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Você sabe realmente o que está escolhendo?

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Escolher uma profissão exige mais do que conhecer o nome de um curso. Exige conhecer a vida que existe depois dele.

Por Valdecir Saraiva

Durante muito tempo, tratamos a escolha profissional quase como uma pergunta simples: o que você quer ser quando crescer?

A pergunta atravessa a infância, reaparece na adolescência e, de repente, deixa de ser uma brincadeira. Aos 16 ou 17 anos, aquele jovem precisa dar uma resposta.

Medicina. Direito. Engenharia. Psicologia. Jornalismo. Tecnologia. Arquitetura.

Escolhe-se um curso, presta-se o vestibular e começa uma nova etapa.

Mas há uma pergunta que tenho feito cada vez mais:

Quanto um jovem realmente conhece da profissão que está escolhendo?

Não estou falando do curso. Estou falando da profissão.

Porque são coisas diferentes.

É possível conhecer a grade curricular de uma faculdade, assistir a vídeos sobre determinada carreira, pesquisar salários, conversar com os pais e ainda assim saber muito pouco sobre o que aquele profissional faz numa terça-feira qualquer.

E talvez seja justamente aí que esteja uma parte importante do problema.

Profissões também têm uma imagem pública. Algumas carregam prestígio. Outras são associadas a bons salários. Há aquelas que parecem criativas, modernas, independentes ou capazes de proporcionar rapidamente uma vida de sucesso.

Só que profissão não é imagem.

É rotina.

É ambiente de trabalho, responsabilidade, pressão, relacionamento com pessoas, frustrações, horários, decisões, aprendizado permanente e, claro, satisfação também.

Há dias bons e ruins.

Como em qualquer escolha da vida.

Por isso me chama a atenção a facilidade com que cobramos dos jovens uma decisão tão importante sem lhes oferecer, muitas vezes, a oportunidade de conhecer aquilo que estão decidindo.

Quantos estudantes que pensam em Medicina já acompanharam a rotina de um médico?

Quantos que querem ser engenheiros estiveram dentro de uma empresa para conversar com quem exerce a profissão?

Quantos futuros jornalistas conhecem uma redação, uma equipe de televisão ou a rotina de quem trabalha na rua?

E eu poderia continuar com dezenas de profissões.

Não se trata de desencorajar ninguém. Muito pelo contrário.

Um sonho que não suporta conhecer a realidade talvez precisasse mesmo ser revisto. Mas aquele que continua fazendo sentido depois desse encontro se torna uma escolha muito mais consistente.

Há uma frase que muitos estudantes pronunciam depois de algum tempo na universidade:

“Não era isso que eu imaginava.”

Precisamos prestar atenção nela.

Quando alguém abandona um curso, costumamos olhar para o momento da desistência. Perguntamos por que não continuou, por que perdeu o interesse, por que não persistiu.

Tenho pensado que deveríamos olhar também para trás.

Para o momento da escolha.

Talvez algumas desistências não comecem dentro da universidade. Talvez comecem antes, quando um jovem escolhe uma profissão que conhece muito pouco.

Isso muda a maneira de encarar a orientação profissional.

Não basta perguntar do que o estudante gosta ou em quais matérias consegue as melhores notas. Isso é importante, mas é apenas uma parte.

Precisamos criar oportunidades para que ele conheça pessoas, ambientes e realidades profissionais.

Entrar em uma empresa.

Conhecer uma universidade.

Conversar com quem está começando e também com quem exerce determinada profissão há vinte anos.

Perguntar sobre salário, sim. Mas perguntar também sobre rotina, dificuldades, mudanças no mercado, oportunidades e frustrações.

Perguntar aquilo que raramente aparece nas campanhas de vestibular:

Se você pudesse voltar aos 17 anos, escolheria essa profissão novamente? Por quê?

Imagine a riqueza dessa conversa para alguém que ainda está decidindo.

Tenho defendido que orientação profissional precisa sair um pouco do papel e entrar no mundo real. O jovem precisa ter a oportunidade de ver, ouvir, perguntar e experimentar antes de decidir.

Foi também dessa inquietação que nasceu o VemSer.

Não como uma proposta para dizer aos jovens o que devem ser. Não acredito que esse seja o nosso papel.

A escolha precisa continuar pertencendo a eles.

Nosso papel é outro: dar condições para que escolham melhor.

Se conseguirmos aproximar escola, universidade, profissionais e mundo do trabalho antes da decisão, talvez não eliminemos escolhas equivocadas. Isso seria uma promessa impossível.

Mas certamente poderemos diminuir escolhas feitas quase no escuro.

E quando penso em combater a evasão universitária, é aí que começo.

Não apenas perguntando por que tantos jovens desistem.

Mas fazendo uma pergunta anterior:

Eles tiveram oportunidade de conhecer verdadeiramente aquilo que escolheram?

Talvez uma parte da resposta esteja aí.


Valdecir Saraiva é idealizador do Projeto VemSer, iniciativa voltada à orientação vocacional e profissional e à aproximação entre estudantes, educação e mundo do trabalho.

Projeto VemSer
Escolhas hoje. Propósitos sempre.