Meio Ambiente

Você sabe qual rio passa debaixo dos seus pés em Campinas?

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Córregos ajudaram a definir o crescimento da cidade, foram canalizados ao longo de mais de um século e continuam correndo sob ruas e avenidas conhecidas pelos campineiros

Quem caminha pela Rua Barão de Jaguara, no Centro de Campinas, vê lojas, edifícios, carros, ônibus e o movimento de uma das vias mais tradicionais da cidade. O que quase ninguém vê é a água que continua correndo sob o asfalto.

A história passa pelo Córrego Tanquinho, um curso d’água ligado ao desenvolvimento de Campinas e que praticamente desapareceu da paisagem de quem circula diariamente pelo Centro. Documentos do Patrimônio Cultural do município registram que a região do atual Largo do Pará era um grande brejo irrigado pelo Tanquinho e que o leito do córrego acompanha o traçado da Rua Barão de Jaguara. As primeiras obras para canalização de suas águas começaram em 1873.

Essa Campinas subterrânea voltou a chamar atenção em junho deste ano. Um trecho da Barão de Jaguara, entre Ferreira Penteado e Conceição, precisou ser interditado para reparos depois de um afundamento no pavimento. Segundo a Prefeitura, existe sob a rua uma galeria centenária de água pluvial construída para dar vazão a um córrego. Feita basicamente de tijolos e tombada pelo patrimônio histórico, a estrutura sofre a ação permanente da água e também a pressão exercida pelo trânsito na superfície.

O episódio ajuda a revelar algo que a urbanização tornou pouco perceptível: antes das ruas, prédios e avenidas, os cursos d’água já ajudavam a determinar a ocupação daquele território.

O Tanquinho que desapareceu da paisagem

Uma ata do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) ajuda a reconstruir essa geografia. O documento registra que as águas do Tanquinho seguiam pelas atuais Rua Barão de Jaguara e Avenida Anchieta, desaguando na altura da Avenida Orosimbo Maia. O córrego permanece canalizado sob o Largo do Pará.

O próprio nome do lugar guarda essa memória. Em meados do século XIX, o atual Largo do Pará era conhecido como Praça do Tanquinho. A história do espaço está diretamente relacionada ao abastecimento de água de Campinas e às intervenções realizadas posteriormente naquela região.

Campinas em 1900 — Planta histórica permite observar a configuração urbana da cidade no início do século XX, período em que intervenções de saneamento e canalização já transformavam sua relação com os cursos d’água. Crédito: Domínio público / Acervo Museu Paulista (USP).

A canalização ocorreu num período em que os córregos passaram a ser vistos também como obstáculos à expansão urbana e problemas sanitários. O levantamento histórico apresentado ao Condepacc relaciona essas intervenções às epidemias de febre amarela que atingiram Campinas entre 1889 e 1896, quando projetos de saneamento incluíram drenagem de áreas alagadas e canalização de cursos d’água.

Com o avanço da urbanização, parte da rede hídrica continuou existindo, mas deixou de fazer parte da paisagem cotidiana.

O córrego que acompanha a Orosimbo Maia

Nem toda essa água desapareceu sob as ruas. Quem circula pela Avenida Orosimbo Maia conhece o canal que acompanha a via, embora nem todos saibam que ali corre o Córrego Serafim.

O curso d’água atravessa o eixo entre o Centro e o Cambuí e permanece integrado à drenagem urbana. Em 2025, a Prefeitura realizou obras de recuperação de sua calha e de contenção das margens para combater erosões e melhorar o fluxo da água. O município informa que mais de 45 córregos recebem serviços de manutenção e limpeza.

A relação entre o Serafim e a cidade também mudou ao longo do tempo. Hoje, parte do córrego está canalizada e parte corre a céu aberto ao longo da Orosimbo Maia. A própria Sanasa já realizou intervenções para impedir que esgoto doméstico da região central chegasse ao curso d’água, demonstrando que o canal continua exercendo uma função concreta na drenagem da área central.

Proença também ajudou a desenhar Campinas

Outro curso fundamental para entender a cidade é o Córrego Proença, associado ao eixo da Avenida Princesa D’Oeste. O diagnóstico municipal de drenagem registra que ele nasce na região dos jardins Itatiaia e Santa Edwiges e atravessa uma extensa área urbanizada, passando por bairros como São Fernando, Proença, Jardim Guarani, Nova Campinas, Cambuí e Jardim das Paineiras até encontrar o córrego da Orosimbo Maia.

O encontro desses sistemas integra a bacia do Ribeirão Anhumas, responsável pela drenagem de boa parte da região central. Isso ajuda a entender por que alguns dos grandes eixos viários de Campinas acompanham fundos de vale: a forma atual da cidade não surgiu independentemente de sua hidrografia.

À medida que Campinas cresceu, áreas próximas aos cursos d’água foram incorporadas à malha urbana. Córregos foram retificados ou canalizados, várzeas receberam avenidas e a superfície tornou-se progressivamente mais impermeável. O resultado é uma cidade em que parte de sua geografia hídrica permanece visível e outra parte só aparece em mapas, documentos históricos ou quando alguma intervenção urbana expõe as estruturas subterrâneas.

Ilustração editorial conceitual mostra a relação histórica entre Campinas e seus cursos d’água, com destaque para os córregos Tanquinho, Serafim e Proença. Os traçados são representativos e não possuem precisão cartográfica. Ilustração gerada por inteligência artificial, inspirada na cartografia histórica de Campinas.

A água continua procurando seu caminho

Canalizar um córrego não significa fazer a água desaparecer. A chuva continua chegando à mesma bacia hidrográfica e precisa encontrar caminhos para escoar entre telhados, ruas, estacionamentos e terrenos cada vez mais urbanizados.

É por isso que conhecer os antigos cursos d’água ajuda também a compreender a Campinas atual. O traçado de algumas avenidas, os canais que ainda vemos e as galerias escondidas sob o Centro fazem parte de uma mesma relação entre urbanização e água.

O Tanquinho é talvez o exemplo mais surpreendente justamente porque se tornou praticamente invisível. O nome desapareceu da rotina de grande parte da população, enquanto seu antigo percurso permanece incorporado à cidade construída sobre ele.

Da próxima vez que alguém atravessar o Largo do Pará ou caminhar pela Barão de Jaguara, talvez olhe para aquele pedaço do Centro de outra maneira. Debaixo do asfalto existe uma Campinas que a cidade moderna deixou de enxergar.

  • Nota da redação — A imagem desta reportagem foi gerada por inteligência artificial como representação conceitual e não retrata um local ou estrutura específicos de Campinas.