PolíticaCampinas e Região

Campinas tem votos. Consegue transformá-los em força política?

Compartilhar

Terceiro maior colégio eleitoral paulista, município disputa representação em um estado com mais de 34 milhões de eleitores; para o vereador e professor de Ciência Política Wagner Romão, articulação regional e atuação parlamentar também fazem parte desse debate

ELEIÇÕES 2026: O PODER DO VOTO

Campinas chega às eleições de 2026 com 870.672 eleitores. É o terceiro maior colégio eleitoral do Estado de São Paulo, atrás apenas da capital e de Guarulhos, e supera cidades como São Bernardo do Campo, Osasco, Santo André, São José dos Campos, Sorocaba, Ribeirão Preto e Santos.

O número dá a dimensão eleitoral da cidade, mas conta apenas parte da história. Quando colocado diante dos 34.104.226 eleitores paulistas, o contingente campineiro corresponde a cerca de 2,55% do total. Uma cidade eleitoralmente grande precisa, portanto, disputar representação dentro do maior colégio eleitoral do país.

Essa diferença de escala ajuda a compreender por que não existe uma relação direta entre o tamanho de Campinas e o número de deputados vinculados à cidade. Nas eleições legislativas, não há cadeiras reservadas a municípios ou regiões. Deputados federais e estaduais são escolhidos pelo sistema proporcional em disputas que abrangem todo o estado.

No caso da Câmara dos Deputados, São Paulo elege 70 representantes. Se os 2,55% do eleitorado paulista concentrados em Campinas fossem simplesmente aplicados a essas cadeiras, o resultado matemático seria de aproximadamente 1,8 deputado. A conta não significa que Campinas tenha direito a duas vagas. O sistema proporcional considera a votação obtida pelos partidos e federações em todo o estado e, posteriormente, o desempenho dos candidatos dentro dessas legendas. A comparação serve apenas para colocar em perspectiva o tamanho do eleitorado campineiro dentro da disputa paulista.

O vereador de Campinas e professor de Ciência Política da Unicamp Wagner Romão (PT) chega a conclusão semelhante ao analisar esses números. “Não há um problema de proporcionalidade na representação”, afirma.

Wagner Romão, vereador de Campinas e professor de Ciência Política da Unicamp. Foto: Álvaro Jr.

Ao mesmo tempo, Romão defende uma representação “mais contundente, à altura do tamanho da população, da sua importância regional e nacional”. Para ele, a dimensão do Estado de São Paulo e o peso eleitoral da capital e de sua região metropolitana precisam ser considerados nessa análise.

Eleito pela primeira vez para a Câmara Municipal para a legislatura 2025–2028, Romão é livre-docente em Políticas Públicas e doutor em Sociologia pela USP. Ao tratar das dificuldades para a projeção de lideranças campineiras, chama atenção para uma diferença expressiva: a capital possui mais de 9,1 milhões de eleitores, ou 26,7% do total paulista, enquanto Campinas tem pouco mais de 870 mil.

“É muito difícil haver uma liderança política, seja no campo da esquerda, seja no campo da direita, do centro, enfim, que possa fazer frente à Região Metropolitana de São Paulo”, avalia.

Romão introduz ainda uma dimensão que a quantidade total de representantes não revela. Em sua avaliação, há uma deficiência particularmente no campo da esquerda, que, segundo ele, há anos não consegue eleger por Campinas deputados federais ou estaduais identificados com esse segmento. Historicamente, a cidade já teve parlamentares petistas com forte base política local, como Luciano Zica, na Câmara dos Deputados, e Renato Simões, na Assembleia Legislativa.

O voto ultrapassa Campinas

A dimensão estadual da eleição produz outro efeito. Um candidato identificado politicamente com Campinas não depende apenas dos votos da cidade. Pode buscar eleitores em qualquer município paulista, assim como candidatos de outras regiões disputam votos dentro de Campinas. A fronteira municipal, decisiva numa eleição para prefeito ou vereador, deixa de delimitar a disputa quando estão em jogo cadeiras na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados.

Romão não considera essa dispersão dos votos, por si só, o principal problema. Observa que candidatos com base em Campinas também procuram eleitores em outras regiões e sustenta que precisam, ao mesmo tempo, ampliar sua votação fora do município e conseguir reunir apoio na própria Região Metropolitana. Antes de conquistar seu primeiro mandato de vereador, Romão também participou dessa disputa estadual como candidato a deputado estadual em 2022.

Quando o mapa se amplia para além dos limites municipais, a discussão muda novamente de escala. Campinas é o maior município de uma região metropolitana formada por 20 cidades, entre elas Americana, Hortolândia, Indaiatuba, Paulínia, Sumaré, Valinhos e Vinhedo.

A Região Metropolitana de Campinas não é apenas uma denominação geográfica. Criada por legislação estadual, possui estrutura institucional destinada ao planejamento e à execução de funções públicas de interesse comum. A Agência Metropolitana de Campinas (Agemcamp), por exemplo, atua na integração de políticas e projetos regionais.

Há também uma instância política específica dentro da Assembleia Legislativa. A Frente Parlamentar de Apoio aos Municípios da Região Metropolitana de Campinas está em funcionamento desde 2023 e reúne deputados em torno de questões relacionadas aos municípios da RMC.

A articulação regional, portanto, não parte do zero. Existem uma região formalmente constituída, organismos metropolitanos e espaços políticos voltados aos seus municípios. A existência dessas estruturas, porém, não permite concluir automaticamente que os 20 municípios atuem como um bloco político permanente ou que interesses metropolitanos se transformem necessariamente em atuação conjunta no Legislativo estadual ou no Congresso Nacional.

É diante desse cenário que ganha relevância uma das observações de Romão. Ao falar sobre a capacidade de atuação regional, ele não afirma que inexistam estruturas metropolitanas. Sua formulação é mais cautelosa: “Talvez falte uma agenda política metropolitana que possa articular as forças políticas da cidade e fazer com que Campinas possa disputar recursos em São Paulo, em Brasília e assim por diante.”

Romão menciona ainda a importância de parceria e colaboração, inclusive entre forças partidárias opostas, em torno de objetivos comuns para a cidade e a região. E ressalva que, em sua avaliação, essa dificuldade não é exclusiva de Campinas.

Uma coisa, portanto, é possuir instrumentos institucionais para tratar de problemas que ultrapassam divisas municipais. Outra é transformar interesses comuns em atuação política continuada entre municípios e representantes.

Do voto à influência política

Contar quantos deputados possuem trajetória ou base eleitoral em Campinas é uma maneira de medir a presença da cidade nos Legislativos, mas não é a única. O sistema eleitoral brasileiro não cria uma “bancada de Campinas”. Um deputado federal eleito por São Paulo representa formalmente o estado e pode construir sua base política em diferentes municípios e segmentos sociais. Da mesma maneira, a RMC não recebe um número previamente determinado de cadeiras correspondente ao tamanho de sua população ou de seu eleitorado.

Nesse cenário, a capacidade de articulação passa a integrar a discussão sobre influência regional. Interesses comuns da metrópole — infraestrutura, mobilidade, recursos hídricos, desenvolvimento econômico, saúde ou investimentos estaduais e federais — ultrapassam fronteiras municipais e podem envolver governos e representantes de diferentes partidos. As estruturas metropolitanas oferecem canais para esse diálogo, mas sua existência, por si só, não determina o grau de atuação política conjunta.

Campinas ocupa posição central nesse cenário. Além de possuir o maior eleitorado da RMC, concentra universidades, centros de pesquisa, serviços, empresas e equipamentos de alcance regional. Ao mesmo tempo, quando entra numa eleição estadual, seus 870 mil eleitores passam a integrar um universo de mais de 34 milhões.

Romão também chama atenção para a atuação dos representantes. “Talvez o que haja seja a necessidade de que os nossos deputados federais e estaduais sejam mais atuantes e tenham capacidade maior de articulação política para reforçar a nossa posição, tanto em Brasília como em São Paulo.”

A fala acrescenta uma dimensão que os números, sozinhos, não conseguem medir. Campinas tem o terceiro maior eleitorado paulista, integra uma região metropolitana de 20 municípios e dispõe de estruturas institucionais de articulação. Esses elementos demonstram dimensão eleitoral e capacidade institucional, mas não determinam automaticamente o grau de influência política exercido pela cidade e pela região.

Transformar votos, representação e interesses comuns em capacidade de atuação política é uma questão diferente de simplesmente contar cadeiras. É nesse ponto que permanece a pergunta: Campinas tem votos. Consegue transformá-los em força política?