O que antes não podia, agora pode: a dupla poda redesenhou o vinho brasileiro
Pesquisa liderada por Murillo de Albuquerque Regina transferiu a colheita para o inverno, abriu novas fronteiras para os vinhos finos e transformou regiões de Minas Gerais ao interior de São Paulo
Durante muito tempo, produzir vinhos finos em boa parte do Sudeste brasileiro parecia um projeto condenado pelas condições climáticas. As videiras completavam seu ciclo natural durante o verão, justamente quando o calor, a umidade e as chuvas frequentes dificultavam a maturação das uvas europeias e favoreciam o aparecimento de doenças.
Foi nesse cenário que o engenheiro agrônomo e pesquisador mineiro Murillo de Albuquerque Regina propôs uma mudança aparentemente simples, mas revolucionária: alterar o calendário da videira.
Em vez de tentar transformar o clima brasileiro, Murillo encontrou uma maneira de fazer a planta produzir no período mais favorável. Com duas podas realizadas em momentos diferentes, o ciclo produtivo passou a ser deslocado para os meses mais secos e frios. A maturação ocorreria durante o outono e a colheita, no inverno.
Nascia assim a técnica que ficou conhecida como dupla poda, poda invertida ou inversão do ciclo da videira. Mais do que modificar uma prática agrícola, a descoberta abriu uma nova fronteira para a vitivinicultura brasileira.
O que antes parecia impossível começou a se tornar realidade.

A dupla poda abriu novas fronteiras para os vinhos finos e impulsionou o enoturismo em diferentes regiões brasileiras
O pesquisador que resolveu inverter o calendário
Murillo de Albuquerque Regina formou-se em Agronomia e aprofundou seus estudos na França, onde concluiu mestrado e doutorado em Viticultura e Enologia pela Universidade de Bordeaux II. Posteriormente, realizou pós-doutorado na área de melhoramento da viticultura.
Ao retornar ao Brasil, passou a estudar como as variedades de Vitis vinifera, grupo ao qual pertencem uvas como Syrah, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc, poderiam se adaptar às condições do Sudeste.

O engenheiro agrônomo e pesquisador Murillo de Albuquerque Regina, responsável pelo desenvolvimento da dupla poda, técnica que revolucionou a produção de vinhos finos no Brasil – Foto: Divulgação
A questão central era o calendário. No ciclo tradicional, a videira brotava durante a primavera e suas uvas amadureciam no verão. Em regiões do Sudeste, esse período coincide com chuvas intensas, elevada umidade e maior pressão de doenças fúngicas. As uvas podiam chegar à colheita com maturação incompleta, excesso de água e menor concentração de açúcares, aromas e compostos fenólicos.
Murillo percebeu que o inverno dessas mesmas regiões apresentava características muito mais favoráveis. Os dias costumavam ser ensolarados, as noites frias e as chuvas menos frequentes. A elevada amplitude térmica, diferença entre as temperaturas do dia e da noite, favorecia o amadurecimento lento e equilibrado das uvas.
Faltava encontrar uma maneira de fazer a videira obedecer a outro calendário.
Segundo o relato histórico da Vinícola Primeira Estrada, um momento decisivo ocorreu em 1999, durante uma degustação da Sociedade dos Amigos do Vinho de Poços de Caldas. Murillo apresentou a possibilidade de deslocar a produção para o inverno e encontrou parceiros dispostos a realizar os primeiros experimentos comerciais.
A Fazenda da Fé, em Três Corações, no Sul de Minas Gerais, recebeu os testes iniciais. Mudas de Syrah trazidas da França começaram a ser plantadas em 2001. A primeira colheita experimental ocorreu em 2003. Depois de anos de avaliação e aperfeiçoamento, os primeiros rótulos comerciais ajudaram a demonstrar que a ideia podia sair dos centros de pesquisa e chegar ao mercado. A história dos primeiros experimentos é preservada pela Vinícola Primeira Estrada.
Murillo costuma dizer que apenas “riscou o fósforo”. A frase é modesta diante do resultado. A centelha acesa pela pesquisa ajudou a criar uma nova vitivinicultura em diferentes regiões do país.
Como funciona a dupla poda
A técnica recebe esse nome porque a videira passa por duas podas ao longo do ano.
A primeira geralmente ocorre entre agosto e setembro. Ela serve para formar os ramos que sustentarão a produção futura. Nessa etapa, a planta cresce, mas os cachos são retirados para evitar a colheita no verão.
A segunda poda é realizada entre janeiro e fevereiro. É ela que inicia o ciclo produtivo. A videira volta a brotar, floresce e forma os cachos que amadurecerão durante os meses seguintes.
A colheita acontece normalmente entre junho e agosto, quando há menor incidência de chuvas, dias ensolarados e noites mais frias.
O sistema exige conhecimento técnico, acompanhamento constante e mais trabalho no vinhedo. Não basta podar duas vezes. Cada variedade responde de maneira diferente, e fatores como altitude, solo, orientação das linhas, disponibilidade de água e amplitude térmica interferem diretamente no resultado.
Quando bem conduzida, porém, a técnica permite que as uvas alcancem melhor equilíbrio entre açúcar, acidez, aromas, cor e maturação dos taninos. A Anprovin explica os princípios e os critérios empregados na produção dos Vinhos de Inverno.
Uma descoberta que saiu de Minas e ganhou o Brasil
A importância da dupla poda não está apenas na qualidade dos vinhos. Seu maior impacto foi geográfico.
A técnica permitiu cultivar uvas destinadas a vinhos finos em locais que não possuíam o inverno rigoroso das tradicionais regiões produtoras do Sul do país. O Sudeste e o Centro-Oeste passaram a aproveitar justamente aquilo que antes parecia uma limitação climática.
Minas Gerais tornou-se o ponto de partida dessa transformação. Do Sul de Minas, os vinhedos avançaram pelas montanhas da Mantiqueira, pela Serra da Canastra, pelo Cerrado mineiro e por outras áreas de altitude.
O movimento chegou ao interior de São Paulo, ao Distrito Federal, a Goiás, Mato Grosso e à Chapada Diamantina, na Bahia.
Em 2026, a Associação Nacional dos Produtores de Vinhos de Inverno, a Anprovin, reunia 56 vinícolas em seis estados. A entidade atua na orientação técnica, promoção, qualificação e certificação dos produtos elaborados com a inversão do ciclo. A relação atualizada dos produtores pode ser consultada no site da associação.
Essa expansão mostra que Murillo não desenvolveu apenas uma técnica para uma propriedade. Ele forneceu uma ferramenta que poderia ser adaptada a diferentes solos, altitudes e microclimas.
Andradas une tradição e inovação
Andradas, no Sul de Minas Gerais, já possuía uma longa história ligada à produção de uvas e vinhos. A dupla poda permitiu que essa tradição entrasse em uma nova fase.
A Casa Geraldo, uma das principais referências vitivinícolas da cidade, passou a utilizar o sistema em seus vinhedos destinados aos vinhos finos de colheita de inverno. A propriedade também transformou o processo produtivo em uma experiência de enoturismo, com visitas aos parreirais, degustações, restaurante e apresentação das etapas de elaboração dos vinhos. A dupla poda faz parte dos roteiros técnicos oferecidos pela Casa Geraldo.
Também em Andradas está a Stella Valentino, vinícola familiar cuja história começou com a chegada do italiano Valentino Stella ao Brasil, em 1888. A família iniciou a produção de vinhos finos de inverno em 2002, preservando uma tradição que atravessa cinco gerações.
Seu Tempranillo Gran Reserva alcançou 93 pontos e foi reconhecido como o melhor Tempranillo do Brasil na Grande Prova Vinhos do Brasil de 2025. O resultado demonstra como uma cidade historicamente relacionada ao vinho pode utilizar ciência e tecnologia para renovar sua produção.
A Serra da Mantiqueira ganha novos vinhedos
A Serra da Mantiqueira tornou-se um dos territórios mais representativos dos vinhos de inverno. Sua altitude, a exposição solar e a diferença de temperatura entre dias e noites oferecem condições favoráveis para a maturação das uvas durante os meses mais secos.
Em Espírito Santo do Pinhal, propriedades como a Vinícola Guaspari ajudaram a dar projeção nacional aos vinhos de altitude paulistas. O município passou a combinar produção de vinhos finos, paisagem rural, gastronomia e visitação aos vinhedos.
Outros projetos surgiram ou se fortaleceram ao longo da Mantiqueira, criando uma nova rota que atravessa municípios paulistas e mineiros. A região demonstra que não existe um único vinho de inverno. Cada altitude, solo e microclima pode produzir características próprias.
A dupla poda não elimina o conceito de terroir. Ao contrário, permite que territórios antes subestimados finalmente expressem sua identidade na taça.
Na Serra da Canastra, um vinho chamado Sabina
Na Serra da Canastra, a Sacramentos Vinifer tornou-se outro exemplo da transformação provocada pela pesquisa de Murillo Regina.
Os vinhedos da propriedade estão localizados no município de Sacramento, em Minas Gerais, a aproximadamente 1.100 metros de altitude. As videiras são cultivadas pelo sistema de dupla poda e contam com assessoria técnica do pesquisador.
Entre os rótulos produzidos está o Sabina, nome escolhido em homenagem à matriarca de origem calabresa que mantinha viva na família a lembrança dos antepassados produtores de vinho na Itália.
O Sabina Syrah recebeu importantes reconhecimentos em avaliações nacionais e internacionais. O resultado reforça a capacidade da Serra da Canastra de produzir vinhos finos com personalidade e identidade próprias. A Sacramentos Vinifer apresenta a história e as características de seus vinhedos.
O caso também mostra uma das consequências mais importantes da dupla poda. O conhecimento científico não substituiu a memória familiar. Ele permitiu que uma antiga tradição finalmente encontrasse condições para se materializar.
São Roque passa da tradição à renovação
São Roque vive uma transformação diferente. A cidade já era nacionalmente conhecida como Terra do Vinho e construiu uma das principais rotas enoturísticas do estado de São Paulo.
Durante décadas, sua produção esteve predominantemente relacionada aos vinhos de mesa, elaborados principalmente com uvas americanas ou híbridas. Esses produtos ajudaram a popularizar o consumo e continuam fazendo parte da história e da economia do município.
A dupla poda abriu espaço para uma nova etapa. Produtores passaram a cultivar variedades de Vitis vinifera destinadas à elaboração de vinhos finos, sem abandonar completamente os produtos tradicionais.
A Vinícola Góes representa essa mudança. Na propriedade, uma poda é realizada para formar os ramos e outra inicia o ciclo de produção que terminará com a colheita no inverno. A vinícola apresenta o funcionamento da poda invertida em seus vinhedos.
Os resultados chegaram às premiações. O Tempos de Góes Sauvignon Blanc Reserva 2023 recebeu 93 pontos, conquistou Duplo Ouro e foi escolhido como o melhor Sauvignon Blanc do país na Grande Prova Vinhos do Brasil de 2025.
A transformação também alcançou o turismo. As tradicionais degustações e festas da uva passaram a conviver com visitas técnicas, colheitas noturnas e experiências gastronômicas ligadas aos vinhos finos.
São Roque preserva a tradição, mas mostra que já não pode ser resumida à antiga imagem do vinho suave vendido à beira da estrada.
Jundiaí encontra uma nova possibilidade
Jundiaí também possui uma relação histórica com a uva e com o vinho de mesa. A cidade é conhecida principalmente pela uva Niagara Rosada, pelas propriedades familiares e pelas festas ligadas à colheita.
A inversão do ciclo começa a abrir uma nova possibilidade para o município. A Vinícola Castanho, fundada em 1968, passou a cultivar Syrah e a trabalhar com dupla poda, combinando sua produção tradicional com vinhos finos e espumantes.
Esse processo não significa abandonar a uva Niagara ou o vinho de mesa. Significa acrescentar uma nova camada à atividade agrícola, ampliar a diversidade e criar produtos de maior valor agregado.
Amparo transforma altitude em vinho e turismo
Na região de Campinas, Amparo começa a construir uma identidade ligada aos vinhos de altitude.
A Areia Branca Vinícola mantém aproximadamente 13 hectares de vinhedos na zona rural do município, com variedades como Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Chenin Blanc, Marselan, Viognier e Cinsault.
A maior parte dos vinhedos é conduzida com foco na produção de uvas finas e colheitas de inverno. Além dos rótulos, a propriedade oferece degustações e visitas, aproximando o consumidor do processo produtivo. A vinícola apresenta seus vinhos e experiências em seu site oficial.
Amparo também abriga a Vinícola Terrassos, que combina vinho, restaurante, culinária italiana, degustações, piqueniques e visitas guiadas. Nem toda vinícola regional ou todo rótulo produzido no município deve ser classificado automaticamente como Vinho de Inverno. Ainda assim, esses empreendimentos participam da formação de uma cultura regional do vinho e do enoturismo.
Campinas começa a plantar uma nova identidade
Campinas oficializou, em julho de 2026, a criação de seu Polo Vitivinícola. A iniciativa reúne inicialmente Terralia, Altos de Sousas, Walachai e Sacramentos Vinifer.
O projeto pretende fortalecer a cadeia produtiva da uva e do vinho, estimular o turismo rural, atrair investimentos e integrar a produção vitivinícola à gastronomia de Campinas.
Em Joaquim Egídio, propriedades como Terralia e Walachai aproximam os vinhedos da paisagem rural e do conhecido circuito gastronômico dos distritos de Sousas e Joaquim Egídio.
A Altos de Sousas cultiva variedades como Cabernet Sauvignon, Syrah e Cabernet Franc e utiliza a dupla poda para deslocar a colheita para o período de inverno.
A participação da Sacramentos Vinifer no polo também aproxima Campinas de uma marca já reconhecida pelos vinhos produzidos na Serra da Canastra. Isso não significa que o Sabina seja um vinho de Amparo ou de Campinas. Seus vinhedos estão em Minas Gerais. A ligação está na participação da empresa no desenvolvimento do novo polo campineiro.
A criação do Polo Vitivinícola foi anunciada oficialmente pela Prefeitura de Campinas.
A iniciativa surge em uma cidade que já possui restaurantes, produção científica, universidades, centros de pesquisa e um mercado consumidor interessado em gastronomia. A combinação pode transformar Campinas não apenas em produtora, mas também em centro de conhecimento, negócios e divulgação dos vinhos de inverno.
Indaiatuba participa da expansão regional
Indaiatuba também apresenta iniciativas ligadas à produção artesanal e ao turismo do vinho. A Vinícola Bramasole é um dos exemplos desse movimento, com produção em pequena escala, colheita manual e experiências realizadas na propriedade.
É necessário, entretanto, manter uma distinção. A existência de vinhedos e vinícolas em uma cidade não significa que toda a produção utilize dupla poda ou possua certificação da Anprovin.
Indaiatuba deve aparecer na reportagem como parte da expansão da cultura vitivinícola na Região Metropolitana de Campinas. A eventual utilização da dupla poda precisa ser atribuída somente quando houver confirmação técnica para cada vinhedo ou rótulo.
Essa cautela é importante porque o crescimento do setor envolve diferentes modelos. Existem produtores de vinhos de mesa, vinhos finos, vinhos elaborados com uvas compradas de outras regiões e vinhos certificados de inverno.
Todos fazem parte do universo vitivinícola, mas não representam exatamente a mesma coisa.
Vinho de mesa e vinho fino não são sinônimos de ruim e bom
A transformação provocada pela dupla poda também exige uma explicação sobre as categorias de vinho no Brasil.
Pela legislação brasileira, vinho de mesa é aquele elaborado com uvas americanas ou híbridas. Bordô, Isabel e Niagara estão entre as variedades mais conhecidas.
O vinho fino é elaborado exclusivamente com uvas da espécie Vitis vinifera, como Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc.
Portanto, vinho de mesa não significa vinho adulterado, falsificado ou necessariamente ruim. Da mesma maneira, a expressão vinho fino não garante sozinha que um produto seja excelente. As classificações indicam principalmente o grupo de uvas utilizado.
O que a dupla poda proporcionou foi a possibilidade de cultivar variedades europeias com melhor maturação em regiões onde o verão chuvoso dificultava a obtenção de uvas adequadas.
Os vinhos de mesa ainda possuem participação relevante no mercado brasileiro, especialmente entre consumidores habituados aos rótulos suaves. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por vinhos secos, espumantes, produtos de origem controlada e experiências de enoturismo.
Essa mudança de hábito ajuda a sustentar economicamente os novos vinhedos.
O papel da Anprovin
Com a expansão da técnica, tornou-se necessário criar critérios que diferenciassem um vinho produzido com dupla poda de um rótulo que apenas utilizasse a expressão “vinho de inverno” como recurso comercial.
A Anprovin foi fundada em 16 de março de 2016, com sede em Caldas, Minas Gerais. A associação reúne produtores, oferece orientação técnica e administra a marca coletiva Vinhos de Inverno, registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
Para obter o selo, não basta colher uvas durante os meses mais frios. Os vinhedos precisam seguir as regras da dupla poda e utilizar variedades autorizadas de Vitis vinifera. Também são considerados aspectos como origem, rastreabilidade e conformidade do produto.
O trabalho procura proteger tanto os produtores quanto o consumidor. Os critérios da marca coletiva estão disponíveis no site da Anprovin.
Ciência, gastronomia e desenvolvimento regional
O vinho de inverno movimenta uma cadeia que vai muito além da garrafa.
Novos vinhedos estimulam a contratação de trabalhadores, técnicos agrícolas, agrônomos, enólogos, sommeliers, profissionais de turismo, cozinheiros, fotógrafos, comunicadores e empresas de transporte e hospedagem.
As propriedades também passam a oferecer visitas, degustações, restaurantes, piqueniques, festas de colheita e eventos harmonizados. O vinho torna-se uma porta de entrada para outros produtos locais, como cafés, queijos, azeites, embutidos, doces e pratos regionais.
Em áreas próximas a grandes centros urbanos, como Campinas, São Roque, Jundiaí, Amparo e Indaiatuba, o enoturismo encontra um público que consegue visitar os empreendimentos sem realizar viagens longas.
Esse movimento pode ajudar a manter famílias no campo e preservar propriedades rurais. Para que o crescimento seja sustentável, entretanto, precisa respeitar o meio ambiente, o uso da água, as áreas de proteção e a capacidade de cada território.
O homem que ensinou a videira a esperar
Murillo de Albuquerque Regina não inventou o inverno brasileiro, nem transformou as montanhas de Minas e São Paulo em uma cópia da França ou da Itália.
Sua contribuição foi mais original.
Ele observou as características do clima brasileiro e percebeu que o problema não estava necessariamente no lugar, mas no momento em que a videira produzia.
Ao inverter o ciclo, mostrou que o Brasil não precisava imitar integralmente os calendários tradicionais da viticultura europeia. Poderia criar uma solução adaptada às próprias condições.
A dupla poda transformou o verão em período de formação e o inverno em tempo de colheita. A partir dessa mudança, regiões tradicionais se renovaram e outras começaram a produzir vinho pela primeira vez.
Andradas acrescentou tecnologia à sua herança. A Serra da Mantiqueira ganhou novos vinhedos. A Serra da Canastra colocou rótulos premiados no mercado. São Roque e Jundiaí passaram a combinar vinhos de mesa e vinhos finos. Espírito Santo do Pinhal conquistou reconhecimento. Amparo e Indaiatuba ampliaram o enoturismo. Campinas começou a estruturar seu próprio polo.
Outros projetos avançaram pelo Cerrado e chegaram à Chapada Diamantina.
Por trás desse novo mapa está a ideia de um pesquisador que olhou para uma limitação climática e enxergou uma oportunidade.
Murillo ensinou a videira a esperar.
E, quando a colheita chegou ao inverno, o que antes não podia finalmente se tornou possível.

