Quem você é quando ninguém está olhando?
Fui ao supermercado e encontrei todos os caixas de autoatendimento fechados
Não estavam quebrados. Pelo menos não parecia. Nos caixas convencionais, uma fila grande. Achei estranho. Se aquelas máquinas estavam ali justamente para agilizar as compras, por que estavam todas desligadas? Perguntei. Era para evitar furtos.
Continuei na fila, mas fiquei olhando para os caixas apagados. O modelo daquele supermercado não tinha balança para conferir o peso das compras. A pessoa registra os produtos, paga e vai embora. Ou deveria registrar todos. Foi aí que uma coisa começou a me incomodar. Eu estava numa fila porque outras pessoas haviam descoberto como enganar uma máquina. Não sabia quem eram. Provavelmente nunca as encontraria. Mas, de alguma maneira, elas estavam ali comigo. Eu pagava a conta em minutos.
Lembrei dos mercadinhos de condomínio. Aqueles em que não há ninguém no caixa. Você entra, escolhe o que quer, registra, paga e sai. Uma ideia simples que depende de algo também muito simples: você fazer a coisa certa mesmo sem alguém ao lado conferindo. E há gente que não faz.
Já tinha ouvido histórias de moradores flagrados pelas câmeras pegando produtos sem pagar. Isso sempre me pareceu curioso. O sujeito mora ali. Entra e sai pelo mesmo portão todos os dias. Sabe que existem câmeras. Mesmo assim, abre a geladeira, pega alguma coisa e vai embora. Talvez pense que ninguém esteja olhando naquele momento. E foi essa ideia que ficou comigo.
Estamos nos acostumando a viver cercados de mecanismos criados para conferir se estamos fazendo aquilo que deveríamos fazer espontaneamente. No supermercado, colocam câmera. O caixa automático ganha balança. Aparece um funcionário para supervisionar os caixas que foram instalados justamente para funcionar sem um funcionário em cada um deles.
Se ainda assim não der certo, desligam. E todo mundo volta para a fila.
A desconfiança tem um custo que não aparece no cupom fiscal. Naquele dia, para mim, custou alguns minutos.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

