O português fez intercâmbio e não voltou
CRÔNICAS METROPOLITANAS
Por Alvin Wolf
“Porque toda cidade esconde histórias que passam despercebidas”
Tenho uma teoria.
O português não está morrendo.
Está fazendo intercâmbio.
Saiu para passar seis meses no exterior e voltou chamando a própria mãe de mom.
Tudo começou discretamente.
Aceitamos o shopping. Depois veio o show. O marketing. O delivery. Quando percebemos, já estávamos fazendo meeting para discutir o feedback do deadline.
A língua portuguesa foi sendo empurrada para um canto da sala, como aquele tio que ainda chama pendrive de “memória portátil” e televisão de “aparelho”.
Outro dia entrei numa loja atraído por um cartaz gigantesco.
SUMMER SALE EXPERIENCE
Confesso que imaginei um festival internacional. Talvez música. Gastronomia. Um intercâmbio cultural entre brasileiros e havaianos.
Era uma liquidação.
Daquelas de levar três camisetas e pagar duas.
Antigamente bastava escrever “Queima Total”. Hoje a promoção precisa de passaporte.
Não tenho nada contra o inglês.
Aliás, acho uma língua muito útil. Principalmente quando se está na Inglaterra.
O curioso é que algumas empresas parecem acreditar que o consumidor só abre a carteira se não entender completamente o que está lendo.
Uma padaria virou bakery.
Uma cafeteria virou coffee experience.
A academia virou fitness center.
A loja virou concept store.
O cachorro-quente ganhou sobrenome e agora atende por premium hot dog.
Continua pingando molho na camisa, mas agora em outro idioma.
O marketing descobriu um segredo extraordinário.
Se você trocar o nome de uma coisa, pode aumentar o preço.
O café custa oito reais.
Mas um special coffee experience custa vinte e oito.
A diferença principal parece ser o tamanho da palavra.
Os condomínios também resolveram aprender inglês.
Já reparou?
Ninguém mais mora no Jardim Primavera.
Agora mora no Green Valley Residence Premium Garden.
O curioso é que o prédio continua ao lado da oficina do Toninho e da pastelaria da Dona Cida.
Mas o nome faz parecer que a vista dá para os Alpes.
Os automóveis resolveram seguir pelo mesmo caminho.
Na minha infância, os carros tinham nomes que pareciam gente.
Corcel.
Brasília.
Santana.
Caravan.
Hoje aparecem BYD, Atto 3, Seal, EX5, Yuan Pro.
Não sei se estou comprando um carro ou tentando descobrir a senha do Wi-Fi do aeroporto.
Imagino a reunião do departamento de marketing.
— Precisamos de um nome que transmita inovação.
— Alguma sugestão?
— Aperta o teclado.
— Como assim?
— Isso. Fecha os olhos e aperta umas teclas. Se ninguém conseguir pronunciar, vai parecer tecnologia de ponta.
E talvez essa seja a grande descoberta do século.
Não estamos importando apenas palavras.
Estamos importando a impressão de modernidade.
Reunião virou meeting.
Liquidação virou sale.
Ideia virou insight.
Equipe virou squad.
Até a velha conversa de corredor virou networking.
Só a fofoca continua resistindo bravamente em português.
E resiste muito bem.
Talvez porque algumas palavras sejam patriotas.
Não estou defendendo que a gente traduza tudo.
Ninguém precisa pedir um “telefone inteligente” na loja nem procurar um “programa sonoro digital sob demanda” quando quiser ouvir um podcast.
As línguas sempre viajaram. Sempre trocaram palavras como quem troca receitas de família.
O problema começa quando a palavra estrangeira deixa de explicar e passa apenas a decorar.
É como colocar gravata num coco.
Ele não fica mais elegante.
Só fica mais difícil de entender.
Outro dia vi uma placa anunciando uma Pet Friendly Experience.
Fiquei curioso.
Descobri que significava apenas que o cachorro podia entrar.
O cachorro, aliás, compreendeu tudo muito mais rápido do que eu.
Entrou abanando o rabo, completamente indiferente ao idioma.
Talvez ele tenha entendido uma coisa que nós esquecemos.
Não importa se a placa diz coffee, café ou cafezinho.
O aroma é o mesmo.
E uma boa conversa continua começando exatamente da mesma maneira.
— Senta aí.
— Vamos tomar um café.
Sem legenda.
Sem tradução.
E, sobretudo, sem precisar de um upgrade para isso.


