Do Palestra Italia ao Palmeiras: 112 anos de uma história marcada pela imigração italiana
Fundado em 1914 em meio à comunidade italiana de São Paulo, clube atravessou a Segunda Guerra, conquistou em 1951 a primeira competição de clubes em nível mundial e chega aos 112 anos recuperando suas raízes em uma camisa azul que também celebra os 20 anos do tetracampeonato mundial da Itália
O Palmeiras completa 112 anos nesta quarta-feira, 26 de agosto, recuperando símbolos de uma história iniciada quando ainda se chamava Palestra Italia. A terceira camisa lançada para a temporada de 2026 é azul, traz novamente a Cruz de Savoia utilizada pelo clube há 110 anos e celebra também as duas décadas da conquista da Copa do Mundo de 2006 pela seleção italiana, o quarto e mais recente título mundial da Azzurra.
Batizada de “Somos Palestra Italia”, a campanha desenvolvida pelo Palmeiras e pela Puma estabelece uma ligação direta entre o clube atual e a agremiação criada em 1914 por imigrantes e descendentes de italianos. A escolha vai além de uma referência estética: reúne elementos de uma trajetória marcada pela imigração, pela mudança de nome durante a Segunda Guerra Mundial e por símbolos que permaneceram incorporados à identidade palmeirense ao longo de mais de um século.
Um clube nascido da imigração
O Palestra Italia surgiu em uma São Paulo profundamente transformada pela chegada de imigrantes. Em 1914, a passagem pelo Brasil de equipes italianas, entre elas Torino e Pro Vercelli, estimulou integrantes da colônia a discutir a criação de uma entidade esportiva que pudesse representá-la. O jornalista Vincenzo Ragognetti utilizou as páginas do Fanfulla, jornal dirigido à comunidade italiana, para divulgar a proposta.
Em 26 de agosto daquele ano, 46 pessoas participaram da reunião que resultou na fundação do Palestra Italia. O grupo não era composto exclusivamente por italianos, mas a nova instituição nasceu diretamente vinculada à numerosa comunidade estabelecida em São Paulo e carregava essa origem no nome, nas cores e nos primeiros símbolos.
O próprio nome escolhido já expressava a vocação esportiva da entidade. Em italiano, palestra significa academia ou ginásio, espaço destinado à prática de exercícios físicos. A palavra tinha, portanto, um sentido diretamente relacionado à atividade que reunia aqueles fundadores.
A escolha ocorreu também em um período no qual a identidade nacional italiana ainda era relativamente recente. A unificação política do país havia sido concluída poucas décadas antes, e muitos dos imigrantes que chegavam ao Brasil mantinham vínculos fortes com suas regiões de origem. Vênetos, calabreses, sicilianos, napolitanos, lombardos e piemonteses carregavam costumes e tradições distintos. Instituições como o Palestra ajudavam a criar espaços de convivência em torno de uma identidade italiana comum.
A Cruz de Savoia e o azul
Uma das referências mais antigas a essa origem apareceu em 1916. Para a disputa do Campeonato Paulista, o Palestra utilizou em seu uniforme a Cruz de Savoia, emblema ligado à Casa Real Italiana. O clube tinha apenas dois anos de existência, e aquele desenho acabaria deixando uma marca que atravessaria diferentes versões de sua identidade visual.
A Casa de Savoia teve papel central no processo de unificação da Itália e permaneceu no trono até 1946. O azul associado à dinastia também se consolidou como cor da representação esportiva do país, origem do azzurro que identifica as seleções italianas mesmo sem estar presente na bandeira nacional.
É essa memória que reaparece em 2026. Segundo o Palmeiras, a terceira camisa foi desenvolvida em azul para exaltar as raízes italianas do clube e marcar os 20 anos da Copa do Mundo conquistada pela Itália em 2006. O uniforme recupera a Cruz de Savoia e apresenta referências como “Avanti Palestra 2026/1914”. A campanha foi produzida em São Paulo e também em Milão, Bergamo e Gressoney-Saint-Jean, no Vale de Aosta.
O uniforme reúne, portanto, referências separadas por diferentes períodos. A Cruz de Savoia remete ao Palestra de 1916; o azul acompanha a tradição esportiva italiana; e 2006 recorda a seleção que conquistou na Alemanha seu quarto título mundial. Em 2026, quando o uso daquele símbolo pelo clube completa 110 anos e a última conquista mundial italiana chega às duas décadas, essas memórias voltam a ocupar a mesma camisa.
Quando a guerra tirou “Italia” do nome
A ligação com a Itália, que havia ajudado a construir a identidade do clube, tornou-se um problema durante a Segunda Guerra Mundial. Com o Brasil rompendo relações com os países do Eixo — Alemanha, Itália e Japão —, o governo de Getúlio Vargas adotou medidas que atingiram instituições brasileiras identificadas com essas nações.
Em março de 1942, o Palestra Italia deixou de utilizar “Italia” e passou a se chamar Palestra de São Paulo. A alteração não encerrou as pressões e, em setembro daquele mesmo ano, a diretoria aprovou uma segunda mudança. Nascia oficialmente a Sociedade Esportiva Palmeiras.
O novo nome preservava elementos importantes da identidade anterior. Mantinha a inicial “P”, conservava o verde e recuperava a denominação da antiga Associação Atlética das Palmeiras, clube paulistano já extinto que tivera importância nos primeiros anos do Palestra Italia no futebol oficial.
Seis dias depois da mudança, o Palmeiras entrou em campo contra o São Paulo em uma partida que poderia decidir o Campeonato Paulista. Os jogadores já representavam a nova denominação e carregaram a bandeira brasileira na entrada no gramado do Pacaembu. A vitória por 3 a 1 garantiu o campeonato no mesmo jogo em que a nova identidade estreava. O episódio passaria à história como Arrancada Heroica.
O Palestra Italia deixava oficialmente de existir como nome. Parte de sua identidade, porém, continuava no Palmeiras que surgia.
1951: o Palmeiras no topo do futebol mundial
Nove anos depois da mudança de nome, o Palmeiras protagonizou outro capítulo decisivo de sua história. Em 1951, o Brasil recebeu a Copa Rio, primeira competição de clubes em nível mundial, reunindo oito equipes de sete países em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Participaram Palmeiras e Vasco da Gama, do Brasil; Juventus, da Itália; Nacional, do Uruguai; Sporting, de Portugal; Austria Viena, da Áustria; Estrela Vermelha, da então Iugoslávia; e Nice, da França. O torneio colocou frente a frente algumas das principais forças do futebol europeu e sul-americano daquele período.
O Palmeiras chegou à decisão e encontrou justamente a Juventus, de Turim. Depois de vencer a primeira partida da final por 1 a 0, empatou o segundo confronto por 2 a 2, em 22 de julho de 1951, diante de um Maracanã lotado, e conquistou a competição.
A final acrescentou uma coincidência histórica à trajetória iniciada em 1914. Trinta e sete anos depois da fundação do Palestra Italia e apenas nove anos depois de o clube ter sido obrigado a retirar a referência à Itália de seu nome, o Palmeiras conquistava a primeira competição de clubes em nível mundial diante de uma das maiores instituições do futebol italiano.
A conquista ganhou uma representação permanente na simbologia palmeirense. A estrela vermelha utilizada acima do escudo representa a Copa Rio de 1951. Ela apareceu no uniforme pela primeira vez em 1989 e retornou de forma permanente em 2017. Na bandeira oficial, sua presença acima do brasão também está prevista no Estatuto Social do clube.
De Palestra às Academias
Décadas depois, a palavra “academia” voltaria a aparecer na história palmeirense, desta vez com outro significado. Não há relação direta entre a tradução italiana de palestra e a denominação que seria dada aos grandes esquadrões do clube, mas a coincidência atravessa curiosamente períodos diferentes de sua trajetória.
A Primeira Academia, formada principalmente nos anos 1960, e a Segunda Academia, que marcou o início da década seguinte, receberam o apelido pela qualidade técnica e pela maneira de jogar. Foram equipes que consolidaram o Palmeiras entre as principais forças do futebol brasileiro em uma época marcada também pelo Santos de Pelé.
Mais recentemente, o período de títulos iniciado na segunda metade da década passada passou a ser chamado de Terceira Academia, denominação que aproxima uma das fases mais vitoriosas do Palmeiras contemporâneo daqueles grandes times do passado.
A expressão ganhou, portanto, um significado próprio dentro da cultura palmeirense. Se em italiano palestra designa academia ou ginásio, no futebol brasileiro “Academia” tornou-se sinônimo de alguns dos melhores times construídos pelo clube.
A imigração italiana também transformou a região de Campinas
O movimento migratório que criou as condições sociais para o nascimento do Palestra Italia não se limitou à capital. A expansão do café levou milhares de estrangeiros ao interior paulista a partir do final do século XIX, e Campinas esteve entre os centros que receberam contingentes expressivos de italianos.
Essa presença alcançou também localidades que posteriormente se tornariam municípios independentes. Em Valinhos, então pertencente a Campinas, famílias italianas trabalharam inicialmente nas lavouras de café e participaram depois da diversificação agrícola. Entre os personagens associados a esse processo está Lino Busatto, imigrante ligado à introdução do figo roxo, cultura que se tornaria uma das marcas econômicas e culturais da cidade.
A relação regional não está em atribuir a Campinas ou Valinhos participação na fundação do Palestra Italia, mas em reconhecer que o clube nasceu dentro do mesmo fenômeno migratório que transformou profundamente o interior paulista. A presença italiana deixou marcas na economia, nos sobrenomes, na culinária, nas associações, nas festas e em tradições que atravessaram gerações.
Um escudo que conta uma história
Parte significativa dessa trajetória pode ser encontrada no próprio símbolo que o Palmeiras utiliza hoje. O brasão não preserva apenas o “P” que atravessou Palestra e Palmeiras. Diferentes elementos remetem a momentos específicos da história do clube.
No círculo central permanece o contorno da Cruz de Savoia, referência às origens italianas. As oito estrelas brancas representam agosto, mês da fundação, enquanto as 26 linhas remetem ao dia 26. Acima do escudo, a estrela vermelha representa a conquista da Copa Rio de 1951, primeira competição de clubes em nível mundial.
O símbolo funciona, assim, como uma síntese visual de diferentes períodos: a imigração italiana que deu origem ao Palestra, a data de fundação, a continuidade preservada na transformação em Palmeiras e a conquista mundial de 1951.
A camisa azul de 2026 acrescenta uma nova leitura a esses elementos. Recupera a Cruz de Savoia, utiliza a cor associada historicamente à representação esportiva italiana, remete a 1914 e celebra os 20 anos do tetracampeonato mundial da Azzurra.
O Palmeiras que completa 112 anos já não é o clube comunitário criado em São Paulo em 1914. Tornou-se uma instituição de alcance nacional, acumulou títulos e construiu uma identidade própria ao longo de mais de um século.
Essa transformação, porém, não exigiu o apagamento de sua origem. O nome Palestra Italia desapareceu em 1942, mas partes daquela história permaneceram incorporadas ao Palmeiras.
Em 2026, elas estão novamente visíveis no azul e na Cruz de Savoia estampados no peito.

