A dieta do chocolate
CRÔNICAS METROPOLITANAS – Por Alvin Wolf
Houve um tempo em que uma barra de chocolate tinha 200 gramas. Era uma barra de respeito. Dava para comer um pedaço, guardar outro na geladeira e, no dia seguinte, ainda encontrar alguma coisa para adoçar a vida.
Lembro-me bem daquelas barras. Tinham uma espessura respeitável e exigiam certa determinação para quebrar um quadradinho. A gente prometia comer só um pedaço. Depois, mais um. Quando percebia, já estava negociando com a própria consciência.
Mas o chocolate começou a emagrecer.
Foi perdendo alguns gramas aqui, outros ali. Passou pelos 180, atravessou outras medidas e, quando fui olhar, encontrei barras de 80 gramas. Algumas, de 70.
O curioso é que a embalagem continuou parecida. De frente, reconheci o velho conhecido. Foi de perfil que levei um susto.
O sujeito tomou Mounjaro. Só pode.
O preço, ao contrário, parecia muito bem alimentado.
Levei o chocolate mesmo assim. Há relações antigas que a gente não abandona por causa de uma mudança na aparência. Mas, na visita seguinte ao supermercado, resolvi prestar mais atenção.
Na prateleira das bolachas, encontrei outra velha conhecida: a wafer. Também havia perdido peso. Lembrei-me daqueles pacotes que pareciam durar uma eternidade, embora, pensando bem, talvez fosse apenas a eternidade de uma tarde de infância.
Peguei uma embalagem, examinei o peso e devolvi à prateleira. Comecei a desconfiar de que não era só o chocolate que andava fazendo regime.
E fui encontrando outros casos pelos corredores.
O supermercado continuava o mesmo. As embalagens coloridas, as ofertas anunciadas em letras enormes, a música que ninguém escolheu ouvir. Tudo parecia em ordem. Mas bastava olhar com um pouco mais de atenção para descobrir que certos produtos já não traziam a quantidade de antes.
Curioso como a gente reconhece uma embalagem de longe. Basta uma combinação de cores, um desenho, o formato de uma caixa. A mão vai sozinha até a prateleira. É quase um cumprimento entre velhos conhecidos.
Raramente perguntamos se continuam sendo os mesmos.
Foi então que descobri que aquilo tinha nome: reduflação.
Uma palavra esquisita. Parece nome de doença. Daquelas que a gente ouve no consultório e prefere não perguntar quanto tempo vai durar.
Os fabricantes têm suas explicações. Falam do aumento dos custos, das matérias-primas, da necessidade de manter os preços acessíveis. Imagino que tenham suas contas para fazer. Eu também tenho as minhas, embora sejam consideravelmente mais modestas.
A diferença é que, quando meu dinheiro diminui, ninguém me oferece uma carteira nova para disfarçar.
Continuei andando.
Parei diante de uma promoção. O cartaz anunciava uma oportunidade imperdível. Peguei o produto, procurei o peso, fiz uma conta de cabeça e fiquei com aquela sensação desagradável de quem encontra uma pegadinha numa prova de matemática.
Devolvi a embalagem.
Nunca fui ao supermercado em busca de grandes emoções. Minha intenção era comprar algumas coisas para casa, não participar de uma competição de raciocínio lógico.
Mas ali estava eu, examinando letras pequenas, comparando quantidades e tentando descobrir quanto custava, de fato, aquilo que pretendia levar.
Lembrei-me de uma época em que a lista de compras cabia num pedaço de papel. Arroz, feijão, café, bolacha, chocolate. A gente conhecia os produtos, sabia mais ou menos quanto custavam e voltava para casa com a impressão de ter cumprido uma tarefa simples.
Talvez minha memória esteja sendo generosa com o passado. As compras nunca foram tão tranquilas assim, especialmente para quem precisava fazer o dinheiro chegar ao fim do mês.
Ainda assim, havia algo de familiar naquelas embalagens. Uma confiança construída pela repetição. O mesmo produto, no mesmo lugar, esperando por nós.
Agora, de vez em quando, encontro um velho conhecido e descubro que ele perdeu alguns gramas sem me avisar.
O curioso é que a gente acaba se habituando. Na primeira vez, estranha. Na segunda, confere o rótulo. Depois de algum tempo, já não se lembra direito do tamanho anterior.
E a embalagem menor passa a ser a embalagem de sempre.
Na saída, voltei à prateleira dos chocolates. Havia barras de vários tamanhos, sabores e preços. Algumas prometiam mais cremosidade. Outras anunciavam receitas especiais. Todas exibiam fotografias generosas, daquelas em que um único quadradinho parece capaz de resolver uma tarde inteira.
Escolhi uma e coloquei no carrinho.
Em casa, abri a embalagem e quebrei um quadradinho. Depois, outro. Quando pensei em guardar o restante para o dia seguinte, descobri que já não havia muito o que guardar.
Fiquei com o papel vazio na mão.
A vontade de comer chocolate continuava com 200 gramas.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

