A Odisseia: por que uma história de quase 3 mil anos voltou a conquistar o mundo
Filme de Christopher Nolan ultrapassa US$ 1 bilhão nas bilheterias e transforma o poema atribuído a Homero em fenômeno da cultura pop, levando uma nova geração das telas de cinema de volta às páginas de um dos grandes clássicos da literatura
Uma história sobre um homem que passou anos tentando voltar para casa acaba de alcançar uma marca reservada a poucos filmes. Neste domingo (9), A Odisseia, de Christopher Nolan, chegou a US$ 1,1 bilhão em bilheteria mundial e se tornou o filme de maior arrecadação da carreira do diretor, sem considerar a inflação. O longa ultrapassou Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que havia arrecadado cerca de US$ 1,08 bilhão.
O tamanho do sucesso chama ainda mais atenção porque, por trás de um dos grandes blockbusters de 2026, está uma história que começou a circular muito antes da existência do cinema, dos livros impressos e até de boa parte das cidades que conhecemos hoje. A Odisseia, poema épico atribuído ao grego Homero, atravessou quase três milênios sendo contada, escrita, traduzida, estudada e reinterpretada. Agora, encontrou em Hollywood uma nova geração de espectadores e está provocando um movimento particularmente curioso: depois de conhecer Odisseu nas telas, muita gente decidiu procurar Homero nas livrarias.
A pergunta talvez seja mais interessante do que a própria bilheteria: como uma história tão antiga ainda consegue conversar com o público do século 21?
Uma viagem que começou há quase três mil anos
A Odisseia é uma das obras fundamentais da literatura ocidental. Composta provavelmente por volta do século 8 a.C. e atribuída a Homero, narra a tentativa de Odisseu, chamado de Ulisses na tradição latina, de retornar à ilha de Ítaca depois da Guerra de Troia. A guerra havia durado dez anos e o retorno levaria outros dez. Enquanto enfrenta mares, criaturas mitológicas, interferências divinas, perdas e tentações, sua esposa, Penélope, permanece em Ítaca cercada por pretendentes que acreditam que o rei está morto e disputam não apenas sua mão, mas também o poder. Telêmaco, filho do casal, cresce praticamente sem o pai e parte em busca de informações sobre seu destino.
É nessa longa viagem que aparecem figuras que atravessaram os séculos e entraram definitivamente para o imaginário popular, entre elas o ciclope Polifemo, a feiticeira Circe e as sereias. Mas reduzir A Odisseia a uma sucessão de monstros, deuses e aventuras seria deixar de lado justamente aquilo que talvez explique sua longevidade. No centro da narrativa existe uma ideia extremamente simples e ainda reconhecível: um homem tentando voltar para casa.
Odisseu também não corresponde exatamente ao modelo do guerreiro que resolve tudo pela força. Uma de suas características fundamentais é a inteligência. Ele observa, engana, improvisa, negocia e tenta sobreviver a situações nas quais a força física nem sempre oferece uma saída. Isso aparece de maneira emblemática no episódio do ciclope Polifemo, quando precisa encontrar uma forma de escapar de uma criatura muito mais poderosa. A astúcia, e não apenas a força, torna-se uma das marcas do personagem.
Talvez seja justamente essa complexidade que continue tornando Odisseu reconhecível tantos séculos depois. Ele é rei e guerreiro, mas também marido, pai, viajante e sobrevivente. Acerta, erra, enfrenta as consequências das próprias decisões e volta da guerra transformado pelo que viveu. Está longe de ser um herói perfeito e talvez por isso continue parecendo tão humano.
Quando Hollywood encontra Homero
Christopher Nolan levou esse universo para uma escala cinematográfica monumental. Com Matt Damon no papel de Odisseu, Anne Hathaway como Penélope e Tom Holland como Telêmaco, o filme reúne ainda Zendaya, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o e Charlize Theron. A produção custou cerca de US$ 250 milhões e foi filmada durante 91 dias, ao longo de seis meses e passando por seis países. Nolan também transformou o projeto em um marco técnico: A Odisseia é o primeiro longa-metragem filmado inteiramente com câmeras IMAX de filme.
A tecnologia empregada na produção parece estar no extremo oposto do mundo em que nasceu a narrativa. Antes de ser fixada pela escrita, a tradição épica grega esteve profundamente ligada à oralidade e à transmissão das histórias entre gerações. Agora, uma dessas narrativas chega a milhões de espectadores por meio de algumas das tecnologias mais sofisticadas disponíveis no cinema.
Mas talvez o fenômeno mais interessante provocado pelo filme esteja acontecendo justamente fora das salas de exibição.
Do IMAX de volta às páginas de Homero
O lançamento de A Odisseia provocou uma forte procura pelo poema. Dados da Circana BookScan divulgados pela imprensa norte-americana mostram que as vendas de exemplares impressos das diferentes edições da obra nos Estados Unidos cresceram 76% em 2026. A tradução para o inglês da classicista Emily Wilson, publicada originalmente em 2017, tornou-se a edição mais vendida.
É um movimento particularmente interessante. Durante gerações, muita gente chegou a A Odisseia primeiro pela escola ou pela universidade e só depois conheceu suas adaptações. O fenômeno provocado pelo filme de Nolan mostra também o caminho inverso: espectadores descobrem uma narrativa por meio de uma superprodução cinematográfica e, interessados pelo que viram, procuram o texto que está na origem daquela história.
É difícil imaginar contraste maior. De um lado estão as gigantescas telas IMAX, tecnologia digital, campanhas globais e uma produção de centenas de milhões de dólares. Do outro, versos nascidos em uma tradição com quase três mil anos. Em vez de um mundo eliminar o outro, o cinema acabou criando uma porta para que novos leitores chegassem a Homero.
Esse movimento ajuda a explicar por que os clássicos não permanecem vivos apenas porque foram preservados em bibliotecas ou incluídos nos currículos escolares. Eles sobrevivem também porque cada geração encontra uma nova porta de entrada para essas histórias. Em determinado momento pode ser uma tradução, em outro uma peça teatral, um romance, uma série ou uma produção cinematográfica.
O filme não é o poema
O sucesso comercial e o renovado interesse pelo livro não significam que a adaptação tenha escapado de críticas. Emily Wilson, cuja tradução foi uma das referências utilizadas por Nolan durante a construção do personagem, fez uma avaliação dura do resultado cinematográfico. Entre suas críticas estão a perda de complexidade emocional, política e psicológica que identifica na obra de Homero, além das mudanças feitas em personagens e relações importantes da narrativa.
Outros estudiosos também questionaram aspectos da caracterização de Odisseu, especialmente porque sua inteligência, capacidade de manipular situações e charme são elementos fundamentais do personagem homérico. A discussão, porém, não elimina um efeito que até os críticos do filme reconhecem: A Odisseia voltou a ocupar espaço na conversa contemporânea e despertou interesse pela literatura clássica.
A controvérsia também ajuda a lembrar que uma adaptação cinematográfica não substitui o livro. São linguagens diferentes e, no caso de uma obra que atravessou tantos séculos, Nolan é apenas mais um entre inúmeros autores, tradutores, artistas e cineastas que decidiram reinterpretar a viagem de Odisseu.
Por que continuamos voltando a Ítaca?
Talvez a explicação para a permanência de A Odisseia esteja menos nos monstros encontrados pelo caminho e mais naquilo que acontece entre esses encontros. A obra fala sobre guerra, ausência, fidelidade, medo, desejo, poder, família, envelhecimento e identidade. Fala também sobre aquilo que acontece com uma pessoa depois de passar por experiências capazes de transformá-la profundamente.
Odisseu quer voltar para casa, mas depois de tantos anos surge uma questão que atravessa praticamente toda grande história de retorno: é possível voltar a ser quem éramos antes de partir? Enquanto ele tenta regressar, Ítaca também continua existindo sem ele. Penélope espera, Telêmaco cresce, Odisseu envelhece e o mundo segue adiante enquanto o viajante procura o caminho de casa.
Ítaca é um lugar físico, mas também pode representar aquilo que alguém deixou para trás e espera reencontrar. É uma experiência suficientemente humana para sobreviver à Grécia Antiga, ao Império Romano, à Idade Média, às revoluções, às guerras modernas e à chegada do cinema.
Há algo quase simbólico no fenômeno provocado por Christopher Nolan. Uma história que atravessou séculos sendo contada, copiada, impressa, traduzida e reinterpretada agora é projetada em algumas das telas tecnologicamente mais sofisticadas do planeta. Quase três mil anos separam esses mundos. O suporte mudou, a maneira de contar mudou e o público também mudou.
Odisseu, porém, continua tentando chegar a Ítaca.
E nós continuamos acompanhando sua viagem.

