Meio Ambiente

Piscinões em Campinas: até onde eles conseguem proteger a cidade das enchentes?

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Campinas investe mais de meio bilhão de reais em macrodrenagem; grandes reservatórios prometem reduzir alagamentos históricos, mas terão de responder a uma cidade já transformada pela urbanização e a um clima mais instável

Duzentos milhões de litros. Essa será a capacidade conjunta dos dois grandes reservatórios que Campinas está construindo nas bacias dos córregos Proença e Serafim, regiões que convivem há décadas com alagamentos.

A aposta vai além dos dois piscinões. O programa de macrodrenagem supera meio bilhão de reais e inclui um terceiro reservatório, novas estruturas de drenagem e parques lineares. O BNDES contratou R$ 503,7 milhões em financiamento para o projeto, que deverá beneficiar diretamente cerca de 200 mil pessoas.

A expectativa da Prefeitura é igualmente expressiva: reduzir em cerca de 90% os problemas de enchentes nas bacias do Proença e do Serafim.

Se isso acontecer, Campinas poderá mudar a realidade de alguns de seus pontos mais conhecidos pelos transtornos provocados pelas chuvas. Mas os números, por maiores que sejam, não respondem sozinhos à questão central: até onde os piscinões conseguem proteger a cidade?

Campinas chega a essas obras depois de décadas de transformação de seus cursos d’água e de intensa impermeabilização do solo. Na bacia do Proença, por exemplo, pesquisa da Unicamp descreve um território de aproximadamente 11,5 quilômetros quadrados, fortemente urbanizado e modificado, onde as avenidas Norte-Sul e Princesa D’Oeste aparecem entre as áreas atingidas por inundações.

Em entrevista ao programa Giro Ambiental, da TV Câmara Campinas, o professor Raul Reis Amorim, do Instituto de Geociências da Unicamp, explicou que a substituição da vegetação e do solo permeável por superfícies impermeáveis reduz a infiltração e faz a água chegar mais rapidamente aos canais.

É nessa cidade já construída que os novos reservatórios terão de funcionar.

O que 200 milhões de litros podem mudar

O maior deles é o RP-1, em construção na região da Praça de Esportes Paranapanema, na bacia do Proença. Terá capacidade para armazenar temporariamente 120 milhões de litros de água.

O investimento informado pela Prefeitura chegou a R$ 220 milhões e a página oficial de acompanhamento registra 62,56% de execução. Além do reservatório, estão sendo implantadas novas estruturas de drenagem na Avenida Princesa D’Oeste. A conclusão está prevista para junho de 2027.

Obras de macrodrenagem em Campinas integram o programa de combate a enchentes, que prevê grandes reservatórios nas bacias do Proença e do Serafim – Foto: Fernanda Sunega

Na bacia do Serafim, o RS-1 está sendo construído na região da Praça da Ópera. Terá capacidade para outros 80 milhões de litros e investimento de aproximadamente R$ 125,5 milhões. A execução está em estágio bem menos avançado: 11,65%, segundo o acompanhamento oficial.

As próprias informações municipais apresentam uma pequena diferença no cronograma. Atualização divulgada em setembro aponta conclusão do RS-1 em março de 2028, enquanto a página oficial da obra registra 24 de abril do mesmo ano.

Quando os dois estiverem funcionando, Campinas terá capacidade para reter temporariamente 200 milhões de litros nessas bacias. Durante uma chuva forte, parte da água que seguiria imediatamente para córregos e galerias ficará armazenada e será liberada depois do momento de maior vazão, reduzindo o pico da cheia.

É esse o trabalho dos piscinões: evitar que uma parcela da água chegue de uma só vez aos pontos mais pressionados do sistema. Eles não diminuem a chuva nem mudam, sozinhos, as condições da cidade que conduzem essa água até os reservatórios.

E se as chuvas que vêm pela frente forem diferentes?

Os reservatórios estão sendo construídos para enfrentar um problema antigo, mas deverão funcionar durante décadas. Nesse período, outra variável entra na conta: o clima.

Em julho de 2026, o meteorologista Bruno Bainy, do Cepagri da Unicamp, participou do programa Ponto de Vista, da TV Câmara Campinas, no episódio Devemos esperar um “Super El Niño”?. Durante a conversa, explicou que fenômenos naturais, como o El Niño, agora atuam sobre um planeta mais quente, aumentando a instabilidade e alterando padrões climáticos usados durante muito tempo como referência.

Para Campinas e região, Bainy chamou atenção para tempestades localmente fortes, com potencial para provocar enchentes severas inclusive em áreas que historicamente não conviviam com esse tipo de ocorrência. Também destacou a necessidade de adaptar as cidades aos eventos extremos.

Isso leva a uma pergunta diretamente relacionada às obras: para qual chuva os novos reservatórios foram projetados?

Estruturas de drenagem são dimensionadas para determinados cenários. A Gazeta procurou nas informações públicas disponíveis o parâmetro adotado especificamente para o RP-1 e o RS-1, mas não localizou esse dado. Os contratos confirmam que os projetos executivos fazem parte das obras, porém a documentação pública consultada não permitiu identificar o cenário de chuva utilizado para estabelecer a capacidade hidráulica dos dois reservatórios.

Isso não significa que o cálculo não exista. Significa que, com a documentação pública analisada, a reportagem não pode afirmar qual é o limite de projeto dessas estruturas. Diante da perspectiva de chuvas mais extremas, saber como os reservatórios responderão aos eventos das próximas décadas será uma das medidas de sua eficácia.

Um piscinão que custaria 348 árvores

O terceiro reservatório previsto nessa etapa colocou Campinas diante de outro problema.

O RP-4 foi projetado para a Praça Ralph Stettinger, na região da Avenida Norte-Sul. Na proposta original, sua implantação exigiria a retirada de 348 árvores.

Ambientalistas reagiram, o Ministério Público entrou na discussão e o projeto foi revisto. Na nova configuração, o reservatório passou a ocupar uma área menor na superfície e ganhou profundidade. A previsão de árvores atingidas caiu de 348 para 48.

O caso expôs um conflito concreto: uma obra destinada a combater enchentes provocaria forte impacto sobre a vegetação existente no local. A revisão mostrou que havia espaço para reduzir esse impacto sem abandonar a intervenção.

A própria estratégia de macrodrenagem financiada pelo BNDES indica que os reservatórios não foram concebidos como resposta isolada. O programa prevê também parques lineares nos córregos Oriente, Ribeirão das Pedras 3 e Proença, com recuperação da vegetação das margens.

O limite dos grandes reservatórios

Reservatórios de detenção conseguem reduzir o pico de uma cheia quando funcionam dentro das condições para as quais foram projetados. A questão é até onde estruturas concentradas em determinados pontos conseguem responder a um problema produzido em toda uma bacia urbanizada.

Em entrevista ao Jornal da USP, o pesquisador Filipe Antonio Marques Facetta, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, classificou os piscinões como medida paliativa e chamou atenção para uma questão que ganha importância depois da inauguração: a manutenção.

A água que chega aos reservatórios traz também terra, areia, folhas, lixo e outros materiais. Com o tempo, o acúmulo de sedimentos pode reduzir a capacidade disponível para armazenar água, exigindo limpeza e desassoreamento periódicos.

Campinas já prevê esse custo. O Plano Plurianual 2026-2029 destina recursos à manutenção e operação das obras de combate a alagamentos e enchentes, incluindo os piscinões.

Mesmo bem mantidos, os reservatórios continuarão recebendo o resultado do que acontece no restante da bacia. Novas áreas impermeabilizadas, condições das galerias, preservação da vegetação e ocupação do solo interferem no volume e na velocidade da água que chega ao sistema.

Por isso, a resposta de Campinas não termina na construção dos grandes reservatórios.

A promessa dos 90% será colocada à prova

Só RP-1 e RS-1 somam, pelos valores atualmente divulgados, cerca de R$ 345,5 milhões e terão capacidade conjunta para armazenar 200 milhões de litros. Quando entrarem em operação, será possível observar se os pontos historicamente atingidos passam a alagar menos e como o sistema se comporta diante de chuvas de diferentes intensidades.

E haverá uma expectativa pública contra a qual o resultado será inevitavelmente comparado.

A Prefeitura estima reduzir em cerca de 90% os problemas de enchentes nas bacias do Proença e do Serafim. A documentação consultada pela Gazeta, porém, não permitiu identificar com precisão qual indicador sustenta esse percentual.

É uma distinção importante. Reduzir 90% dos pontos atingidos, das ocorrências, da área inundada ou da intensidade dos alagamentos são resultados diferentes. Sem a métrica que sustenta a estimativa, o percentual divulgado pela administração municipal não pode ser traduzido automaticamente em uma dessas possibilidades.

Quando as obras estiverem concluídas, a discussão deixará de depender apenas de capacidade, projetos e projeções. O resultado poderá ser observado nas ruas.

Será ali que a promessa dos 90% enfrentará seu teste mais importante: saber se, depois de mais de meio bilhão de reais em macrodrenagem, a água que há décadas causa transtornos em Campinas continuará chegando aos mesmos lugares, com a mesma frequência e a mesma força.