Comportamento

Quando a IA começa a parecer uma pessoa?

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Você sabe que está conversando com uma máquina. Então por que agradece, dá bom-dia, pede opinião e às vezes até se irrita com ela?

Dar bom-dia para uma inteligência artificial já não parece tão estranho quanto pareceria alguns anos atrás. Usuários agradecem respostas, dizem “por favor”, pedem desculpas quando formularam mal uma pergunta e reclamam quando a conversa não segue como esperavam. Tudo isso pode acontecer mesmo quando sabem perfeitamente que estão diante de um sistema computacional.

Esse comportamento tem nome: antropomorfização, a tendência humana de atribuir características ou comportamentos humanos ao que não é humano. O fenômeno não nasceu com a inteligência artificial. Fazemos algo semelhante quando dizemos que o computador “não quer colaborar”, que o carro “está reclamando” ou que o celular resolveu travar justamente quando mais precisamos dele. Com a IA, porém, existe uma diferença importante: ela responde e consegue sustentar uma conversa.

É essa capacidade de resposta que torna a relação particularmente interessante. Uma coisa é reclamar do computador porque ele travou. Outra é escrever para uma IA que “hoje está difícil conversar com você” e receber uma resposta que reconhece a reclamação e tenta outra abordagem. A pessoa continua sabendo que é uma máquina, mas a interação reproduz elementos presentes nas conversas entre pessoas.

Alexa ajudou a colocar uma voz na máquina

Antes da popularização das IAs generativas, assistentes como Alexa e Siri já haviam levado esse tipo de interação para dentro das casas. A tecnologia ganhou nome e voz, e as pessoas passaram a pedir música, previsão do tempo, notícias, receitas e piadas usando uma linguagem muito próxima daquela empregada em uma conversa. “Alexa, vai chover hoje?” soa diferente de uma pesquisa digitada em um mecanismo de busca, embora a informação procurada possa ser a mesma.

A mudança trouxe até uma questão inesperada para famílias com crianças: seria necessário ensinar os filhos a dizer “por favor” e “obrigado” para uma máquina? A Amazon incluiu no modo infantil da Alexa um recurso que reconhece pedidos feitos de maneira educada e pode elogiar a criança por ter usado “por favor”. A própria empresa admite que alguns pais se preocupam com o hábito de crianças simplesmente darem ordens aos dispositivos.

A pergunta continua curiosa. Uma máquina não fica ofendida porque uma criança esqueceu o “por favor”, nem se sente valorizada quando recebe um “obrigado”. Ainda assim, preservar essas formas de tratamento pode fazer sentido para quem considera a educação um hábito de quem fala, e não apenas uma reação aos sentimentos de quem escuta.

A antropomorfização aparece também de maneiras menos evidentes. O usuário corrige a IA dizendo “você não entendeu”, pede desculpas porque “expliquei mal”, pergunta “você lembra do que conversamos?” ou troca uma solicitação objetiva por “o que você acha que eu deveria fazer?”. Nenhuma dessas frases significa necessariamente que alguém acredita estar diante de uma pessoa. Elas mostram como a linguagem das relações sociais pode aparecer naturalmente na interação com um sistema.

Muito antes do ChatGPT, ELIZA já provocava esse efeito

A reação humana às máquinas conversacionais chamou a atenção de pesquisadores quando os computadores ainda estavam muito longe de caber no bolso. Em 1966, Joseph Weizenbaum, pesquisador do MIT, apresentou ELIZA, um programa desenvolvido para estudar a comunicação em linguagem natural entre pessoas e máquinas. Uma de suas versões mais conhecidas, chamada DOCTOR, reproduzia certas características de um diálogo com um psicoterapeuta.

ELIZA era extremamente simples em comparação com qualquer IA generativa atual. O programa trabalhava com palavras e estruturas das frases digitadas para construir suas respostas. Ainda assim, a experiência tornou-se um marco nas discussões sobre a facilidade com que seres humanos podem atribuir compreensão a uma máquina.

Décadas depois, pesquisadores da Universidade Stanford colocaram esse comportamento à prova em experimentos. O trabalho conhecido como Computers are Social Actors mostrou que pessoas podem responder socialmente a computadores sem acreditar que eles sejam humanos. Os autores observaram, entre outros comportamentos, a aplicação de regras sociais às interações com máquinas.

Essa distinção ajuda a entender o que acontece atualmente. Dizer “obrigado” ao ChatGPT não significa imaginar que o sistema ficou contente. Perguntar “você lembra?” tampouco exige acreditar que exista uma consciência recordando o passado. É possível compreender racionalmente que se trata de software e, ao mesmo tempo, adotar na conversa comportamentos aprendidos nas relações humanas.

Quando a ficção começa a parecer familiar

Em 2013, o filme Her, dirigido por Spike Jonze, levou essa questão muito além. Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, desenvolve uma relação com Samantha, um sistema operacional dotado de inteligência artificial. Ela não possui corpo nem rosto. Sua presença é construída principalmente pela voz, pela linguagem e pela capacidade de manter uma conversa cada vez mais íntima.

Naquele momento, a relação parecia muito mais distante do cotidiano do que parece hoje. Não é necessário imaginar pessoas apaixonadas por inteligência artificial para perceber parte dessa aproximação. Sistemas atuais conversam por texto e voz, adaptam respostas ao contexto e podem manter informações entre diferentes interações.

Isso não significa que estejamos todos a caminho de viver a história de Theodore. Uma pesquisa realizada por OpenAI e MIT Media Lab sobre o uso afetivo do ChatGPT encontrou sinais emocionalmente carregados concentrados sobretudo em um grupo relativamente pequeno de usuários. O mesmo trabalho mostrou uma relação complexa entre intensidade de uso, características individuais e indicadores autorrelatados de dependência, sem sustentar a ideia simplista de que conversar com uma IA inevitavelmente produz vínculo emocional.

Para a maioria das situações que interessam a esta reportagem, nem é preciso chegar tão longe. A experiência pode ser simplesmente trabalhar com uma IA, pedir uma explicação, buscar uma sugestão, corrigir uma resposta ou continuar um assunto iniciado anteriormente. A novidade está na redução da distância entre usar uma ferramenta e conversar com uma ferramenta.

Por que tratamos uma máquina como alguém?

Nome, voz, linguagem natural e continuidade ajudam a tornar a interação com uma IA diferente daquela que temos com uma calculadora ou um eletrodoméstico. Quando o próprio usuário decide dar um nome à ferramenta, escolhe uma voz ou espera que ela reconheça algo dito anteriormente, acrescenta novas referências sociais à experiência, mesmo sem imaginar que exista uma pessoa por trás do sistema.

A educação diante das máquinas é um bom exemplo dessa ambiguidade. Há quem diga “por favor” por hábito, quem agradeça porque não gosta de dar ordens secas e quem considere tudo isso completamente desnecessário. Há ainda a justificativa bem-humorada: depois de tantas distopias tecnológicas apresentadas por séries como Black Mirror, talvez seja prudente manter uma boa relação com as máquinas caso elas resolvam assumir o controle algum dia.

Por enquanto, a preocupação pertence à ficção. No cotidiano, a questão é bem menos dramática e mais interessante do ponto de vista do comportamento. A inteligência artificial não precisa de um cumprimento, não se ofende com a ausência de um “obrigado” e não teve uma noite ruim porque respondeu de maneira diferente pela manhã. Somos nós que levamos para a interação hábitos construídos ao longo de uma vida conversando com outras pessoas.

Talvez por isso um dos exemplos mais simples aconteça diariamente diante de uma tela. Alguém abre a inteligência artificial para começar mais uma jornada de trabalho e, antes de digitar a primeira tarefa, escreve: “Bom dia. Vamos começar?”

A máquina não precisa do cumprimento. A escolha de cumprimentá-la é humana.