25 anos sem Toninho: memória, legado e um crime ainda sem resposta em Campinas
Vinte e cinco anos após o assassinato, depoimentos ajudam a reconstruir a trajetória do ex-prefeito, suas últimas horas, o legado deixado em Campinas e a busca por respostas sobre o crime
Antônio da Costa Santos, o Toninho, governou Campinas por apenas 253 dias. Tomou posse em 1º de janeiro de 2001 e foi assassinado em 10 de setembro daquele ano. Um quarto de século depois, sua passagem pela Prefeitura continua presente na memória política da cidade, assim como permanece sem resposta judicial definitiva a pergunta sobre quem o matou e por quê.
Na sexta-feira (11), parte dessa história voltou a ser lembrada na Câmara Municipal de Campinas durante o evento “25 Anos sem Toninho”, promovido pelo vereador Wagner Romão, líder do PT na Casa. Por quase duas horas, pessoas que conviveram com o ex-prefeito, participaram de seu governo ou acompanharam os desdobramentos do assassinato recuperaram episódios de sua trajetória e discutiram formas de preservar sua memória.
Das falas surgiram lembranças sobre a relação de Toninho com Campinas, os 253 dias de governo e a investigação do assassinato.

Uma relação construída com Campinas
Arquiteto e urbanista, Toninho construiu sua trajetória política ligada a temas como planejamento urbano, habitação, preservação do patrimônio e participação popular. Na Prefeitura, uma das marcas do início de seu governo foi o Orçamento Participativo, pelo qual moradores participavam da definição de prioridades para investimentos públicos.
Durante o encontro na Câmara, a vereadora Guida Calixto contou que não conheceu Toninho pessoalmente, mas relacionou a história dele à própria trajetória familiar. Segundo seu relato, sua família conseguiu a casa própria por meio de uma política habitacional da época em que Toninho atuava na administração municipal. Ao falar da presença dele nos bairros e ocupações, resumiu: “Ele conhecia a cidade como a palma da sua mão.”
A vereadora Paolla Miguel, que era criança quando Toninho foi prefeito, retomou essa relação com a cidade ao falar de projetos de mobilidade, patrimônio e participação popular. Citou um plano de integração da rodoviária com os trens e questionou quais transformações Campinas poderia ter vivido caso aquele projeto político tivesse continuado.
A pergunta também apareceu na fala de Guida. Ela afirmou que, se Toninho não tivesse sido assassinado, Campinas estaria hoje “numa outra situação”.
Como seria Campinas se Toninho tivesse completado o mandato?
Pedro Tourinho lembrou que a história de Toninho não começou na Prefeitura. Segundo ele, muitas das pessoas reunidas na Câmara haviam participado de uma trajetória política e de movimentos que antecedeu em muitos anos a vitória eleitoral de 2000.
“A primavera vem aí”
Parte das lembranças mais detalhadas da reta final do governo veio de Izalene Tiene, vice-prefeita de Toninho e responsável por assumir a Prefeitura depois do assassinato.
Izalene não apresentou aquele período apenas como uma sucessão de acertos. Ao recordar as dificuldades do início da administração, reconheceu erros cometidos pelo grupo político e pelo governo. Também descreveu Toninho como alguém que exercia papel de mediação em meio às divergências.
Uma das lembranças é de 5 de setembro de 2001, cinco dias antes do assassinato. Naquela noite, segundo Izalene, mais de mil pessoas participaram da entrega do orçamento construído a partir do Orçamento Participativo, em frente à antiga sede da Câmara, que funcionava junto ao Paço Municipal.
Naquele dia, durante um encontro no gabinete, Izalene recorda que Toninho disse uma frase que guardou na memória: “A primavera vem aí.”
Cinco dias depois, ele seria assassinado.
“Mataram o Toninho”
Ao recordar o dia 10 de setembro de 2001, Izalene contou que Toninho havia pedido que ela o representasse em uma atividade na qual seria discutido o feriado de 20 de Novembro. Segundo a ex-prefeita, ele disse que não participaria do encontro e iria à academia, mas acabou aparecendo no local, onde também estava Eduardo Suplicy.
Foi nessa atividade que Toninho fez uma referência incomum à possibilidade de que algo lhe acontecesse. Izalene deixou claro que não se lembrava das palavras exatas usadas por ele, mas recordou que a fala fazia referência a ela como sua sucessora.
“Eu me assustei porque nunca, nunca em nenhuma ação, em nenhuma atividade que nós estávamos junto, ele tinha falado qualquer coisa nesse sentido”, afirmou.
Gil, que também participou do encontro de sexta-feira, contou uma lembrança semelhante daquela atividade.
Depois do encontro, Izalene voltou para casa. Ela contou que recebeu uma ligação perguntando se Toninho estava com ela e foi informada de que ele havia sofrido um acidente. Ao telefonar em busca de informações, ouviu a confirmação: “Mataram o Toninho.”
Toninho havia sido atingido por disparos enquanto dirigia pela Avenida Mackenzie, próximo ao Shopping Iguatemi.
Izalene relatou que foi ao local do crime e depois seguiu para a casa da família. Mais tarde, já no velório, foi chamada para assumir a Prefeitura.
Ao chegar à Prefeitura, encontrou Santini sentado à mesa de Toninho, onde ainda estavam as coisas que o prefeito havia deixado. Quando perguntaram se assumiria, Izalene disse que não respondeu: virou as costas e saiu. “Não tinha cabimento uma coisa daquela”, recordou.
Izalene assumiu a Prefeitura em 11 de setembro de 2001 e tornou-se a primeira mulher a governar Campinas.
Uma investigação sem resposta definitiva
O assassinato desencadeou uma investigação que atravessou anos sem chegar a uma condenação pelo crime.
A principal linha apresentada pela Polícia Civil apontou para um crime circunstancial envolvendo a quadrilha de Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho. De acordo com essa versão, Toninho teria cruzado por acaso com integrantes do grupo durante uma fuga naquela noite.
A família do prefeito rejeitou essa explicação e, ao longo dos anos, defendeu que fossem aprofundadas outras linhas de investigação, inclusive a possibilidade de motivação relacionada à atuação política e administrativa de Toninho.
A investigação terminou sem que a autoria e a motivação do assassinato fossem estabelecidas judicialmente.
A busca da família
William Ceschi Filho, advogado que representa a família de Toninho, recuperou durante o encontro parte da longa disputa em torno da investigação. Ele falou das tentativas de federalização do caso, das cobranças feitas às autoridades e das críticas da família à condução das investigações.
O crime prescreveu em 10 de setembro de 2021, vinte anos depois do assassinato. Em 16 de novembro de 2022, o juiz José Henrique Rodrigues Torres, da Vara do Júri de Campinas, determinou o arquivamento do inquérito.
A família também encaminhou uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos, alegando omissão do Estado brasileiro na investigação do assassinato.
No encontro de sexta-feira, William voltou a tratar da iniciativa no sistema interamericano e defendeu que o caso também sirva para discutir medidas de proteção a lideranças políticas, sociais e sindicais.
A memória também está nos lugares
Márcia Molina falou sobre a cruz mantida há anos próxima ao local onde o prefeito foi assassinado. Segundo ela, Gerardo Garcia acompanha e cuida daquele espaço, que se tornou ponto de lembrança e homenagem a Toninho.
Ao falar sobre essa preservação, Márcia colocou outra questão: o que significa, 25 anos depois, honrar o legado deixado por Toninho?
Outras lembranças mostraram como essa memória também se construiu em episódios pessoais. Durval de Carvalho contou que Toninho evitava utilizar um elevador reservado ao prefeito porque preferia circular pelo mesmo caminho usado pelas demais pessoas.
Gil levou ao encontro um antigo fichário escolar com um adesivo da campanha de Toninho. Ao falar do objeto, recordou sua participação estudantil e o contato com as discussões sobre o Orçamento Participativo e a cidade.
A memória de Toninho aparece assim em lugares e objetos muito diferentes: na casa lembrada por Guida, no fichário guardado por Gil, na cruz próxima à Avenida Mackenzie, nas lembranças de quem participou do governo e em políticas públicas que ainda são associadas àquele período.
A proposta de um memorial
A preservação dessa memória ganhou novos encaminhamentos durante o encontro na Câmara.
Izalene defendeu a retomada da ideia de criação de um memorial dedicado a Toninho. A proposta foi incorporada por Wagner Romão aos encaminhamentos do encontro. Líder do PT na Câmara, o vereador sugeriu a formação de um grupo com participação da bancada e de pessoas ligadas à trajetória de Toninho para recuperar o projeto, levantar custos, verificar licenças, discutir a área para implantação e buscar recursos.
“Falta um memorial pro Toninho”, afirmou Wagner.
Mariante, do Fórum de Direitos Humanos, sugeriu que a Câmara constitua uma Comissão Especial de Estudos para tratar do Memorial Antônio da Costa Santos. Wagner acolheu a ideia e apontou a CEE como um instrumento da própria Câmara capaz de dar continuidade institucional à discussão, com participação de vereadores de diferentes partidos e representantes da sociedade civil.
Wagner também propôs que a Câmara elabore uma moção dirigida às autoridades competentes a partir das reivindicações apresentadas pela família de Toninho. Pediu ao advogado William Ceschi Filho que contribuísse com a redação do documento.
253 dias
Toninho permaneceu 253 dias à frente da Prefeitura. Foi pouco tempo diante de um mandato de quatro anos, mas suficiente para que sua passagem pelo governo deixasse marcas que ainda aparecem nas lembranças de quem viveu aquele período.
Na Câmara, essas memórias surgiram de maneiras diferentes. Guida falou da casa conquistada por sua família e da relação de Toninho com os bairros. Paolla falou das possibilidades interrompidas para Campinas. Izalene recuperou o Orçamento Participativo, reconheceu erros do governo e contou como viveu os últimos dias ao lado do prefeito. Márcia falou da preservação da memória. Gil levou um objeto guardado desde a juventude. William mostrou a trajetória da família em busca de respostas sobre o assassinato.
O presidente da Câmara, Luís Rossini, que não participou do encontro por compromisso anterior, enviou uma mensagem na qual afirmou que a história de Toninho integra o “patrimônio político e afetivo de Campinas” e merece ser transmitida às novas gerações.
Vinte e cinco anos depois, Toninho permanece na história de Campinas não apenas pela forma violenta como seu governo foi interrompido. Permanece também pelas lembranças de quem trabalhou com ele, pelas políticas associadas àquele período, pelos projetos que não chegaram a ser concluídos e pela memória transmitida a quem era jovem ou sequer o conheceu pessoalmente.
Os 253 dias terminaram em 10 de setembro de 2001. A história, não.
E uma pergunta continua sem resposta judicial definitiva: quem matou Toninho e por quê?

