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Zeza Amaral: o jornalista que fez o lobo conversar com a Lua

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Texto escrito por Zeza Amaral a pedido da Agência Sollers reaparece mais de duas décadas depois e é republicado pela Gazeta da Metrópole em homenagem ao jornalista, cronista, músico e compositor, que morreu em outubro de 2024

Zeza Amaral morreu em 3 de outubro de 2024. Esta homenagem, porém, não nasce de uma data. Nasce de um reencontro.

Nas últimas semanas, ao recuperar antigos arquivos e documentos da Agência Sollers, reencontrei um texto que Zeza escreveu a meu pedido mais de duas décadas atrás.

Dei a ele o mote: o lobo e a Lua.

Zeza fez o resto.

Jornalista e colunista do Diário do Povo, ele criou duas vozes. Primeiro, deixou o lobo falar. Depois, foi a vez da Lua responder.

O texto foi utilizado no antigo site da Sollers e também em um folder de apresentação da agência. Ficou guardado entre tantos outros materiais de uma época em que sites, arquivos e documentos não tinham a facilidade de preservação que temos hoje.

Ao reencontrá-lo, reli aquelas palavras depois de tantos anos.

Poderia simplesmente guardar o arquivo novamente. Preferi fazer o contrário.

Trazer o texto de volta a público é uma maneira de preservar um pequeno pedaço daquela história e, principalmente, lembrar de quem o escreveu.

Zeza foi jornalista, cronista, músico e compositor. Fez de Campinas e de seu cotidiano matéria-prima para muitas de suas histórias. E foi também um apaixonado pela Ponte Preta. Frequentador do Majestoso, escreveu inúmeras vezes sobre a Macaca e carregava pelo clube uma relação que ia muito além do futebol.

Morreu em 2024, deixando uma trajetória construída entre palavras, música, personagens, a cidade que escolheu para viver e a sua inseparável Ponte.

Não há aniversário, efeméride ou qualquer outra razão de calendário para esta publicação.

Há apenas um texto que reapareceu.

E a lembrança de seu autor junto com ele.

A Gazeta da Metrópole republica a seguir “O lobo e a Lua / A Lua e o Lobo”, preservando integralmente seu conteúdo. Foram normalizadas apenas as quebras de linha e a formatação decorrentes da recuperação da antiga página do site.

A partir daqui, quem fala é Zeza Amaral.


O lobo e a Lua

Nada sou além de um lobo que preza a liberdade dos cerrados, criando novos caminhos e sempre apaixonado. Sou livre e orgulhoso da minha liberdade, um talismã que sempre ofereço a quem me busca. Sou um lobo-guará, brasileiro, e vivo sempre por novos desafios. Conheço a terra onde vivo, e por quem vivo.

Nada mais me dá tanto prazer quanto conversar com a Lua, em palavras celestiais de lealdade e franqueza, no justo limite da ajuda mútua, onde todos crescem juntos e felizes.

Fujo dos atalhos dos modismos. O tempo certo da criação é para quem faz da liberdade um cristal de estimação: tão antigo quanto o cristal, é igualmente belo e nos reconforta com sua bela transparência.

E assim são os meus caminhos de liberdade, transparentes. A minha Lua sabe disso. E ambos sabemos que não existem caminhos iguais, sequer semelhantes. Cada luar tem o seu próprio caminho que busca iluminar; e o meu tempo é só para descobrir quais os caminhos seguros que trilharemos.

Sou um lobo e vivo em perfeita harmonia com tudo o que me cerca. A pequena pedra é minha amiga, assim como a Lua. Ambas fazem parte do cosmo e da vida.

Somos poucos lobos para tantas luas. Mas sinto-me bem assim, no conhecimento dos meus limites.

E é por isso que desejo tanto a minha Lua. E será por ela que brindarei, num longo e sincero uivo de paz e prosperidade; onde também a convido para a grande festa que só os naturalmente justos sabem fazer.

A Lua e o Lobo

Nada mais me alegra saber que um lobo me deseja. Não pelo que possuo, mas por tudo que posso receber, compreendendo o que se dá, respeitando o também querendo.

Sabe o lobo de mim, de tudo o que preciso. Talvez saiba muito mais do que imagino e necessito, sem que disto saiba.

Compreender a vida é, sobretudo, escolher a justa companhia, a boa parceria. Amo este lobo que uiva apaixonado. Amo-o como sempre se deve amar, confiando, e sempre pronto para repensar a vida, os rumos antes traçados, à procura do verdadeiro norte.

Amo este lobo pelo todo amor que ele sempre compreendeu em mim, antes mesmo de ser o que sou agora: um clarão redondo de luz. Amo este lobo porque sei que ele compreende as luzes menores das luas, ajudando-as na busca do clarão total, da bem aventurança.

Nada mais enganoso que o rápido clarão do raio; na verdade, apenas uma cicatriz de luz riscando o ar; um engano que somente o verdadeiro e sábio lobo conhece; brilha intensamente mas fenece em sua própria e narcisa luz.

E tudo o que desejo e necessito é este lobo que ama e também deseja a minha luz serena; e que por ser assim, precisa apenas de ser compreendida, e amada e respeitada. Necessita o lobo da minha luz, assim como necessito de decisões fortes, sem serem rudes, criativas, mas sensatas, e conciliadoras, mas sem a hipocrisia das falsas intenções.

Alegra-me saber que um lobo me deseja pelo que sou; e por isso sempre será para ele o meu melhor luar.

Autor: Zeza Amaral – Jornalista e colunista do jornal Diário do Povo


Nota da Gazeta da Metrópole

“O lobo e a Lua / A Lua e o Lobo” foi originalmente utilizado no site e em folder de apresentação da Agência Sollers.

O texto foi recuperado da página histórica loboelua.htm, do antigo site sollers.com.br, preservada pelo Wayback Machine, com captura disponível a partir de 15 de agosto de 2002. Essa é a data do registro localizado, não necessariamente a data em que o texto foi escrito.

O conteúdo de Zeza Amaral foi preservado integralmente. Para esta republicação, foram normalizadas apenas as quebras de linha e a formatação decorrentes da recuperação da antiga página do site, sem alteração de sua redação.

Esta publicação é uma homenagem à memória de Zeza Amaral.