IA entra no centro das regras das eleições de 2026
TSE restringe conteúdos sintéticos no período da votação e proíbe sistemas de inteligência artificial de recomendar candidatos ou indicar voto
A inteligência artificial chegou às eleições de 2026 não apenas como ferramenta para produzir textos, imagens, áudios e vídeos. Pela primeira vez em uma eleição presidencial brasileira, seu uso está submetido a regras específicas que alcançam campanhas, plataformas digitais e os próprios sistemas de IA.
Neste domingo (4), dia do primeiro turno, está em vigor a fase mais restritiva dessas normas. Desde 72 horas antes da votação até 24 horas depois do encerramento do pleito, é proibido publicar, republicar ou impulsionar novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas. A restrição vale mesmo quando o material informa que foi produzido ou modificado por IA.
A preocupação não se limita aos deepfakes. As regras aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral também alcançam uma situação cada vez mais comum: eleitores que recorrem a ferramentas de inteligência artificial para buscar informações políticas.
IA não pode dizer em quem votar
Pelas normas eleitorais de 2026, sistemas de inteligência artificial não podem ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos, campanhas, partidos, federações ou coligações.
Também não podem indicar preferência eleitoral, recomendar voto ou produzir respostas que favoreçam ou prejudiquem determinada candidatura, mesmo quando o próprio usuário pede uma indicação.
Isso não impede o eleitor de usar uma IA para buscar informações sobre propostas, entender temas políticos ou conhecer as atribuições dos cargos em disputa. O limite estabelecido pelo TSE está na interferência da ferramenta sobre a decisão do voto.
Os provedores de sistemas de inteligência artificial também tiveram de informar à Justiça Eleitoral quais salvaguardas adotaram para impedir recomendações de voto ou favorecimento político-eleitoral.
O risco está antes do voto
A presença da inteligência artificial nas eleições também criou espaço para outro tipo de desinformação: a ideia de que a tecnologia poderia invadir uma urna eletrônica e alterar votos.
Isso não acontece.
As urnas utilizadas durante a votação não ficam conectadas à internet, Wi-Fi, Bluetooth ou rede de telefonia celular. Por isso, um sistema de inteligência artificial não consegue acessar remotamente uma urna para trocar o voto de um candidato por outro.
O potencial de interferência da IA está em outro lugar: na informação que chega ao eleitor antes de ele apertar a tecla “Confirma”.
Imagens falsas, vozes clonadas, vídeos manipulados e conteúdos produzidos em escala podem alterar a percepção sobre candidatos e acontecimentos sem tocar no sistema de votação.
É essa diferença que ajuda a entender por que parte das novas regras eleitorais está concentrada no ambiente digital.
Uma eleição também disputada pelos algoritmos
As novas normas não retiraram a inteligência artificial da campanha eleitoral. A tecnologia pode ser utilizada dentro dos limites estabelecidos pela Justiça Eleitoral, inclusive com exigência de identificação em determinadas situações.
O que mudou em 2026 foi o tamanho da preocupação com a capacidade dessas ferramentas de produzir conteúdos convincentes e distribuí-los rapidamente.
A restrição mais severa também não termina quando as urnas fecharem neste domingo. A proibição sobre novos conteúdos sintéticos envolvendo candidatos e pessoas públicas permanece durante as 24 horas seguintes ao encerramento da votação.
A inteligência artificial não escolhe o presidente, o governador, os senadores ou os deputados. Quem faz isso é o eleitor.
Mas as eleições de 2026 colocam uma questão que deve continuar presente nos próximos pleitos: quanto mais fácil se torna produzir uma imagem, uma voz ou uma informação aparentemente verdadeira, mais importante passa a ser saber quem produziu aquele conteúdo, de onde ele veio e quais evidências o sustentam.

