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Votou no Lula? Está demitido!

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Perderam a eleição. Agora, alguns querem punir quem votou diferente.

O trabalhador que ontem era competente hoje pode ser considerado indesejável. O comerciante vira inimigo. O profissional autônomo passa a ser julgado não pela qualidade do que faz, mas pelo candidato em quem votou. Até a fome de uma família parece depender de sua escolha eleitoral.

Não basta discordar do adversário. É preciso castigá-lo. E, para justificar o castigo, primeiro é necessário transformá-lo em alguém que o mereça.

Quem decide boicotar os eleitores de Lula precisará descobrir em quem votou o médico que atende seus filhos, a professora que alfabetiza seu neto, o mecânico que cuida do carro. E o motorista do ônibus? O cozinheiro do restaurante? A enfermeira que administra um medicamento?

Diante de uma emergência, alguém recusaria o atendimento de um profissional competente por causa de sua preferência eleitoral? Perguntaria ao bombeiro em quem votou antes de permitir que ele salvasse sua família?

E o comerciante? Colocaria uma placa na porta do estabelecimento anunciando: “Não vendemos para petistas”?

As perguntas parecem absurdas porque absurda é a ideia de que uma escolha eleitoral possa determinar quem merece trabalhar, comprar, vender ou receber ajuda.

A intolerância, porém, tem sua própria lógica. Para que a punição pareça aceitável, é preciso desqualificar quem será punido. Surgem os rótulos: preguiçoso, incapaz, desonesto, inimigo do país. Uma vida inteira de trabalho e relações é reduzida a uma escolha feita na urna. Até a origem regional se transforma em motivo de hostilidade, como se milhões de brasileiros fossem culpados pelo resultado de uma eleição.

O voto é secreto para proteger a liberdade do cidadão. Ainda assim, há quem pretenda transformá-lo em critério de contratação, motivo de demissão e sentença de exclusão econômica.

E muitos dos que defendem essas punições se apresentam como defensores da liberdade e do mérito. Mas que mérito é esse que deixa de reconhecer um bom funcionário por causa de seu voto? Que liberdade é essa que só existe para quem pensa igual?

A eleição terminou, mas as denúncias de assédio eleitoral continuam. Segundo pronunciamento do Ministério Público do Trabalho, cerca de 240 denúncias foram recebidas nas primeiras 24 horas após o segundo turno, em meio a manifestações que incentivavam demissões e retaliações contra trabalhadores por suas escolhas políticas. O órgão foi categórico: o empresário é dono do seu negócio, não do voto de seus empregados.

A contradição ultrapassa as relações de trabalho. Há quem exija punição rigorosa para os crimes dos adversários, mas veja perseguição em qualquer investigação contra seus aliados. Quem proclama a honestidade como valor inegociável não pode torná-la negociável conforme o partido. Quem reivindica liberdade para expressar suas opiniões não pode pretender silenciar todas as opiniões contrárias.

Um princípio só demonstra sua consistência quando continua valendo para aqueles de quem discordamos — e também para aqueles que apoiamos.

É nesse terreno que a fidelidade política pode se transformar em submissão. Defender uma liderança é um direito. Questionar decisões judiciais também. Mas nenhuma dessas liberdades coloca alguém acima da lei ou dispensa o respeito às instituições.

A direita brasileira existia antes do bolsonarismo e continuará existindo depois dele. Conservadorismo, liberalismo econômico e defesa da iniciativa privada não são sinônimos de intolerância. O problema começa quando as ideias perdem espaço para a lealdade incondicional a determinadas pessoas.

A derrota de Flávio Bolsonaro recoloca essa discussão no centro da vida política brasileira. Seus eleitores continuam tendo direito à representação, à oposição e à crítica ao governo. Mas o resultado das urnas também impõe um limite: nenhuma liderança pode reivindicar para si uma condição especial diante das instituições. Perder uma eleição não significa perder direitos. Tampouco significa estar dispensado de cumprir deveres.

Quando a defesa de uma pessoa se torna mais importante do que os princípios que se afirma defender, a contradição deixa de ser apenas política. Torna-se moral.

E essa incoerência se torna ainda mais dolorosa quando aparece em nome da fé.

Como alguém que prega o amor ao próximo pode desejar que um trabalhador perca o emprego por ter votado diferente? Como defender a família e, ao mesmo tempo, considerar aceitável retirar de outra família seu sustento? Desde quando a solidariedade depende da escolha eleitoral de quem precisa dela?

Não é a fé que está em julgamento, mas a distância entre aquilo que se prega e aquilo que se pratica. A misericórdia não pode ser reservada aos aliados. A dignidade não pode ser concedida apenas aos que compartilham nossas convicções.

Há uma diferença profunda entre ter princípios e transformá-los em armas contra os outros. A convicção política pode orientar escolhas, inspirar projetos e mobilizar pessoas. Mas, quando passa a determinar quem merece emprego, respeito ou solidariedade, torna-se uma tentativa de decidir quem tem direito de pertencer à sociedade.

O país, porém, não funciona em compartimentos eleitorais. Brasileiros que discordam uns dos outros continuam trabalhando, produzindo, ensinando, cuidando e dependendo uns dos outros. Nenhuma sociedade se sustenta exigindo uniformidade política de quem a mantém funcionando.

As urnas definem vencedores e derrotados. Não definem quem merece emprego, assistência, respeito ou o direito de continuar pertencendo à sociedade.

A democracia não exige unanimidade. Exige que a divergência não destrua os direitos que nos tornam iguais.

Porque o voto decide quem governa. Não decide quem merece viver com dignidade.