ArtigosCrônicas Metropolitanas

A reunião que poderia ter sido um WhatsApp

Compartilhar

CRÔNICAS METROPOLITANAS
por Alvin Wolf

Existe uma frase que envelheceu junto com o mundo corporativo: “Esta reunião poderia ter sido um e-mail”. Era boa. Continua sendo. Só que o e-mail também envelheceu. Hoje, dependendo do assunto, abrir o Outlook já parece exigir gravata.

A versão contemporânea é outra: esta reunião poderia ter sido um WhatsApp.

Você conhece o ritual. Alguém marca para as dez. Às dez e dois chega o primeiro “bom dia”. Às dez e cinco alguém pergunta se fulano vem. Vem. Está terminando outra reunião. Às dez e oito aparece o fulano, pede desculpas, diz que o dia está uma loucura e pergunta se todo mundo já está ali.

Nunca está.

Enquanto esperamos, falamos do tempo, do trânsito, do calor, do café e daquela entidade abstrata chamada “correria”. Todo mundo anda numa correria impressionante. Curiosamente, boa parte dessa correria consiste em participar de reuniões para contar aos outros que está correndo.

Quando finalmente começa, surge a apresentação.

Alguém compartilha a tela. A tela compartilhada mostra uma tela dentro de outra tela, como aqueles espelhos de elevador que reproduzem nossa imagem até o infinito.

“Estão vendo minha tela?”

Metade responde que sim. A outra metade está no WhatsApp.

Nada contra reuniões. Algumas são necessárias. Gosto de gente reunida, conversa boa, mesa sem pressa. Com pessoas agradáveis e um vinho decente, reunião pode até atravessar a madrugada. O problema é chamar de reunião aquilo que não passa de uma informação procurando testemunhas.

Porque lá pelo vigésimo minuto você começa a desconfiar de que existe uma decisão a ser tomada. Aos trinta, descobre qual é. Pouco depois, alguém repete o que já foi dito e surge uma dúvida que também já havia sido respondida. Ninguém percebe. Naquela hora, provavelmente estavam olhando discretamente o celular.

Até que chegamos ao grande momento.

“Então, só para alinharmos…”

Quando alguém diz “só para alinharmos”, prepare-se. É o equivalente corporativo daquele “rapidinho” que antecede quarenta minutos de conversa.

Alinhamos.

Ficou combinado que o material será entregue na terça-feira, às duas da tarde.

Era isso.

Terça-feira. Duas da tarde.

No WhatsApp, seriam necessárias cinco palavras e alguns segundos:

“Pode entregar terça, às 14h?”

“Pode.”

Fim.

Talvez eu esteja sendo injusto. A humanidade tem uma habilidade extraordinária para transformar ferramentas que economizam tempo em novas maneiras de ocupá-lo. O automóvel nos levou mais longe e nos deu o congestionamento. O celular permitiu que fôssemos encontrados em qualquer lugar e acabou com a desculpa de não estarmos em casa. E o WhatsApp, criado para mensagens rápidas, nos presenteou com áudios de oito minutos.

Depois veio a videoconferência. Não precisaríamos mais sair de casa para participar de uma reunião.

Agora podemos passar o dia inteiro em reuniões sem sair de casa.

A tecnologia encurtou distâncias. Nós tratamos de preencher o espaço que sobrou.

Talvez reunião seja também uma forma sofisticada de companhia. Um jeito profissionalmente aceitável de não decidir sozinho. Se der certo, todos participaram. Se der errado, todos estavam na reunião.

E assim, depois de cinquenta e sete minutos discutindo produtividade, agilidade, otimização de processos e melhor aproveitamento do tempo, alguém encerra:

“Vou criar um grupo no WhatsApp para a gente continuar conversando.”

E cria.

Às vezes penso em sair do grupo.

Mas tenho medo de marcarem uma reunião para discutir o assunto.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.