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No Dia Mundial da Fotografia, Campinas revisita legado de Hercule Florence

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Experimentos realizados na cidade em 1833 colocaram o inventor entre os pioneiros mundiais da fotografia; festival que leva seu nome chega à 16ª edição relacionando memória, território e crise climática

Neste 19 de agosto, Dia Mundial da Fotografia, Campinas tem uma relação particular com a história da imagem. Foi na então Vila de São Carlos, atual Campinas, que Hercule Florence realizou, em 1833, experiências para produzir e fixar imagens pela ação da luz. Os trabalhos ocorreram seis anos antes da apresentação pública do daguerreótipo na França, em 1839.

Quase dois séculos depois, essa trajetória está novamente em evidência na cidade. Campinas recebe até domingo (23) a 16ª edição do Festival Hercule Florence de Fotografia. Com o tema “Territórios em Transformação: da Expedição Langsdorff à crise climática”, o evento reúne atividades em diferentes pontos da cidade e utiliza a fotografia para aproximar o legado do século XIX de questões contemporâneas.

As experiências de 1833

Antoine Hercule Romuald Florence nasceu em Nice, na França, em 1804, e chegou ao Brasil em 1824. No ano seguinte, integrou como desenhista a Expedição Langsdorff, que percorreu o interior do país até 1829 e produziu um amplo levantamento geográfico, etnográfico e visual. Após a expedição, Florence estabeleceu-se na Vila de São Carlos, atual Campinas, onde desenvolveu diferentes pesquisas e invenções.

Foi nesse período que começou a pesquisar maneiras de obter imagens por meio da ação da luz. Com a colaboração do farmacêutico Joaquim Corrêa de Mello, realizou experiências com câmera escura e materiais fotossensíveis. Em seus registros de janeiro de 1833, Florence descreveu testes com papel sensibilizado com nitrato de prata e a obtenção da imagem de uma janela após horas de exposição à luz.

O reconhecimento da importância dessas experiências ganhou força muito tempo depois. O fotógrafo, historiador e pesquisador Boris Kossoy investigou os manuscritos de Florence e publicou seus estudos sobre o episódio, definido como a “descoberta isolada da fotografia no Brasil”. As pesquisas ajudaram a recolocar o trabalho desenvolvido em Campinas na história internacional da fotografia.

Outro aspecto reforça o pioneirismo. Florence registrou em seus diários científicos a palavra francesa Photographie em 1834. O registro antecede o emprego do termo inglês photography por John Herschel, na Inglaterra, em 1839.

Afinal, Florence inventou a fotografia?

A resposta exige cuidado. A fotografia não surgiu de uma única experiência nem do trabalho de apenas um pesquisador. Nas primeiras décadas do século XIX, diferentes inventores procuravam processos capazes de registrar e preservar imagens produzidas pela luz.

Na Europa, Joseph Nicéphore Niépce e Louis Daguerre, na França, e William Henry Fox Talbot, na Inglaterra, desenvolveram suas próprias pesquisas. Florence trabalhou no Brasil de forma independente e distante dos principais centros científicos europeus. Quando o processo de Daguerre foi apresentado publicamente na França, em 1839, as experiências realizadas em Campinas já tinham vários anos.

O trabalho de Florence, no entanto, não alcançou naquele momento a mesma circulação internacional das experiências europeias. Seu lugar na história está justamente no desenvolvimento independente de um processo fotográfico em uma época em que pesquisadores de diferentes países tentavam solucionar problemas semelhantes. O IMS considera sua descoberta de 1833 um marco na história mundial da fotografia.

A produção de Florence foi além da imagem fotográfica. Ele criou a poligrafia, método próprio de impressão, e desenvolveu a zoofonia, sistema de notação para registrar sons de animais. Também atuou como desenhista, pintor, naturalista e inventor. Morreu em Campinas em 27 de março de 1879.

Do território de Florence à Campinas de hoje

A 16ª edição do Festival Hercule Florence recupera esse legado sem restringir a programação ao passado. Realizado entre 5 e 23 de agosto, o evento parte também dos territórios percorridos pela Expedição Langsdorff para discutir as transformações ocorridas nesses lugares ao longo de quase dois séculos.

Mudanças ambientais, rios e florestas, povos originários e crescimento urbano estão entre os eixos desta edição. A fotografia também deixa os espaços tradicionais de exposição e ocupa calçadas, muros e fachadas. A programação inclui intervenções com lambe-lambes no Centro, na Estação Cultura, em Sousas e Joaquim Egídio, além de projeções em fachadas do centro histórico.

A Câmara Municipal de Campinas também integra a programação do Festival. Na terça-feira (18), véspera do Dia Mundial da Fotografia, o Legislativo realizou uma reunião solene para a concessão do Diploma de Mérito Fotográfico, dentro das atividades da 16ª edição.

O Festival segue até domingo (23), estabelecendo uma ponte entre os registros produzidos durante a Expedição Langsdorff, as experiências realizadas por Florence e o uso contemporâneo da fotografia para documentar as transformações do território.

Em 2033, as experiências fotográficas realizadas por Hercule Florence em Campinas completarão 200 anos. A proximidade do bicentenário amplia a atenção sobre uma história que durante muito tempo permaneceu distante das narrativas mais conhecidas sobre o desenvolvimento da fotografia.

Neste 19 de agosto, essa trajetória ganha significado especial para Campinas. Enquanto o Dia Mundial da Fotografia remete à projeção alcançada pela nova tecnologia na Europa no século XIX, a cidade preserva os registros de um inventor que, em 1833, já realizava aqui experiências próprias para produzir imagens pela ação da luz.

SERVIÇO

16º Festival Hercule Florence de Fotografia
Quando: até domingo, 23 de agosto
Onde: diferentes espaços de Campinas

Destaques da programação:

19/8 (quarta-feira) — Exposição Langsdorff 200 em Campinas, às 10h, na Biblioteca de Obras Raras (BORA) da Unicamp; e abertura de O Que os Olhos Não Veem, de Alexa Brunet, às 19h, no MIS Campinas.

20/8 (quinta-feira) — Encontro do Núcleo de Fotografia de Campinas (NuFCa) com o fotógrafo cubano Yasmany Oramas, na Galeria Foto Ponto.

21/8 (sexta-feira) — Palestra sobre fotografia contemporânea, híbrida e expandida, às 10h, e leituras de portfólio, das 14h às 17h, no Senac Campinas.

22/8 (sábado) — Expedição gratuita Caminhos de Hercule Florence em Campinas, das 9h às 12h; 2ª Feira de Autores de Fotografia, das 11h às 20h, na Galeria Foto Ponto; e oficina de construção de câmera pinhole no Sesc Campinas.