A cidade desaprendeu a dizer bom dia
CRÔNICAS METROPOLITANAS
Por Alvin Wolf
Eram 7h32 quando entrei no elevador.
No canto, uma mulher segurava o celular com as duas mãos e observava a tela com a concentração de quem tentava desarmar uma bomba. Apertei o botão do térreo e disse:
“Bom dia.”
Ela levantou os olhos, assustada.
“Desculpe, nós nos conhecemos?”
A pergunta não foi agressiva. Foi sincera. Naquela manhã, percebi que cumprimentar um desconhecido havia se tornado uma atitude tão incomum que precisava ser justificada.
Antigamente, o bom-dia não exigia apresentação, currículo nem intenção. Era apenas uma pequena ponte lançada entre duas pessoas que, por alguns segundos, dividiam o mesmo elevador, a mesma calçada ou a mesma fila do pão.
Hoje, qualquer ponte parece suspeita.
Se alguém puxa conversa no ponto de ônibus, pensamos que venderá alguma coisa. Se uma pessoa sorri no supermercado, procuramos a câmera escondida. Se o motorista pergunta como estamos, respondemos “tudo bem” com a pressa de quem teme que ele realmente queira saber.
A cidade nos ensinou a desconfiar até da gentileza.
No prédio onde morei durante alguns anos havia um porteiro chamado Anselmo. Ele não apenas dizia bom dia. Anselmo possuía um catálogo inteiro de bons-dias.
Havia o bom-dia alegre das sextas-feiras, o bom-dia cauteloso das segundas, o bom-dia respeitoso para quem voltava do hospital e o bom-dia silencioso para quem atravessava alguma tristeza.
Ele sabia quem saía atrasado, quem esperava uma encomenda, quem havia perdido o emprego e quem fingia estar tudo bem. Não fazia perguntas indiscretas. Apenas regulava o tom da voz conforme o peso que cada morador parecia carregar.
Um dia, instalaram reconhecimento facial na entrada.
A administração anunciou a novidade como um avanço. Agora ninguém mais precisaria parar diante da portaria. Bastava olhar para a câmera e seguir.
Era mais rápido, moderno e seguro.
Pouco tempo depois, Anselmo foi dispensado.
O equipamento reconhecia todos os rostos, mas não conhecia ninguém.
Sabia que eu era o morador do apartamento 74. Não sabia quando eu estava preocupado. Liberava a porta em menos de dois segundos, mas jamais perceberia que alguém precisava de cinco minutos de conversa.
Ganhamos velocidade para entrar no prédio e perdemos o único homem que notava como chegávamos.
Talvez esse seja o grande negócio das cidades modernas. Trocamos pequenas relações humanas por alguns segundos de eficiência e depois gastamos horas nas redes sociais procurando conexão.
Na cafeteria, fazemos o pedido por uma tela para evitar falar com o atendente. No transporte por aplicativo, escolhemos a opção “prefiro não conversar”. No supermercado, passamos nossas próprias compras pelo caixa automático. Nos condomínios, uma voz eletrônica anuncia que a entrada foi autorizada.
Tudo funciona.
E, justamente por funcionar tão bem, quase não precisamos mais uns dos outros.
O curioso é que nunca tivemos tantos meios para conversar e, ainda assim, talvez nunca tenhamos nos sentido tão distantes.
Recebemos mensagens antes de acordar, participamos de grupos que jamais silenciamos e sabemos o que pessoas desconhecidas comeram no jantar. Temos centenas de contatos, milhares de seguidores e uma quantidade impressionante de gente capaz de visualizar nossas histórias sem conhecer nossa história.
Conversamos o dia inteiro sem necessariamente encontrar alguém.
Outro dia, vi um senhor tentando cumprimentar as pessoas em um ponto de ônibus.
“Bom dia.”
A primeira pessoa fingiu não ouvir. A segunda verificou os bolsos. A terceira se afastou discretamente. Quando ele falou comigo, respondi.
O homem sorriu.
“Até que enfim encontrei alguém que ainda está por aqui.”
A frase me acompanhou durante o restante do dia.
Estar por aqui não significa apenas ocupar um lugar. Significa comparecer. Perceber a senhora com dificuldade para subir o degrau, o entregador molhado pela chuva, o atendente que já ouviu reclamações demais e a pessoa silenciosa ao nosso lado.
O bom-dia não resolve a solidão urbana, não diminui o trânsito nem melhora o salário. Mas ele diz uma coisa importante:
“Eu vi você.”
Sem cobrança, intimidade forçada ou promessa. Apenas o reconhecimento de que há outra vida dividindo conosco aquele pedaço de manhã.
Talvez tenhamos parado de cumprimentar não por falta de educação, mas por excesso de defesa. Construímos muros, instalamos câmeras, colocamos fones de ouvido e aprendemos a caminhar olhando para baixo. Tudo para evitar riscos, interrupções e desconfortos.
O problema é que uma cidade onde ninguém incomoda ninguém também pode se tornar uma cidade onde ninguém ampara ninguém.
Na manhã seguinte, encontrei novamente a mulher do elevador.
Ela estava com o celular nas mãos. Entrei, apertei o térreo e permaneci em silêncio.
Antes que a porta se fechasse, ela guardou o aparelho.
“Bom dia”, disse.
Respondi.
Não nos apresentamos. Não trocamos telefones. Não iniciamos uma amizade. Quando chegamos ao térreo, cada um seguiu para um lado.
Mas, durante alguns andares, o prédio deixou de ser apenas uma pilha de apartamentos.
E voltou a ser um lugar onde havia gente.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

