientação ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que trata do desarmamento e dos riscos da proliferação de armamentos para a paz.
A política ambiental também é abordada. Com base na encíclica Laudato si’, do papa Francisco, os signatários criticam posições que associam à negação da crise climática e ao enfraquecimento da legislação de proteção ambiental. A carta menciona a Lei nº 15.190/2025, chamada pelos críticos de Lei da Devastação, como exemplo de retrocesso nessa área.
Outra passagem trata da tortura e da ditadura militar. Os bispos condenam homenagens feitas pela família Bolsonaro a Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército reconhecido judicialmente como torturador. O documento reafirma, com base na Doutrina Social da Igreja, que a tortura não pode ser justificada.
Ao abordar a democracia, os religiosos citam a encíclica Centesimus Annus, de João Paulo II, e alertam para os riscos da concentração de poder e do enfraquecimento das instituições. Também fazem referência aos regimes autoritários europeus do século XX para defender que ameaças à ordem democrática não devem ser ignoradas.
Comparação entre as candidaturas
Embora concentre suas críticas na candidatura identificável como a de Flávio Bolsonaro, a carta também apresenta uma avaliação da candidatura de Lula.
Os signatários reconhecem que o atual governo está sujeito a críticas, mas consideram que sua atuação demonstra responsabilidade com os mais pobres, a proteção ambiental e o respeito à Constituição. Essa comparação é apresentada pelos religiosos como parte do discernimento que propõem aos eleitores católicos.
A posição assumida no manifesto é dos bispos que o assinam. Suas avaliações sobre os candidatos não representam uma declaração eleitoral oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Manifesto declara alinhamento à CNBB
Os autores da carta afirmam expressamente estar em comunhão com a CNBB e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da entidade na quarta-feira (21).
No documento institucional, a Conferência defende a Constituição, o Estado Democrático de Direito, o respeito aos resultados legítimos das urnas e a participação consciente dos eleitores. Também destaca a importância do trabalho digno, da proteção social, da educação, da saúde e do cuidado com o meio ambiente.
A CNBB não manifesta apoio a candidatos. Procurada pelo g1, reiterou o conteúdo de sua mensagem oficial, sem comentar especificamente a carta dos 47 bispos.
A diferença está no alcance das manifestações: enquanto a CNBB apresenta orientações institucionais para o exercício do voto, os signatários da carta fazem uma avaliação concreta das candidaturas a partir dos princípios que afirmam compartilhar com a Conferência.
Bispo de Amparo está entre os signatários
A relação divulgada na manhã desta sexta-feira inclui dom Luiz Gonzaga Fechio, bispo da Diocese de Amparo, na região de Campinas. A presença do religioso acrescenta uma dimensão regional ao manifesto, que reúne representantes de diferentes dioceses e arquidioceses brasileiras.
Segundo dados da CNBB citados pelo g1, o Brasil possui 498 bispos, entre ativos e eméritos. Os 47 nomes apresentados no manifesto correspondem a aproximadamente 9,4% desse total.
A carta não representa, portanto, uma manifestação de todo o episcopado brasileiro, mas uma iniciativa coletiva de religiosos que decidiram tornar pública sua avaliação do cenário eleitoral.
A responsabilidade cristã diante das eleições
O manifesto começa com uma referência ao papa Leão XIV e à encíclica Magnifica Humanitas, utilizada pelos signatários para sustentar a necessidade de assumir uma posição diante de situações que consideram moralmente graves.
Na encíclica, dedicada à dignidade humana na era da inteligência artificial, a passagem citada trata da responsabilidade moral diante da violência contra civis e de outras situações graves. Os signatários utilizam esse ensinamento para justificar sua manifestação sobre as eleições brasileiras. Trata-se de uma interpretação dos autores da carta, e não de uma orientação eleitoral do papa.
A iniciativa se insere em uma tradição de participação social da Igreja Católica que remonta à encíclica Rerum Novarum, publicada por Leão XIII em 1891. No Brasil, essa atuação ganhou expressão nas Comunidades Eclesiais de Base, nas pastorais sociais e em movimentos ligados à defesa dos trabalhadores e dos direitos humanos.
Na conclusão, os bispos afirmam que não podem permanecer neutros diante do cenário que descrevem. Convocam os católicos a exercer o direito de voto no domingo (25), relacionando a participação eleitoral à defesa da democracia, dos pobres, dos valores humanitários e dos ensinamentos da Igreja.
A carta termina com um pedido de intercessão de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
Ao divulgar uma avaliação explícita das candidaturas às vésperas do segundo turno, os 47 signatários recolocam no debate público uma questão presente na história da Igreja Católica: como seus ensinamentos sobre dignidade humana, justiça social e democracia devem orientar a participação dos fiéis na vida política.
Fontes: Folha de S.Paulo, coluna de Mônica Bergamo e Karina Matias (22/10/2026); g1, reportagem de Camila da Silva (23/10/2026), com reprodução integral da carta e lista dos signatários; mensagem do Conselho Permanente da CNBB (21/10/2026).

