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Você entregaria o Brasil a este homem?

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ANÁLISE

Ofensas transformadas em espetáculo, preconceito vendido como sinceridade e autoritarismo apresentado como promessa de ordem. Esta é a história de como se fabrica um presidente

Durante quase três décadas, ele ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Trocou repetidamente de partido, teve uma atuação parlamentar discreta e encontrou nos programas de televisão uma vitrine muito mais eficiente do que o Congresso.

Diante das câmeras, descobriu que o escândalo produzia audiência. Quanto maior a ofensa, maior a repercussão. Quanto mais absurda a declaração, mais convites apareciam.

Disse a uma deputada que ela não merecia ser estuprada. Declarou que seria incapaz de amar um filho homossexual. Tratou quilombolas como se fossem animais pesados em arrobas. Defendeu a ditadura que prendeu, matou e torturou brasileiros.

No plenário da Câmara, homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar reconhecido pela Justiça como responsável por torturas durante o regime militar. Entre as vítimas do DOI-Codi comandado por Ustra estava Dilma Rousseff, contra cujo governo ele anunciava naquele momento o voto pelo impeachment.

Nada disso encerrou sua carreira política.

A crueldade foi chamada de sinceridade. A vulgaridade virou linguagem popular. O preconceito foi apresentado como defesa da família. O despreparo tornou-se simplicidade. A agressividade passou por coragem. O autoritarismo recebeu o nome de ordem.

Ele não precisou esconder completamente aquilo que era. Bastou ensinar milhões de pessoas a enxergá-lo de outra maneira.

Em 28 de outubro de 2018, recebeu 57.797.847 votos, equivalentes a 55,13% dos votos válidos, e foi escolhido para governar o Brasil.

Seu nome era Jair Messias Bolsonaro. Para compreender como Jair Bolsonaro chegou à Presidência, é preciso reconstruir a trajetória que transformou um deputado do baixo clero num fenômeno político nacional.

Um personagem à espera do momento certo

Bolsonaro não surgiu repentinamente na eleição de 2018. Sua candidatura foi construída durante anos, muitas vezes diante de uma televisão mais interessada no espetáculo produzido por suas declarações do que nas consequências do que ele dizia.

O deputado que tinha pouca influência no Congresso tornou-se uma figura conhecida pelo confronto. Em programas de auditório, debates e entrevistas, suas opiniões eram tratadas como provocação, curiosidade ou entretenimento.

Ele oferecia audiência. Os programas ofereciam visibilidade.

A repetição produziu familiaridade. Para parte do público, aquele homem deixou de parecer perigoso e passou a parecer apenas folclórico. Suas falas eram relativizadas por uma frase que se tornaria decisiva:

“Pelo menos ele é autêntico.”

Foi assim que ocorreu uma das maiores inversões de significado da política brasileira. Não se negavam necessariamente as ofensas. Mudava-se a interpretação delas.

O que para uns era misoginia, para outros se transformava em reação ao “politicamente correto”. O que parecia racismo era apresentado como piada mal compreendida. A homofobia virava defesa dos valores tradicionais. A admiração pela ditadura era vendida como saudade de segurança e autoridade.

A construção de Bolsonaro começou muito antes de existir uma campanha presidencial formal. Começou quando parte da sociedade se acostumou a rir daquilo que deveria causar indignação.

O país que procurava um culpado

Nenhum personagem político chega à Presidência apenas por suas características pessoais. É preciso que uma parte da sociedade esteja preparada para recebê-lo.

Em 2018, o Brasil ainda sofria os efeitos de uma recessão profunda, desemprego elevado, crise de segurança pública, descrédito dos partidos, indignação com casos de corrupção e uma sensação generalizada de que as instituições não funcionavam.

A Operação Lava Jato ocupava diariamente o noticiário. O impeachment de Dilma Rousseff havia aprofundado divisões. Michel Temer governava com baixa popularidade. O sistema político parecia incapaz de apresentar uma saída convincente.

Lula liderava as pesquisas, mas estava preso e foi impedido de concorrer. Fernando Haddad assumiu a candidatura do PT a poucas semanas do primeiro turno e carregou simultaneamente a força eleitoral e a rejeição acumulada pelo partido.

Bolsonaro encontrou o ambiente perfeito.

Ele não apresentou explicações complexas para problemas complexos. Ofereceu culpados.

A corrupção tinha um nome: PT. A crise econômica tinha um nome: PT. A violência, a perda de valores, o suposto comunismo nas escolas e até transformações culturais que atravessavam diferentes países foram colocados na conta de Lula e de seu partido.

Lula deixou de ser apenas um adversário político. Tornou-se a personificação de tudo o que uma parcela do Brasil temia ou rejeitava.

Quando todos os problemas são atribuídos a um único inimigo, o candidato que promete derrotá-lo passa a ser visto como salvador.

A fabricação do presidenciável

Em um vídeo que voltou a circular recentemente, o ex-deputado federal Julian Lemos, coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste em 2018, afirma que o presidenciável foi “criado” por uma estrutura política.

O relato deve ser recebido com interesse e cautela. Lemos participou daquela engrenagem, mas rompeu com Bolsonaro e hoje é um crítico da família. Sua versão não é uma verdade autossuficiente, mas ajuda a iluminar os bastidores de uma construção política conhecida.

Bolsonaro não foi inventado do nada. Ele já tinha audiência, seguidores e notoriedade. O que seus articuladores fizeram foi transformar esse capital de atenção numa candidatura competitiva.

Gustavo Bebianno trabalhou na viabilização partidária. Paulo Marinho abriu sua casa ao núcleo da campanha. Paulo Guedes ofereceu a credencial econômica necessária para aproximar o candidato de empresários e do mercado. Julian Lemos articulou sua presença no Nordeste. Lideranças religiosas, militares da reserva, influenciadores e grupos conservadores ampliaram sua mensagem.

A campanha reuniu públicos que não eram necessariamente iguais.

Havia liberais interessados em privatizações e redução do Estado; conservadores preocupados com costumes; militares atraídos pela promessa de ordem; evangélicos mobilizados em defesa da família; empresários contrários ao PT; cidadãos assustados com a criminalidade; e pessoas simplesmente cansadas do sistema político.

Bolsonaro tornou-se o recipiente para insatisfações diferentes e, em alguns casos, contraditórias.

Apresentava-se como candidato antissistema depois de 28 anos no Congresso. Dizia representar o novo apesar de pertencer à política desde 1988. Falava em combate à corrupção enquanto dependia das estruturas partidárias tradicionais necessárias para chegar ao poder e governar.

As contradições estavam à vista, mas a força do inimigo comum as mantinha unidas.

Quando o candidato virou escolhido de Deus

A candidatura também encontrou nos púlpitos algo que nenhuma agência de publicidade conseguiria comprar facilmente: autoridade moral.

Lideranças evangélicas influentes, entre elas Silas Malafaia e Edir Macedo, apresentaram Bolsonaro como defensor da família, dos cristãos e da liberdade religiosa. Igrejas, cultos, redes de pastores e grupos de mensagens ajudaram a levar sua candidatura a milhões de pessoas que confiavam na palavra de seus líderes espirituais.

Bolsonaro não precisava demonstrar uma trajetória marcada pelos ensinamentos cristãos. Seu comportamento público, suas ofensas e sua defesa da violência deixaram de ser os critérios principais.

Bastava apresentar-se como barreira contra inimigos descritos como ainda mais perigosos: o comunismo, o PT, o aborto, a chamada “ideologia de gênero” e uma suposta perseguição aos cristãos.

A eleição deixou de ser apenas uma escolha política. Para parte dos fiéis, tornou-se uma batalha espiritual.

De um lado estaria o candidato escolhido para proteger o Brasil. Do outro, forças que ameaçariam a família, a religião e as crianças. Quando uma eleição é apresentada como confronto entre Deus e o mal, questionar o candidato pode parecer questionar a própria fé.

Bolsonaro compreendeu a força dessa linguagem. Adotou o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, foi batizado nas águas do rio Jordão pelo pastor Everaldo e incorporou referências bíblicas ao discurso.

O atentado de Juiz de Fora ampliou essa interpretação. Sobreviver à facada passou a ser apresentado por apoiadores como prova de que Deus havia preservado sua vida para uma missão maior.

O político tornou-se sobrevivente. O sobrevivente, escolhido. O escolhido, mito.

Nesse processo, algumas lideranças religiosas ultrapassaram a orientação eleitoral e aproximaram a fidelidade a Bolsonaro da fidelidade à própria religião. O púlpito, que deveria ser espaço de anúncio do Evangelho, tornou-se em determinados casos um palanque. A discordância política passou a ser tratada como desvio moral ou espiritual.

A contradição era profunda.

O cristianismo tem no centro a compaixão, o acolhimento, o cuidado com os vulneráveis e o amor ao próximo. Bolsonaro construiu sua notoriedade por meio da humilhação de adversários, do desprezo às minorias e da exaltação da força. Ainda assim, foi apresentado como representante dos valores cristãos.

Isso não aconteceu em todas as igrejas. Pastores, teólogos e comunidades evangélicas resistiram à utilização eleitoral da fé e denunciaram a incompatibilidade entre o Evangelho e o culto a um líder político. O eleitorado evangélico jamais foi completamente uniforme.

Mas o apoio de grandes lideranças teve peso importante. Pesquisas acadêmicas mostram que a adesão evangélica ao bolsonarismo combinou conservadorismo moral, antipetismo, ressentimento social e a sensação de que valores religiosos estavam ameaçados. Estudo publicado na SciELO

O que estava em jogo não era apenas a recomendação de um voto. Era a construção de uma narrativa de salvação.

Bolsonaro passou a ocupar, no imaginário de parte de seus seguidores, um espaço que nenhuma democracia deveria reservar a um governante: o de homem providencial, enviado para resgatar a nação e autorizado a enfrentar o mal em nome de Deus.

Quando um político assume essa posição, seus erros podem ser perdoados, suas contradições relativizadas e suas derrotas interpretadas como perseguição.

A crítica deixa de atingir apenas o candidato. Parece atingir a própria crença.

Talvez essa tenha sido uma das maiores vitórias da construção do mito: um homem conhecido por dividir foi apresentado como salvador e, em alguns púlpitos, a defesa do político tornou-se mais audível do que a mensagem de Cristo.

A campanha que cabia na tela do celular

As redes sociais foram fundamentais para essa transformação. Elas permitiram que Bolsonaro falasse diretamente com os seguidores, sem o filtro de jornalistas, entrevistadores ou adversários.

A precariedade visual dos vídeos ajudava. Gravações simples, transmissões improvisadas e mensagens sem acabamento profissional reforçavam a impressão de espontaneidade. O candidato parecia falar de sua própria casa diretamente para cada eleitor.

Por trás daquela aparência artesanal existia uma comunicação extremamente eficiente.

As mensagens eram curtas, emocionais e facilmente compartilháveis. Falavam de medo, indignação, religião, segurança, corrupção e ameaça comunista. Não exigiam que o eleitor lesse um programa de governo. Exigiam apenas que escolhesse um lado.

O WhatsApp levou essa narrativa para dentro das famílias, igrejas, grupos de amigos e ambientes de trabalho. Uma mensagem encaminhada por alguém conhecido parecia mais confiável do que uma reportagem publicada por um veículo distante.

Estudo publicado pela revista acadêmica Dados identificou associação entre o uso de redes sociais, aplicativos de mensagens e o voto em Bolsonaro, embora nenhum aplicativo, isoladamente, seja capaz de explicar o resultado daquela eleição. Pesquisa disponível na SciELO

O algoritmo também fazia sua parte. Ao perceber que uma pessoa reagia a conteúdos favoráveis a Bolsonaro, as plataformas ofereciam mais conteúdos semelhantes.

Cada curtida estreitava um pouco mais o campo de visão.

A pessoa não precisava procurar uma realidade paralela. A realidade paralela passava a chegar diariamente ao seu telefone.

Para ser a verdade, era preciso desacreditar todas as outras fontes

A imprensa representava um obstáculo porque fazia perguntas, confrontava declarações e verificava informações. Por isso, não bastava responder às reportagens. Era necessário retirar antecipadamente a credibilidade de quem as produzia.

Se uma notícia favorecia Bolsonaro, era compartilhada. Se o contrariava, virava “fake news”. Se um jornalista investigava, estava perseguindo. Se apresentava documentos, participava do sistema.

O ataque constante produziu um resultado duradouro: parte do público passou a rejeitar informações antes mesmo de conhecê-las.

A Federação Nacional dos Jornalistas contabilizou 570 ataques de Bolsonaro contra veículos e profissionais de imprensa entre 2019 e 2022, média de 142,5 por ano. O comportamento presidencial também ajudou a legitimar hostilidades praticadas por seus seguidores. Relatório da Fenaj

Esse processo não começou no governo. Já estava presente na campanha.

Para que Bolsonaro fosse aceito como fonte privilegiada da verdade, imprensa, universidades, pesquisadores, artistas e adversários precisavam ser apresentados como membros de uma grande conspiração.

Restava apenas o líder.

O atentado que alterou a eleição

Em 6 de setembro de 2018, Bolsonaro foi esfaqueado durante um ato de campanha em Juiz de Fora.

O atentado foi real, grave e condenável. Também mudou profundamente a dinâmica eleitoral.

Hospitalizado, Bolsonaro deixou de participar de debates e entrevistas nos quais seria confrontado sobre seu programa, suas contradições e seu preparo para governar. Ao mesmo tempo, passou a ocupar diariamente o centro do noticiário.

A imagem do candidato ferido fortaleceu a narrativa do homem escolhido para enfrentar o sistema. Para seguidores que já interpretavam a política como batalha entre o bem e o mal, o atentado ganhou significado quase religioso.

Bolsonaro tornou-se vítima, sobrevivente e símbolo.

A campanha já vinha crescendo, mas o episódio ampliou sua exposição e reduziu as oportunidades de confronto público. Seu discurso continuou circulando pelas redes, agora protegido pela impossibilidade médica de comparecer aos debates.

O Brasil elegeu alguém que já havia se mostrado

É tentador acreditar que Bolsonaro se revelou apenas depois de chegar ao poder.

Não foi assim.

Os sinais estavam presentes antes de 2018: o desprezo pelas minorias, a admiração por torturadores, a hostilidade à imprensa, a exaltação da violência, a incapacidade de conviver com o contraditório e a nostalgia da ditadura.

O que aconteceu posteriormente confirmou características que já haviam sido expostas.

No governo, ministros que contrariavam o presidente foram afastados ou deixaram os cargos. A presença de militares em funções civis mais que dobrou. Jornalistas continuaram sendo atacados. Instituições eleitorais foram desacreditadas. Adversários passaram a ser tratados como inimigos da pátria.

Mas foi na pandemia que o personagem enfrentou seu maior teste moral.

Quando o país precisava de humanidade

Enquanto famílias se despediam por uma tela de celular, profissionais de saúde trabalhavam até a exaustão e pacientes morriam sem a presença dos parentes, o presidente minimizava a doença.

Filhos deixavam os pais na porta do hospital sem saber que aquele seria o último abraço. Enfermeiros seguravam a mão de desconhecidos para que ninguém morresse completamente sozinho. Em Manaus, pessoas procuravam desesperadamente cilindros enquanto pacientes sufocavam por falta de oxigênio.

Naquele momento, o Brasil não precisava apenas de um homem que parecesse forte. Precisava de um presidente humano.

Bolsonaro chamou a Covid-19 de “gripezinha”, respondeu “e daí?” ao ser questionado sobre o crescimento das mortes e chegou a imitar pessoas com falta de ar.

O governo demorou a responder a ofertas de vacinas. Representantes da Pfizer confirmaram à CPI da Pandemia que propostas apresentadas em 2020 não receberam resposta no prazo esperado. Bolsonaro lançou dúvidas sobre os imunizantes e transformou a CoronaVac numa disputa política. Senado Federal

Também promoveu a cloroquina como parte do chamado “tratamento precoce”, embora estudos clínicos não tenham demonstrado benefício contra a Covid-19.

A cloroquina possui indicações médicas legítimas para algumas doenças, mas não se mostrou eficaz contra o coronavírus. Mesmo assim, deixou de ser apenas um medicamento e se tornou declaração de fidelidade política.

Defendê-la significava confiar no presidente. Questioná-la passou a ser entendido como adesão à esquerda, à imprensa ou às indústrias farmacêuticas.

Quando os estudos não confirmaram sua eficácia, muitos não abandonaram a crença. Preferiram desacreditar os estudos.

O Brasil já não discutia apenas se um remédio funcionava. Discutia se a palavra de um líder valia mais do que a evidência científica.

O homem que não aceitava perder

Em 2022, Bolsonaro tentou a reeleição e foi derrotado por Lula. Antes mesmo da votação, havia passado meses lançando suspeitas sem provas sobre as urnas eletrônicas.

Ele não participou da cerimônia de posse do sucessor. Em 30 de dezembro de 2022, viajou para os Estados Unidos, enquanto apoiadores permaneciam acampados diante de quartéis pedindo uma intervenção militar.

Muitos eram idosos. Algumas pessoas passaram semanas sob chuva e sol convencidas de que participavam de uma missão patriótica. Esperavam uma mensagem, uma ordem ou um acontecimento que impedisse Lula de tomar posse.

Bolsonaro partiu.

Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília. A condenação posterior de Bolsonaro não se limitou àquela invasão. O Supremo Tribunal Federal o considerou líder de uma organização que atuou para impedir a posse do governo eleito e mantê-lo no poder.

Em setembro de 2025, ele foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes relacionados à trama golpista. Supremo Tribunal Federal

Ainda assim, continuou sendo tratado como inocente e mártir por milhões de brasileiros.

Por que tanta gente ainda acredita?

Porque, para uma parcela de seus seguidores, Bolsonaro deixou de ser apenas um político. Tornou-se identidade.

Reconhecer que ele mentiu, desprezou vítimas, atacou a democracia e abandonou apoiadores significaria admitir algo doloroso:

“Eu confiei na pessoa errada.”

Para quem vestiu a camisa, brigou com parentes, rompeu amizades, permaneceu diante de quartéis ou defendeu diariamente o presidente, a revisão tem um custo emocional elevado.

É mais confortável acreditar que toda a imprensa mente, que a Justiça persegue, que as provas foram fabricadas e que antigos aliados são traidores.

A crença torna-se um sistema fechado.

Se Bolsonaro vence, o povo falou. Se perde, houve fraude. Se é absolvido, era inocente. Se é condenado, a Justiça está dominada. Se aliados o defendem, são patriotas. Se revelam os bastidores, são traidores.

Nenhum fato consegue atravessar facilmente uma crença construída para transformar toda contestação numa nova prova de perseguição.

É também por isso que famílias brigam. A divergência deixou de ser apenas sobre economia, segurança ou tamanho do Estado. Tornou-se julgamento sobre caráter, religião, patriotismo e pertencimento.

Criticar Bolsonaro passou a soar, para alguns, como uma ofensa pessoal.

Este artigo não pede que você ame Lula

Talvez você tenha votado em Bolsonaro porque estava preocupado com a violência, indignado com a corrupção, decepcionado com o PT ou convencido de que o Brasil precisava mudar.

Essas preocupações eram legítimas.

Este artigo não foi escrito para exigir que alguém ame Lula, vote no PT ou abandone convicções conservadoras. A democracia não exige unanimidade. Permite criticar governos, defender a direita e propor caminhos diferentes para o país.

Mas nenhuma dessas escolhas exige transformar Jair Bolsonaro em herói, inocente ou mártir.

Rever uma decisão diante dos fatos não é fraqueza. É maturidade.

Talvez o gesto mais corajoso não seja permanecer ao lado de um líder apesar de tudo. Talvez seja admitir que aquilo que pareceu autenticidade era crueldade; que aquilo que foi vendido como força era desprezo; e que aquilo que se apresentava como patriotismo esteve disposto a sacrificar a democracia para conservar o poder.

Jair Bolsonaro foi viabilizado por articuladores políticos, empresários, comunicadores, lideranças religiosas, militares, circunstâncias históricas e redes digitais.

Mas nenhum estrategista criou sozinho os medos e ressentimentos que permitiram sua ascensão. A campanha identificou sentimentos que já existiam e encontrou uma maneira eficiente de transformá-los em votos.

Talvez, portanto, a pergunta não seja apenas como um homem assim conseguiu chegar à Presidência.

A pergunta mais difícil é outra:

Por que, naquele momento, milhões de brasileiros estavam dispostos a chamar de virtudes justamente os sinais que deveriam ter servido de alerta?