Campinas tem até 700 mil árvores. Como saber quais estão em risco?
Inventário municipal já monitorou mais de 150 mil exemplares, enquanto casos na Praça do Coco, Bosque dos Jequitibás e Lagoa do Taquaral expõem o desafio de conciliar preservação, diagnóstico e segurança na arborização da cidade
Durante anos, elas deram sombra, fizeram parte da paisagem e ajudaram a transformar a Praça do Coco em um dos pontos mais conhecidos de Barão Geraldo. Quando algumas árvores começaram a ser podadas e retiradas, porém, uma operação de manutenção se transformou em discussão sobre preservação, segurança e critérios técnicos.
Moradores protestaram. O Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema) contestou parte das intervenções e apresentou laudo segundo o qual algumas podas e supressões não estariam tecnicamente justificadas. A Prefeitura sustentou que as decisões haviam sido tomadas com base em avaliações de profissionais habilitados, seguindo a legislação municipal, o Guia de Arborização Urbana de Campinas e normas da ABNT.
O caso avançou até novas avaliações chegarem a uma conclusão sobre duas figueiras da espécie Ficus benjamina. Laudos de técnicos municipais e especialistas da Esalq-USP apontaram que elas estavam em péssimo estado geral e apresentavam risco contínuo de queda. O Ministério Público validou a retirada.
A discussão da Praça do Coco expôs um desafio que se estende por toda Campinas: acompanhar a condição de um patrimônio estimado pela Prefeitura entre 600 mil e 700 mil árvores adultas.
Uma árvore não mostra tudo por fora
Para quem passa pela calçada, uma árvore verde e cheia de folhas pode parecer saudável. A avaliação técnica, entretanto, considera diferentes elementos, como espécie, porte, condições do tronco e das raízes, estado fitossanitário e risco de queda.
Quando é necessário aprofundar o diagnóstico, podem ser utilizados equipamentos como ultrassom e tomógrafo sônico para analisar troncos e raízes. Segundo a Prefeitura, podas e remoções são realizadas depois da emissão de laudos técnicos que indiquem a necessidade da intervenção.
Isso torna o inventário arbóreo mais do que uma contagem. O levantamento reúne informações para orientar o manejo das árvores existentes.
Mais de 150 mil árvores já foram monitoradas
O inventário municipal está em produção há cerca de dois anos. De acordo com a Prefeitura, mais de 150 mil árvores já foram monitoradas por 24 equipes, que avaliam aproximadamente 5 mil exemplares por mês. A projeção divulgada é chegar a 200 mil árvores mapeadas.
A dimensão do trabalho aparece quando esse número é comparado à estimativa de 600 mil a 700 mil árvores adultas existentes em Campinas. Mesmo alcançando 200 mil exemplares, o levantamento ainda abrangerá apenas uma parcela do patrimônio arbóreo estimado da cidade.
Além da localização e identificação dos exemplares, os dados produzidos são utilizados nas decisões sobre manutenção, acompanhamento, poda e eventual retirada.
O Bosque dos Jequitibás amplia o problema
A discussão ganha outra dimensão em espaços históricos e ambientais, como o Bosque dos Jequitibás, conjunto tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc).
O manejo das árvores do Bosque provocou neste ano divergências sobre critérios técnicos, acesso aos estudos e procedimentos adotados. O Comdema questionou intervenções previstas no local, enquanto a Prefeitura sustentou que o manejo estava fundamentado em avaliações técnicas.
A condição de uma árvore nesses espaços envolve, além da avaliação individual do exemplar, aspectos relacionados à segurança dos frequentadores, à preservação ambiental e à manutenção da paisagem protegida.
O Taquaral e os acidentes com árvores
Campinas já registrou acidentes graves envolvendo quedas de árvores. Entre o fim de 2022 e o início de 2023, episódios ocorridos nas proximidades do Bosque dos Jequitibás e na Lagoa do Taquaral levaram a avaliações e intervenções mais intensas na arborização desses espaços.
Os temporais recentes também mostraram que quedas não estão necessariamente associadas apenas a árvores previamente identificadas como comprometidas.
Em levantamento divulgado após os episódios de chuva e vento do início de setembro, a Prefeitura registrou 21 quedas de árvores ou galhos em um período de 24 horas. Em outro balanço referente aos temporais entre 30 de agosto e 1º de setembro, a administração informou a queda de pelo menos 54 exemplares considerados sadios.
A avaliação de risco, portanto, não permite prever todas as ocorrências. Ela é utilizada para identificar problemas detectáveis e orientar medidas de manejo.
Até onde deve ir a avaliação?
A profundidade dessas avaliações é um dos pontos de divergência entre representantes do Comdema e a administração municipal.
Integrantes do conselho questionam o fato de nem todas as árvores passarem pelo nível mais aprofundado de análise. A Prefeitura afirma seguir orientações da ABNT e sustenta que cabe aos técnicos responsáveis determinar quando é necessário avançar na investigação de cada exemplar.
O pesquisador Ivan André Alvarez, da Embrapa Meio Ambiente, também questionou a abrangência qualitativa do levantamento e defendeu maior divulgação das informações produzidas. A administração municipal afirma que o inventário realizado é qualiquantitativo.
A discussão envolve, assim, a metodologia utilizada nas avaliações, a profundidade dos exames e o acesso aos dados produzidos.
O morador consegue saber como está a árvore da sua rua?
Campinas possui um mapa georreferenciado que permite consultar árvores por endereço. Segundo levantamento da CBN Campinas, porém, a ferramenta disponibilizada ao público não apresenta o detalhamento da condição de saúde dos exemplares monitorados.
Questionada sobre o acesso, a Prefeitura informou que os dados são públicos e podem ser obtidos mediante solicitação pelo serviço 156.
O caso da Praça do Coco ajuda a mostrar a importância dessas informações. As primeiras intervenções foram contestadas, houve novas avaliações e, posteriormente, o Ministério Público validou a retirada de duas árvores específicas consideradas de risco.
Inventário ainda está em construção
Com mais de 150 mil árvores monitoradas e uma estimativa municipal de 600 mil a 700 mil exemplares adultos na cidade, o inventário ainda cobre uma parcela da arborização de Campinas.
Os casos da Praça do Coco, do Bosque dos Jequitibás e da Lagoa do Taquaral apresentam situações diferentes dentro da gestão das árvores adultas: avaliação das condições dos exemplares, identificação de riscos, definição de intervenções e substituição quando tecnicamente indicada.
Segundo a Prefeitura, o levantamento continua sendo ampliado e as equipes avaliam cerca de 5 mil árvores por mês. A administração afirma que as decisões de poda e supressão são baseadas em avaliações técnicas e que exames mais aprofundados são utilizados quando considerados necessários.
As divergências apresentadas pelo Comdema e por pesquisadores concentram-se na profundidade dessas avaliações e no acesso público às informações produzidas.
Com o inventário ainda em andamento, o acompanhamento das centenas de milhares de árvores adultas existentes em Campinas permanece como uma tarefa de longo prazo.
Crédito da foto: Fernanda Sunega/Prefeitura de Campinas.

