Por que alguns lugares de Campinas são mais quentes que outros?
Estudos mostram que vegetação, áreas construídas e características da ocupação urbana ajudam a criar diferenças de temperatura perceptíveis a poucos quilômetros de distância
Você já atravessou Campinas e teve a sensação de que a temperatura mudou no caminho? Em uma região, o calor parece continuar preso entre prédios e asfalto. Alguns quilômetros adiante, especialmente onde há mais vegetação, a sensação pode ser bem diferente.
Não é necessariamente impressão. Pesquisas realizadas em Campinas mostram que a cidade apresenta diferenças importantes de temperatura entre áreas mais urbanizadas e aquelas com maior cobertura vegetal. O fenômeno está relacionado às chamadas ilhas de calor e à formação de diferentes microclimas dentro do espaço urbano.
Um estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a partir de imagens do satélite Landsat 8 registradas durante o verão de 2013/2014, encontrou diferença de aproximadamente 12°C na temperatura da superfície entre áreas urbanizadas e regiões mais vegetadas do município.
O número exige uma distinção importante: temperatura da superfície não é a mesma coisa que temperatura do ar indicada pela previsão do tempo ou por um termômetro. O satélite registra o comportamento térmico de superfícies como asfalto, telhados, concreto, solo e vegetação. Ainda assim, os dados revelam que partes da mesma cidade absorvem e liberam calor de maneiras bastante diferentes.
Árvores, concreto e asfalto fazem diferença
Um levantamento da Embrapa Territorial analisou Campinas por meio de imagens obtidas em 1996, 2003 e 2011 e comparou índices de vegetação, áreas construídas e temperatura superficial. Os pesquisadores encontraram uma relação negativa entre vegetação e temperatura da superfície e positiva entre áreas construídas e temperaturas mais elevadas.
A explicação não está apenas na sombra produzida pelas árvores. A vegetação também participa do resfriamento do ambiente pela evapotranspiração, enquanto materiais comuns nas cidades, como concreto e asfalto, absorvem energia ao longo do dia e a liberam posteriormente. Quanto maior a impermeabilização e menor a cobertura vegetal, maior pode ser a capacidade daquela área de acumular calor.
Outro estudo realizado em Campinas comparou áreas com características urbanísticas diferentes. No Jardim das Paineiras, residencial e mais arborizado, pesquisadores encontraram melhores condições de conforto térmico do que no Centro, mais adensado e com menor presença de vegetação. O índice de conforto térmico PET registrado foi de 20,8°C no Jardim das Paineiras e 23,6°C no Centro.
Isso não significa que arborização seja a única explicação para as diferenças percebidas pela população. Relevo, circulação dos ventos, umidade, densidade das edificações, tipo de pavimento e características do uso do solo também interferem no microclima.
A diferença também aparece na região
O fenômeno foi medido diretamente em Indaiatuba, na Região Metropolitana de Campinas. Uma pesquisa de doutorado do Instituto de Geociências da Unicamp instalou sensores em dez pontos do município e encontrou diferenças expressivas na temperatura do ar, e não apenas na temperatura superficial obtida por satélite.
Em dois locais separados por somente 3,7 quilômetros, a diferença chegou a 6,7°C. Entre maio e julho de 2022, a intensidade da ilha de calor entre pontos urbanos e rurais alcançou 6°C em maio, 6,7°C em junho e 6,2°C em julho.
A pesquisa constatou ainda que as ilhas de calor se destacavam principalmente à noite. Durante o dia, materiais presentes no ambiente urbano armazenam energia e posteriormente liberam esse calor, fazendo com que determinadas regiões demorem mais para esfriar.
Uma cidade, várias temperaturas
Quando a previsão informa que Campinas terá determinada temperatura máxima, o número serve como referência meteorológica para a cidade. Isso não significa, porém, que todos os moradores experimentarão as mesmas condições térmicas em seus bairros e trajetos.
Uma rua com árvores formando sombra sobre a calçada pode oferecer condições diferentes de uma avenida larga, asfaltada e quase sem vegetação. O mesmo ocorre entre bairros densamente construídos e regiões próximas a grandes áreas verdes.
Mapas de temperatura superficial ajudam a tornar essas diferenças visíveis. A plataforma UrbVerde, desenvolvida por pesquisadores da USP e instituições parceiras, permite observar a distribuição espacial da temperatura e da vegetação dentro dos municípios paulistas, inclusive Campinas.
A questão ganha importância em períodos de calor intenso. Áreas verdes e arborização deixam de representar apenas uma escolha paisagística e passam a integrar as estratégias de adaptação das cidades às temperaturas elevadas.
Campinas já adota algumas iniciativas nessa direção. Entre elas estão as microflorestas urbanas, apresentadas pela Prefeitura também como instrumento de ampliação do sombreamento e enfrentamento das ilhas de calor. O município participa ainda do Acelerador de Soluções para o Calor Urbano, iniciativa do WRI Brasil que prevê intervenções de infraestrutura verde no Jardim Bassoli.
A diferença de temperatura sentida durante um deslocamento pela cidade, portanto, pode ter explicações muito concretas. O lugar onde estão as árvores, o asfalto, os prédios e as áreas permeáveis também ajuda a determinar como o calor é distribuído por Campinas.
Nota da redação — A imagem desta reportagem foi gerada por inteligência artificial como representação conceitual e não retrata um local específico de Campinas.

