Quando o brasileiro diz “sou de direita” ou “sou de esquerda”, o que ele está realmente dizendo?
Entre economia, costumes, Lula, Bolsonaro e rejeição ao adversário, pesquisas mostram um eleitor mais complexo do que os dois rótulos sugerem
“Você é de esquerda ou de direita?”
A pergunta parece simples. Tornou-se comum em conversas, redes sociais, campanhas eleitorais e discussões familiares. Há quem responda imediatamente. Outros rejeitam os dois lados.
Mas existe uma pergunta anterior: quando alguém responde “sou de direita” ou “sou de esquerda”, o que exatamente está querendo dizer?
Pode estar falando sobre o tamanho do Estado, impostos, religião, segurança pública, desigualdade, armas ou direitos trabalhistas. Pode estar falando sobre Lula ou Bolsonaro. E pode estar dizendo, sobretudo, de que lado não quer ficar.
Durante muito tempo, estudos sobre o eleitor brasileiro encontraram dificuldades tanto na identificação com esquerda e direita quanto na correspondência entre o rótulo escolhido e as posições defendidas.
Esse quadro mudou.
Dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) mostram que menos de 60% dos entrevistados se posicionavam ideologicamente em 2014. Em 2022, mais de 80% passaram a fazê-lo. Estudo publicado em 2026, com base nos levantamentos de 2014, 2018 e 2022, encontrou também maior diferenciação entre as opiniões de eleitores de esquerda e de direita.
Portanto, a explicação de que o brasileiro simplesmente fala em esquerda e direita sem saber o que essas palavras significam não dá conta do fenômeno.
Os rótulos ganharam força.
A questão é o que existe dentro deles.
Direita e esquerda de quê?
Em junho de 2026, o Datafolha apresentou aos entrevistados 16 questões relacionadas à economia, comportamento e valores e, a partir das respostas, construiu uma matriz ideológica.
Não se trata, portanto, de autodeclaração.
Na classificação geral, 44% ficaram na direita ou centro-direita, 39% na esquerda ou centro-esquerda e 17% no centro.
Quando os assuntos são separados, porém, aparece outro retrato.
Nas questões comportamentais, 52% foram classificados à direita e 29% à esquerda. Na economia, a relação se inverteu: 46% ficaram à esquerda e 28% à direita.
O mesmo país que aparece predominantemente à direita nos costumes aparece predominantemente à esquerda na economia.
Isso ajuda a explicar por que alguns brasileiros são difíceis de acomodar numa única caixa. Uma pessoa pode defender políticas sociais, legislação trabalhista e investimento estatal e, ao mesmo tempo, sustentar posições conservadoras em questões morais ou de segurança.
Ela é de esquerda ou de direita?
Uma única régua talvez esteja tentando medir coisas diferentes.
O brasileiro que não cabe na régua
As próprias respostas econômicas ajudam a perceber essa complexidade.
Segundo o Datafolha, 65% concordam que depender menos do governo melhora a vida. Ao mesmo tempo, 71% dizem que o governo deve ser o principal responsável pelos investimentos e pelo crescimento econômico. Outros 56% avaliam que as leis trabalhistas protegem os trabalhadores e que parte dos benefícios deveria ser ampliada.
Os percentuais não permitem afirmar que os mesmos indivíduos deram todas essas respostas. Mas mostram que as opiniões existentes na sociedade brasileira não se distribuem perfeitamente entre dois pacotes, um estatal e outro liberal.
A religião oferece outro exemplo.
Entre os evangélicos, a classificação geral apresenta maior presença da direita. Quando economia e comportamento são separados, a diferença é significativa.
No eixo comportamental, 61% são classificados à direita. Na economia, 39% ficam à esquerda e 33% à direita, diferença dentro da margem de erro desse segmento.
O resultado ajuda a mostrar por que a definição genérica de “eleitor evangélico de direita” pode esconder parte de suas posições. Conservadorismo nos costumes não implica necessariamente adesão às mesmas posições na economia.
A escolaridade também produz um resultado menos intuitivo.
Maior instrução não leva necessariamente o eleitor ao centro. O estudo baseado no ESEB indica que, em determinados temas, a escolaridade pode ampliar a diferenciação entre eleitores identificados com esquerda e direita.
Em alguns assuntos, portanto, mais informação política não reduz a distância entre os campos. Pode torná-la mais nítida.
O que é de direita hoje pode não ter sido ontem
Há outro elemento nessa história: o conteúdo dos próprios rótulos muda.
A confiança nas urnas eletrônicas é um exemplo.
A desconfiança no sistema eleitoral não foi historicamente uma característica exclusiva da direita brasileira. Com a ascensão de Jair Bolsonaro e a centralidade que o tema ganhou no debate político, a confiança no processo eleitoral passou a diferenciar de maneira muito mais clara eleitores de esquerda e de direita.
O estudo publicado em 2026 identifica movimentos semelhantes em outras questões. A disputa política não apenas separa pessoas que já pensavam de maneiras diferentes. Ela também ajuda a estabelecer quais assuntos e posições passam a representar cada lado.
Direita e esquerda, afinal, são categorias históricas. Os termos remontam à Revolução Francesa e atravessaram mais de dois séculos incorporando disputas sobre propriedade, igualdade, Estado, mercado, religião, direitos e costumes.
Por isso, conceitos que aparecem misturados no debate cotidiano não são equivalentes. Direita não é sinônimo de capitalismo, assim como esquerda não é sinônimo de comunismo. Liberalismo e conservadorismo são tradições distintas, assim como social-democracia, socialismo e comunismo não designam a mesma coisa.
É possível defender economia de mercado e políticas sociais. Também é possível ser conservador nos costumes sem defender Estado mínimo.
Os rótulos organizam a política, mas não descrevem sozinhos tudo aquilo em que uma pessoa acredita.
Lula é a esquerda? Bolsonaro é a direita?
No Brasil contemporâneo, há ainda outra camada.
Esquerda e direita convivem com identidades construídas em torno de líderes. Lulismo e bolsonarismo têm forte relação com os dois campos, mas não são equivalentes a eles.
Levantamentos da Quaest, por exemplo, segmentam o eleitorado entre lulistas, esquerda não lulista, independentes, direita não bolsonarista e bolsonaristas.
A diferença importa.
Uma pessoa pode estar à esquerda sem ser lulista. Pode estar à direita sem ser bolsonarista.
E pode votar fora do campo em que suas opiniões a colocariam.
O eleitor que atravessa a fronteira
Na pesquisa Datafolha de junho de 2026, 24% das pessoas que declararam intenção de votar em Lula foram classificadas pela matriz como direita ou centro-direita.
Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 19% foram classificados como esquerda ou centro-esquerda.
É preciso novamente separar as medidas: essas pessoas não necessariamente se declararam de direita ou esquerda. A classificação foi produzida pelo Datafolha a partir das respostas às 16 questões.
Mesmo assim, o resultado é revelador.
Há uma correspondência clara entre candidato e campo ideológico, mas ela não é absoluta.
Quando as perguntas são examinadas individualmente, aparecem outras combinações. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 34% disseram que a posse de armas deveria ser proibida. Entre os eleitores de Lula, 26% consideraram que as leis trabalhistas atrapalham mais as empresas do que protegem os trabalhadores.
O eleitor não necessariamente adere a todas as posições associadas ao candidato escolhido.
E há ainda outro motivo capaz de levá-lo à urna.
Talvez ele esteja votando contra alguém
Uma pessoa pode votar porque concorda com um candidato. Também pode votar porque rejeita o adversário.
É nesse ponto que aparece um conceito estudado pela ciência política: a polarização afetiva.
A disputa deixa de envolver apenas divergências sobre políticas públicas e passa a incluir sentimentos em relação ao campo adversário. Pesquisas sobre a polarização brasileira já identificaram a importância desse componente, especialmente em torno de candidatos e grupos políticos.
É a diferença entre:
“Voto nele porque concordo com suas ideias.”
e:
“Voto nele porque jamais votaria no outro.”
Na urna, os dois votos valem um.
Mas não significam necessariamente a mesma coisa.
Isso ajuda a entender por que intenção de voto, identificação ideológica e opiniões sobre temas específicos não coincidem perfeitamente.
O resultado eleitoral registra o candidato escolhido.
Sozinho, não explica por que ele foi escolhido.
Então, o que o brasileiro está realmente dizendo?
Quando alguém afirma “sou de direita”, o rótulo pode reunir conservadorismo, defesa do mercado, segurança pública, religião, antipetismo, bolsonarismo ou diferentes combinações dessas posições.
Quando alguém afirma “sou de esquerda”, pode estar se referindo a políticas sociais, redução da desigualdade, atuação do Estado, direitos, progressismo, petismo, lulismo, antibolsonarismo ou outras combinações.
Não significa que direita e esquerda tenham perdido o sentido. Os estudos mostram justamente que esses rótulos passaram a organizar com mais força a identidade política do brasileiro.
Mas eles não contam a história inteira.
O voto mostra em quem alguém vota.
O rótulo indica o campo com o qual se identifica.
As opiniões revelam o que pensa sobre questões concretas.
Às vezes, as três coisas caminham juntas. Às vezes, não.
Talvez, então, a pergunta mais interessante já não seja apenas:
“Você é de esquerda ou de direita?”
Mas:
quando você diz que é de esquerda ou de direita, o que isso significa para você?

