A Convocação e o Teatro das Ilusões
Há convocações que ultrapassam a técnica e entram no território do mistério. A de ontem foi exatamente isso: uma missa solene do futebol brasileiro, dessas em que cada nome lido parece carregar um destino coletivo. O elenco surgiu como personagens de uma tragédia cuidadosamente ensaiada. E no centro do palco, entre aplausos, suspiros e espantos, apareceu o nome que incendiou a nação: Neymar.
A volta de Neymar é mais que uma decisão — é uma confissão. Confessamos que ainda somos escravos do talento improvável, do drible impossível, da esperança que se recusa a morrer. Mas a pergunta, esta sim, continua atravessada na garganta do país: ele foi convocado por mérito ou por marketing? O grupo ganha com sua presença ou vira refém de sua gravidade emocional? Neymar volta como solução luminosa ou como tempestade anunciada?
Com ele, não existe meio-termo. É o gênio capaz de transformar o time num desfile de carnaval… ou o peso que assombra o vestiário inteiro. A Seleção vive este dilema há anos e, mesmo assim, insiste em chamá-lo, como quem volta sempre ao mesmo sonho — ou ao mesmo erro.
Mas se Neymar provoca discussões existenciais, outro nome desperta aquela velha sensação de déjà-vu burocrático: Lucas Paquetá. Não é mau jogador, longe disso. Mas há nele uma medianidade persistente, uma falta de brilho que irrita os olhos de quem ainda acredita no mérito como princípio básico da convocação. Paquetá surge como a escolha automática, a peça que entra no tabuleiro porque sempre esteve ali, mesmo quando não brilha, mesmo quando não convence.
E então surge o contraste, quase uma ironia do destino: a ausência de Andreas Pereira. Este sim, desempenhou na Seleção com a chama de quem quer mais. Jogou com fome, com intensidade, com aquela personalidade que deveria ser o mínimo olímpico de qualquer convocado. Mostrou futebol digno de protagonismo. Mas ficou de fora. Enquanto Paquetá ficou dentro.
E o que isso demonstra, além da velha mania brasileira de insistir nos mesmos nomes, mesmo quando o campo grita outra verdade?
A convocação, no fim, foi um espelho do país: bonita na superfície, confusa por dentro. Entre Neymar e Paquetá, entre mérito e influência, entre passado e futuro, o Brasil se vê outra vez mergulhado na esperança nervosa que antecede toda grande competição.
Mas, como sempre, acreditamos.
Acreditamos no absurdo, no improvável, no milagre.
Acreditamos porque somos brasileiros — e torcer, para nós, é um ato de fé, não de lógica.
A Seleção convoca jogadores.
Nós convocamos sofrimento.
E seguimos adiante, como sempre, prontos para sonhar mais uma vez.

