A fila que ninguém respeita
A fila é uma invenção extraordinária. Não exige aplicativo, senha, inteligência artificial nem tutorial no YouTube. O princípio é tão simples que qualquer criança entende: quem chegou primeiro fica na frente. Funcionaria perfeitamente não fosse um pequeno detalhe: as pessoas. Basta juntar meia dúzia delas esperando alguma coisa para começar uma espécie de congresso extraordinário destinado a discutir por que, justamente naquele caso, alguém não deveria precisar esperar como os demais.
Um dos personagens mais conhecidos desse congresso é o cidadão da dúvida. Ele não pretende furar a fila, evidentemente. Seria uma injustiça acusá-lo de tamanha grosseria. Ele só se aproxima do balcão porque precisa fazer “uma perguntinha”. O diminutivo é fundamental. Ninguém interrompe uma fila para fazer uma pergunta; interrompe para fazer uma perguntinha. O problema é que a perguntinha frequentemente exige CPF, consulta no sistema, explicação do atendente, confirmação de endereço e, dependendo da repartição, talvez uma certidão de nascimento. Cinco minutos depois, resolvida a questão, ele agradece e vai embora com a consciência tranquila. Afinal, não foi atendido. Só perguntou.
Existe também o especialista em aproximação lateral. Esse é mais sofisticado. Ele não entra na fila; fica perto dela. Olha o celular, observa o balcão, dá dois passos para a frente, depois um para o lado e permanece naquela região geográfica indefinida entre “estou apenas esperando alguém” e “sou o próximo”. Quando percebemos, está perfeitamente incorporado entre o terceiro e o quarto da fila, como se tivesse chegado junto com a inauguração do estabelecimento. Se alguém reclama, vem o espanto sincero: “Nossa, tem fila?”. Não. As quinze pessoas posicionadas uma atrás da outra decidiram espontaneamente participar de uma instalação artística.
Mas talvez nenhum personagem seja tão interessante quanto o cidadão de um item. Ele aparece segurando uma garrafa de água, um pacote de pão, uma caixa de remédio ou qualquer objeto suficientemente pequeno para servir de argumento. Curiosamente, nunca surge alguém empurrando dois carrinhos lotados e perguntando se pode passar porque “é rapidinho”. A quantidade faz parte da tese. O sujeito examina a fila, identifica quem está mais perto do caixa, mostra sua mercadoria quase como quem apresenta uma credencial diplomática e pergunta: “Amigo, só tenho isso. Posso passar na sua frente?”.
O primeiro olha para a garrafa, olha para o próprio carrinho e, tomado por um admirável espírito de solidariedade, responde: “Claro!”. É um bonito gesto de generosidade, principalmente porque existem outras nove pessoas atrás dele. Nosso benfeitor acaba de doar não apenas o próprio lugar, mas alguns segundos do tempo de nove desconhecidos. É uma modalidade especialmente econômica de caridade: a pessoa pratica a boa ação e divide a conta com quem nem sabia que estava participando.
A pergunta tecnicamente correta talvez fosse outra: “Pessoal, vocês dez se importam de esperar um pouco mais porque eu comprei apenas uma água?”. Só que, formulada dessa maneira, a operação perde bastante do charme. Afinal, fica evidente que não se está pedindo para passar na frente de uma pessoa, mas de todas. Há uma diferença enorme quando a iniciativa parte de quem está esperando. Você vê alguém atrás segurando um único produto e oferece: “Pode passar”. Aí é cortesia. Você ofereceu o que era seu. O problema começa quando a nossa gentileza passa a ser financiada pelo tempo alheio.
Há ainda um território particularmente fértil para estudos sobre comportamento humano: o caixa preferencial. A fila comum está enorme, o preferencial está vazio e não há, naquele instante, nenhum idoso, gestante, pessoa com deficiência ou outro cliente com direito ao atendimento prioritário esperando. Dependendo da orientação do estabelecimento, nada impede que aquele caixa atenda outras pessoas enquanto estiver livre. Mesmo assim, é interessante acompanhar a reunião extraordinária que acontece dentro da nossa cabeça: “Não tem ninguém”, “vai ser rápido”, “se chegar alguém, eu deixo passar”. Em poucos segundos, consciência e conveniência chegam a um acordo histórico.
O verdadeiro experimento começa quando aparece alguém que efetivamente tem prioridade. É nesse momento que o mesmo cidadão que entrou no caixa pensando “se chegar alguém, eu deixo passar” pode descobrir um princípio jurídico desconhecido até trinta segundos antes: “Mas agora já começou a passar minhas compras”. Extraordinário como alguns direitos são reconhecidos com enorme entusiasmo enquanto não custam absolutamente nada.
A fila também possui institutos jurídicos próprios. Um dos mais tradicionais é a reserva de lugar. “Estou guardando para uma pessoa”, anuncia alguém. A expressão merece atenção, porque “uma pessoa” é uma unidade de medida bastante elástica. Pode significar efetivamente uma pessoa ou, dependendo do evento, marido, esposa, filhos, sogra, cunhado e duas crianças que estavam comprando pipoca. Existe ainda o famoso “meu marido está ali”. Onde exatamente fica “ali” não sabemos. Talvez procurando estacionamento, talvez chegando, talvez ainda tomando banho em casa. Mas sua existência já produz efeitos jurídicos sobre a fila.
O curioso é que todos nós conhecemos perfeitamente as regras. Sabemos onde a fila começa, sabemos quem chegou antes, sabemos para que serve o atendimento preferencial e sabemos que uma garrafa de água não confere imunidade diplomática ao proprietário. O problema é que, quando a espera começa a incomodar, nosso cérebro se transforma num excelente departamento jurídico. Sempre aparece uma interpretação segundo a qual aquela situação específica merece tratamento excepcional.
“É rapidinho.” “É só uma pergunta.” “Só tenho uma coisa.” “Não tinha ninguém no preferencial.” Nunca estamos furando fila. Estamos sempre diante de uma circunstância extraordinária que, por coincidência, beneficia justamente a nós mesmos. Mais curioso ainda é perceber como recuperamos imediatamente o compromisso com as instituições quando a interpretação criativa vem do sujeito que está atrás. Nesse momento não há relativização, exceção nem jurisprudência possível: “Amigo, a fila começa lá atrás”.
Talvez a fila seja um dos laboratórios sociais mais baratos que existem. Não precisamos de pesquisadores, questionários nem equipamentos sofisticados para descobrir alguma coisa sobre convivência, respeito e a extraordinária capacidade humana de criar exceções em benefício próprio. Basta colocar dez pessoas diante de um único caixa, deixar a fila crescer um pouco e mandar alguém aparecer segurando uma garrafa de água.
Em cinco minutos haverá material suficiente para uma tese de doutorado.
E, com alguma sorte, uma discussão.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

