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A jaqueta de Sanito

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Crônicas Metropolitanas | Alvin Wolf

Há frases capazes de destruir uma reputação em segundos. Soube de uma dessas recentemente.

Uma filha olhou para a jaqueta que a mãe estava usando e disparou:

— Parece uma jaqueta de Sanito.

Foi uma dessas observações que deveriam vir acompanhadas de um pedido de desculpas à indústria da moda.

Até aquele momento, a jaqueta era uma peça perfeitamente respeitável. Preta, acolchoada, com capuz e aparência de quem havia sido projetada para enfrentar o inverno europeu. Bastaram cinco palavras para que perdesse a cidadania italiana e fosse deportada para Campinas.

O problema dessas comparações é que, depois de feitas, tornam-se irreversíveis. Você pode consultar um estilista, recorrer a um especialista em tecidos, apresentar a nota fiscal. Não adianta. O cérebro já registrou a imagem e se recusa a aceitar qualquer recurso.

A jaqueta estava condenada.

A história me deixou curioso. Nos anos 1930, depois de quase morrer de frio durante uma pescaria, o americano Eddie Bauer desenvolveu uma jaqueta acolchoada com plumas que ajudou a transformar o vestuário de inverno.

Escapou da hipotermia, encontrou uma solução engenhosa e, sem saber, deu sua contribuição para um futuro constrangimento da alta-costura em Campinas.

Com o tempo, a jaqueta conquistou montanhistas, atravessou continentes e acabou nas passarelas.

A moda descobriu que, se uma peça já era volumosa, poderia ser ainda mais volumosa. Se era acolchoada, poderia receber acolchoamento suficiente para proteger uma família inteira durante uma nevasca.

Alguns modelos parecem edredons que desistiram da cama e resolveram conhecer o mundo.

Tudo muito sofisticado.

Os estilistas chamam isso de silhueta. Eu chamaria de dificuldade para passar pela porta.

Essas jaquetas, convém lembrar, foram concebidas para proteger o corpo de temperaturas realmente baixas. Fazem sentido nas montanhas, em regiões geladas, em lugares onde a previsão do tempo pode ser confundida com uma ameaça à vida.

Em Campinas, a situação é um pouco diferente.

Basta o termômetro anunciar quinze graus para a população começar a se preparar para uma expedição ao Polo Norte. Aparecem cachecóis, botas e jaquetas capazes de resistir a uma tempestade de neve.

Às dez da manhã, o sol resolve trabalhar.

Começa então o verdadeiro desafio do inverno campineiro: descobrir onde colocar toda aquela roupa. Dependendo do modelo, a jaqueta exige autorização para viajar como bagagem de mão.

Mas reconheço suas qualidades. É confortável, protege do frio e pode ser bastante elegante. A moda não é obrigada a obedecer às minhas preferências, embora isso facilitasse muito a vida de todos.

O que me impressiona é a fragilidade do prestígio.

Uma peça atravessa décadas de aperfeiçoamento tecnológico. Engenheiros estudam isolamento térmico. Estilistas pesquisam materiais. Marcas investem em campanhas publicitárias. Modelos desfilam com expressões de quem acaba de receber uma notícia desagradável.

Então aparece uma filha.

Olha para a roupa da mãe.

E acaba com tudo.

A dona da jaqueta continuou usando a peça, naturalmente. Não havia motivo para abandonar uma roupa perfeitamente funcional por causa de uma observação espirituosa.

Já eu, desde que ouvi a história, nunca mais consegui olhar para uma jaqueta preta, acolchoada e ligeiramente brilhante da mesma maneira.

Não penso em Milão, Paris ou nas montanhas suíças.

Penso em Campinas.

Penso na extraordinária capacidade que uma família tem de destruir conceitos sofisticados com uma única frase.

E penso que a indústria da moda deveria investir menos em publicidade e mais em controle de danos domésticos.

Talvez o leitor de fora de Campinas tenha passado a crônica inteira imaginando que Sanito fosse um estilista italiano injustamente esquecido.

Não era.

Sanito era uma marca de sacos de lixo.

A jaqueta continuou sendo usada. O que foi para o lixo, naquela tarde, foi o glamour.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.