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A morte da vírgula

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CRÔNICAS METROPOLITANAS
Por Alvin Wolf
“Porque toda cidade esconde histórias que passam despercebidas”

A cidade não perdeu apenas a paciência. Perdeu também as pausas.

Houve um tempo em que a vírgula era uma gentileza.

Ela entrava na conversa como quem puxa uma cadeira para alguém se sentar. Não interrompia. Não mandava. Apenas sugeria um pequeno descanso entre uma ideia e outra, como quem diz: “Espere um instante. Ainda não terminei de pensar.”

Hoje, a vírgula parece um luxo.

Vivemos na era em que tudo precisa ser imediato. A resposta, o pedido, a opinião, a indignação. Se demorar mais de cinco minutos para responder uma mensagem, alguém imagina que você morreu, brigou ou simplesmente perdeu o interesse pela humanidade.

A culpa não é do celular. Nunca foi.

O celular apenas revelou uma espécie que já existia: o ser humano apressado.

Antigamente, as pessoas terminavam uma frase antes de começar outra. Hoje, terminam a frase do outro. Quando terminam.

Basta observar uma mesa de café. Quatro pessoas. Quatro telas. Quatro conversas diferentes acontecendo ao mesmo tempo, nenhuma delas ali. O garçom pergunta se desejam mais alguma coisa e recebe um “uhum” automático, como se tivesse interrompido uma importante reunião entre o polegar e a tela.

Até as discussões perderam qualidade.

Ninguém mais debate. Apenas dispara.

As opiniões saem embaladas a vácuo, prontas para consumo imediato. Não há espaço para a dúvida, para o “talvez”, para o “deixe-me pensar melhor”. A vírgula foi substituída pelo ponto de exclamação. E, quando falta argumento, aparecem três ou quatro emojis fazendo o trabalho que antes cabia às palavras.

Curioso é que a cidade acompanha esse ritmo.

Os semáforos parecem demorar mais. As filas são sempre culpa de alguém. O elevador nunca chega no tempo que esperamos. O motorista da frente sempre arranca um segundo depois do aceitável. Caminhamos depressa para lugares onde, muitas vezes, nem gostaríamos de estar.

Parece que desaprendemos a esperar.

Esperar um amigo.

Esperar a chuva passar.

Esperar o café esfriar.

Esperar uma boa ideia amadurecer.

A pressa virou uma espécie de religião moderna. Seus fiéis acreditam que correr resolve tudo, embora quase nunca saibam exatamente para onde estão correndo.

Talvez seja por isso que sentimos tanta saudade de coisas que ainda existem.

A conversa sem relógio.

O almoço que atravessa a sobremesa.

A carta escrita à mão.

O livro que pede silêncio.

A caminhada sem fones de ouvido.

Não sentimos falta do passado.

Sentimos falta do tempo que dávamos às coisas.

A vírgula nunca foi apenas um sinal gráfico.

Era um acordo silencioso entre quem escreve e quem lê. Um convite para respirar antes da próxima ideia.

Talvez a cidade esteja precisando exatamente disso.

Menos buzinas.

Menos notificações.

Menos urgências inventadas.

E um pouco mais de vírgulas.

Porque algumas histórias não acabam quando fazemos uma pausa.

Elas apenas respiram.

Na próxima esquina, alguém estará tentando contar uma história em um áudio de oito minutos. E, curiosamente, quase ninguém terá tempo para ouvi-la.

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