O voto diante do espelho
Uma fala de Dom Orlando Brandes, durante uma celebração no Santuário Nacional de Aparecida, ganhou repercussão ao tratar das eleições. Ao falar sobre o voto, o arcebispo reuniu ideias que deveriam parecer elementares numa democracia: consciência, conhecimento e bem comum. Na mesma homilia, defendeu a soberania nacional e afirmou que nenhum poder externo deveria mandar no Brasil.
A força dessas palavras está justamente no fato de não indicarem um nome. Elas oferecem critérios. E critérios são mais difíceis do que candidatos, porque obrigam o eleitor a decidir primeiro aquilo que considera importante para somente depois olhar para quem pretende entregar seu voto.
É fácil condenar a corrupção quando a suspeita ou a condenação atinge um adversário. É fácil exigir competência de quem pensa diferente de nós, defender as instituições quando concordamos com suas decisões ou invocar princípios democráticos quando eles protegem aquilo em que acreditamos. O verdadeiro teste começa quando os personagens trocam de lugar.
Se aquilo que consideramos inaceitável no adversário passa a ser tolerável no candidato de nossa preferência, talvez o problema não esteja no princípio, mas na maneira como escolhemos aplicá-lo.
O princípio só é princípio quando continua valendo depois que trocamos os personagens.
É nesse momento que o voto encontra o espelho.
A eleição nos dá liberdade para escolher entre projetos, ideias e candidatos diferentes. Essa liberdade, porém, não elimina a necessidade de conhecer aquilo que estamos escolhendo. Consciência sem conhecimento corre o risco de ser apenas convicção, e convicções podem ser sinceras e, ainda assim, estar apoiadas em informações falsas, incompletas ou simplesmente erradas.
Conhecer um candidato exige mais do que reconhecer seu rosto, concordar com suas frases ou compartilhar sua indignação. Exige observar sua trajetória, o que fez quando teve poder, as propostas que apresenta, as alianças que construiu, sua relação com o dinheiro público, com as instituições e com os limites do cargo que pretende ocupar. Exige também uma disposição cada vez mais rara: procurar aquilo que preferiríamos não encontrar.
Vivemos cercados por mecanismos que facilitam o caminho contrário. Redes sociais aprendem nossas preferências, grupos reúnem pessoas que pensam de maneira semelhante e discursos políticos oferecem explicações simples para problemas que quase nunca são simples. Aos poucos, podemos deixar de procurar informação para procurar confirmação.
Quando isso acontece, já não perguntamos apenas se determinado fato é verdadeiro. Passamos a perguntar, ainda que inconscientemente, se ele favorece ou prejudica aquilo em que queremos acreditar.
O conhecimento mencionado por Dom Orlando encontra, então, outra das ideias defendidas por ele: o bem comum. Ao falar sobre a escolha eleitoral, o arcebispo pediu que ela levasse em conta o bem de todos. Não é uma exigência pequena.
Todo eleitor possui interesses particulares. O trabalhador pensa no emprego e no salário; o empresário, nas condições para produzir e investir; o aposentado, em sua renda; uma família, na escola, na saúde, na segurança e no futuro dos filhos. Esses interesses são legítimos e fazem parte da democracia.
O problema começa quando a política termina no pronome eu.
Uma eleição não escolhe um governo apenas para aqueles que votaram no vencedor. As decisões tomadas depois da posse atingirão quem votou nele, quem escolheu o adversário, quem anulou o voto e quem sequer compareceu às urnas. O dinheiro administrado será de todos, assim como as instituições continuarão pertencendo a todos. E as consequências das decisões públicas não perguntarão em quem cada cidadão votou antes de chegar à sua porta.
Por isso, talvez devêssemos acrescentar uma pergunta às tantas que fazemos durante uma campanha: o que a minha escolha fará com os outros?
É uma pergunta incômoda porque obriga o interesse individual a dividir espaço com a responsabilidade coletiva. É justamente nesse ponto que o bem comum deixa de ser uma expressão bonita para discursos e passa a significar alguma coisa.
Essa responsabilidade coletiva também alcança a soberania. Um país soberano decide seus próprios caminhos, o que não exige isolamento, hostilidade ou recusa ao diálogo com outras nações. Países mantêm relações, negociam, cooperam e defendem seus interesses. É assim que funciona o mundo. Mas os interesses de uma potência estrangeira não são necessariamente os interesses do Brasil.
A defesa da soberania também precisa sobreviver à troca dos personagens. Não faz sentido condenar pressões externas quando elas prejudicam nosso campo político e aceitá-las quando parecem favorecê-lo. Se consideramos inadequado que outro país interfira nos assuntos brasileiros, o princípio precisa valer independentemente de quem governa lá fora ou de quem poderá se beneficiar aqui dentro.
Caso contrário, voltamos ao espelho. Nesse caso, não estaríamos defendendo soberania, mas conveniência.
Consciência, conhecimento, bem comum e soberania acabam conduzindo à mesma palavra: responsabilidade. A democracia concede ao cidadão o direito de escolher, mas nenhuma sociedade consegue separar completamente suas escolhas das consequências que elas produzem. Governantes não aparecem espontaneamente. Eles recebem votos, assumem cargos e passam a exercer poderes que lhes foram entregues pelas urnas.
Isso não torna cada eleitor individualmente responsável por tudo o que determinado governo venha a fazer. Governos enfrentam circunstâncias imprevisíveis, mudam posições, cometem erros e tomam decisões que dificilmente poderiam ser antecipadas no momento da eleição. Há, entretanto, comportamentos conhecidos, trajetórias públicas, declarações registradas, decisões anteriores e fatos disponíveis antes do voto.
Quando essas informações existem e preferimos ignorá-las porque perturbam nossas certezas, torna-se mais difícil afirmar depois que nada sabíamos. A responsabilidade democrática começa justamente aí: na disposição de conhecer antes de escolher.
A Gazeta da Metrópole não pretende dizer ao leitor em quem votar. Um jornal que substituísse a consciência de seus leitores estaria contrariando o princípio que este próprio editorial defende. Nossa responsabilidade é investigar, confrontar versões, verificar informações, fazer perguntas e oferecer elementos para que cada cidadão construa seu próprio julgamento e tome sua própria decisão.
Talvez seja essa também uma dimensão da soberania: um país capaz de decidir seu destino precisa de cidadãos capazes de exercer autonomia sobre suas escolhas.
Dom Orlando ofereceu quatro boas referências para esse exercício: consciência, conhecimento, bem comum e soberania. Antes da urna, podemos transformá-las em perguntas.
Estou aplicando ao candidato de minha preferência os mesmos critérios que aplicaria ao seu adversário? Procurei conhecer aquilo que poderia contrariar minha escolha? Estou pensando somente naquilo que desejo para mim ou também nas consequências para os outros? Defendo os interesses e a autonomia do Brasil mesmo quando isso contraria minhas preferências políticas?
As respostas pertencem a cada eleitor.
O voto é individual. Suas consequências são coletivas.
Antes de apertar CONFIRMA, talvez valha a pena fazer algo que nenhum candidato, partido, líder religioso, influenciador ou jornal pode fazer por nós: olhar para o candidato, olhar para o país e, finalmente, olhar para o espelho.

