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O fim da escala 6×1 não é trabalhar menos. É viver melhor.

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Um trabalhador não deveria precisar entregar seis dos sete dias da própria semana para ter direito a um salário

Parece uma afirmação simples. Mas o fato de o Brasil ainda discutir se milhões de trabalhadores podem ter dois dias de descanso por semana mostra como naturalizamos uma relação em que disponibilidade é confundida com dedicação e cansaço quase se transforma em prova de caráter. Durante décadas, trabalhar muito significou, para muita gente, trabalhar por mais tempo, por mais dias, aceitar o sábado, o domingo e estar disponível sempre que necessário. Só que uma sociedade não deveria medir o valor de uma pessoa pela parcela da vida que ela consegue entregar ao trabalho.

O debate sobre o fim da escala 6×1 chegou a um momento decisivo. Nesta quarta-feira, 2 de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado tem como primeiro item de sua pauta a PEC 221/2019, que reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial. A proposta foi aprovada pela Câmara em dois turnos — no segundo, por 461 votos a 19 — e chega à CCJ com parecer favorável do relator, senador Omar Aziz.

É uma mudança importante, mas também uma oportunidade para discutir algo maior do que números, escalas e planilhas: a quem pertence o tempo do trabalhador?

A resposta deveria ser óbvia. O tempo que não integra sua jornada pertence a ele. Não cabe ao empregador, ao Estado, ao sindicato ou a qualquer outra pessoa exigir que o trabalhador demonstre que fará alguma coisa considerada útil com essas horas. Pode descansar, estudar, ficar com os filhos, procurar outra renda ou simplesmente não fazer nada. Se quiser trabalhar mais, que trabalhe. Direito ao descanso não é obrigação de descansar. O que precisa mudar é a ideia de que organizar seis dias de toda semana em torno do emprego deva ser condição ordinária para receber um salário.

Trabalhadora em estabelecimento observa movimento da cidade pela vitrine
O debate sobre a escala 6×1 também coloca em discussão quanto do tempo semanal permanece disponível para o próprio trabalhador.

Essa distinção é fundamental porque parte da resistência ao fim da 6×1 apresenta a redução da jornada quase como uma proibição ao trabalho. Não é. Uma coisa é o trabalhador ter tempo disponível e decidir utilizá-lo para obter renda adicional. Outra é depender de uma vaga cuja regra determina que seis dias de sua semana estarão organizados em torno daquele emprego. Trabalhar mais por escolha e trabalhar mais por necessidade não são a mesma coisa. Defender mais tempo disponível não significa decidir pelo trabalhador o que ele fará com esse tempo. Significa devolver a ele essa decisão.

A liberdade que existe no papel

Um dos argumentos mais repetidos nesse debate diz que patrão e empregado deveriam ter liberdade para negociar jornada e condições de trabalho. Parece razoável até que se observe quem está sentado de cada lado da mesa. O empregador pode procurar outro candidato. O trabalhador que precisa do salário para pagar aluguel, alimentação, transporte e contas também pode, em tese, procurar outro emprego. Formalmente, ambos podem dizer não. Na vida real, porém, qual deles normalmente pode esperar mais tempo?

A liberdade de negociar depende também das condições que cada lado tem para dizer não.

Relações de trabalho não acontecem entre partes com igual poder econômico. Reconhecer isso não significa transformar empresário em inimigo nem trabalhador em incapaz de tomar decisões. Significa reconhecer por que sociedades criaram salário mínimo, férias, descanso semanal, limites de jornada e normas de segurança. Se a liberdade individual de negociação fosse suficiente para produzir equilíbrio, boa parte da legislação trabalhista jamais teria sido necessária.

Liberdade para negociar só existe plenamente quando também existe liberdade real para dizer não.

Direitos trabalhistas estabelecem um piso a partir do qual as partes podem negociar. O trabalhador pode querer produzir mais, ganhar mais, empreender ou exercer outra atividade. O que não se pode chamar de negociação entre iguais é uma relação na qual uma das partes possui condições muito maiores de impor as regras e depois apresentar à outra a liberdade de aceitá-las ou procurar outra fonte de sobrevivência.

Quando o trabalhador defende o fim da escala 6×1 ou prefere mantê-la

Há trabalhadores que defendem a escala 6×1. Alguns temem perder renda, horas extras ou o próprio emprego. Outros acreditam que empresas contratarão menos, aumentarão preços ou reduzirão suas operações. Há também quem associe trabalhar mais dias a esforço, mérito e responsabilidade. Não cabe desqualificar essas pessoas. Cabe perguntar de onde vêm os argumentos que passaram a tratar a conquista de mais tempo livre como uma ameaça ao próprio trabalhador.

Interesses empresariais são legítimos. Empresas precisam ser economicamente sustentáveis, gerar receita, controlar custos e obter lucro. Mas interesses empresariais não são automaticamente interesses universais. Quando o argumento de que reduzir a jornada necessariamente destruirá empregos, quebrará empresas ou prejudicará o próprio trabalhador começa a ser repetido como uma verdade evidente, inclusive por quem vive do salário, é legítimo perguntar se estamos diante de uma conclusão demonstrada ou de uma narrativa que se tornou familiar de tanto ser repetida.

Talvez uma das maiores vitórias da cultura da disponibilidade permanente seja justamente esta: convencer quem vende seu tempo para viver de que reivindicar uma parcela maior desse tempo significa trabalhar menos — e que trabalhar menos significa valer menos.

Não significa.

O trabalhador que prefere trabalhar seis dias tem o direito de defender sua escolha. Se tiver mais tempo disponível e quiser utilizá-lo para obter renda, também deve poder fazê-lo. Mas uma preferência individual não precisa determinar a jornada ordinária de milhões de pessoas. Direito ao descanso não é obrigação de descansar. É direito de escolher.

Empresa pode funcionar sete dias. O trabalhador não precisa trabalhar seis.

Empresas precisam funcionar aos sábados, domingos e feriados. Algumas precisam operar 24 horas por dia. Hospitais, hotéis, supermercados, restaurantes, indústrias, transportes e serviços essenciais continuarão funcionando com jornadas diferentes. Confundir o fim da escala 6×1 com o fim do funcionamento aos finais de semana é misturar questões distintas. Uma empresa pode funcionar sete dias sem exigir que cada trabalhador esteja nela durante seis. Para isso existem equipes, escalas e turnos.

Uma economia moderna deveria buscar produtividade em organização, tecnologia, qualificação, gestão e inovação, e não apenas na quantidade de tempo humano colocada à disposição da produção. O trabalhador não é um equipamento cuja eficiência possa ser medida simplesmente pelo número de horas ou dias em que permanece disponível.

Há algo ainda mais elementar: nem sequer precisamos demonstrar que um trabalhador com mais tempo livre será necessariamente mais produtivo para justificar seu direito ao próprio tempo. Produtividade é uma questão econômica relevante e deve fazer parte da discussão, mas não pode ser a única medida. Se todo direito precisar provar primeiro que aumenta o resultado da empresa para ser reconhecido, continuaremos avaliando a vida humana exclusivamente pelo que ela consegue produzir.

Há uma conta para as empresas. E outra que quase nunca aparece.

O fim da 6×1 terá consequências econômicas. Empresas precisarão reorganizar escalas, alguns setores enfrentarão dificuldades maiores e determinados negócios poderão ter aumento de custos. Micros e pequenas empresas merecem atenção especial. Negar esses impactos seria substituir análise por propaganda. Uma mudança dessa dimensão exige regras claras, segurança jurídica e prazo suficiente para adaptação.

Empresas calculam custos porque precisam fazê-lo. Salários, energia, aluguel, impostos, logística e mão de obra entram na conta. O problema começa quando um custo é tratado como se não existisse: o tempo de quem trabalha.

Durante décadas, essa conta foi fechada transferindo parte dela ao trabalhador. Seis dias da semana organizados em torno do emprego também têm preço. A diferença é que esse preço não aparece no balanço da empresa. É pago por outra pessoa e em outra moeda.

É pago em tempo.

E tempo não volta.

O texto aprovado pela Câmara prevê uma transição. Dois meses depois da promulgação, passariam a valer dois dias de repouso e jornada máxima de 42 horas; somente depois seria alcançado o limite definitivo de 40 horas semanais.

É justamente nesse ponto que podemos ser mais ambiciosos. Dar às empresas um prazo razoável para reorganizar equipes, contratos e escalas é sensato. Criar uma jornada intermediária não nos parece necessário. Se o destino considerado adequado é uma semana de 40 horas, estabeleça-se um período realista de adaptação e, encerrado esse prazo, que as 40 horas passem a valer.

Dê-se tempo para a adaptação.

Mas, quando a mudança entrar em vigor, que entre por inteiro.

A dificuldade de determinados setores precisa ser administrada, não ignorada. Particularidades podem exigir soluções específicas e negociação coletiva. Mas dificuldade de adaptação não pode se transformar automaticamente em justificativa para preservar indefinidamente um modelo apenas porque estamos acostumados a ele.

Fim da escala 6×1: O que está sendo decidido é tempo de vida

Reduzir essa discussão a “quem quer trabalhar” contra “quem não quer trabalhar” talvez seja a maneira mais pobre de enfrentá-la. O debate não é sobre abolir o esforço, diminuir a importância do trabalho ou construir uma sociedade em que ninguém queira produzir. É sobre estabelecer um limite mais equilibrado entre aquilo que entregamos ao trabalho e aquilo que preservamos para decidir por nós mesmos.

Uma sociedade não deveria se orgulhar de quanto consegue extrair de seus trabalhadores. Deveria se perguntar quanto consegue produzir sem retirar deles a possibilidade de viver para além do trabalho. Se avançamos tecnologicamente, aumentamos produtividade e encontramos formas mais eficientes de organizar a economia, mas continuamos exigindo que milhões de pessoas organizem seis dias de cada semana em torno do emprego, alguma parte desse progresso não chegou a quem ajudou a construí-lo.

A Câmara já tomou sua decisão. Agora o debate está no Senado. A proposta ainda pode mudar: há 24 emendas apresentadas na CCJ e parte delas ainda aguarda manifestação do relator. Há impactos econômicos a calcular, particularidades setoriais a resolver e regras jurídicas a aperfeiçoar. Que tudo isso seja discutido com seriedade.

Mas que nenhuma planilha faça desaparecer a pessoa que está no centro dessa discussão.

O trabalhador não é apenas custo, mão de obra ou “recurso humano”. É alguém entregando horas da própria vida. E horas, depois que passam, nenhum salário, empresa ou governo consegue devolver.

Quando chegar a hora do voto, os senadores estarão decidindo mais do que uma jornada de trabalho. Estarão decidindo quanto da vida de milhões de brasileiros ainda consideramos razoável entregar ao trabalho.

Seis dias de trabalho para um único dia de vida não são equilíbrio.

Trabalho é parte da vida. Não pode ser dono dela.

O Brasil pode — e deve — superar a escala 6×1.