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Antes de desistir, talvez seja preciso perguntar por que você escolheu

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Mudar de caminho pode ser necessário. Mas compreender o que nos levou até uma escolha pode evitar que a próxima decisão repita o mesmo problema.

Por Valdecir Saraiva

Há uma pergunta que costuma aparecer quando alguém pensa em abandonar um curso: “Será que devo desistir?”

Talvez exista outra que precise vir antes:

Por que eu escolhi este curso?

A diferença parece pequena. Não é.

Quando um jovem entra na faculdade e, depois de alguns meses ou anos, percebe que aquele caminho não corresponde ao que imaginava, surgem sentimentos difíceis de administrar. Culpa. Medo. A impressão de estar ficando para trás. E uma frase que pesa ainda mais: “Perdi tempo”.

A família pode perguntar por que não termina o que começou. Os amigos seguem adiante. Alguns já falam em estágio, carreira, salário. E aquele jovem, que pouco tempo antes comemorava a aprovação no vestibular, começa a se perguntar se deveria permanecer apenas porque já chegou até ali.

Nesse momento, insistir pode parecer sinônimo de coragem.

Nem sempre é.

Mas seria igualmente simplista transformar a desistência em solução. Um estudante pode deixar a universidade por dificuldades financeiras, problemas familiares, necessidade de trabalhar, desempenho acadêmico, questões institucionais, adaptação ou por uma combinação de vários fatores.

A evasão no ensino superior é um fenômeno complexo. A literatura acadêmica mostra justamente essa multiplicidade de razões. Entre elas também aparecem fatores relacionados à escolha do curso e às expectativas em relação à carreira.

Isso merece atenção.

Não para responsabilizar o jovem que abandona uma graduação, mas para fazer uma pergunta anterior: quanto realmente sabemos sobre uma profissão antes de decidir segui-la?

A profissão imaginada e a profissão encontrada

Conhecer o nome de uma profissão não significa conhecê-la.

É possível admirar a Medicina sem conhecer a rotina de um médico. Gostar da ideia do Direito sem saber como é o cotidiano das diferentes carreiras jurídicas. Escolher Engenharia, Psicologia, Jornalismo ou Arquitetura carregando uma imagem construída por filmes, redes sociais, histórias familiares, prestígio ou expectativa de remuneração.

Então chega a experiência real.

As disciplinas aparecem. A rotina se revela. O ambiente profissional começa a ficar mais próximo. Aquilo que antes era uma ideia passa a ter horário, cobrança, responsabilidade, dificuldade e renúncia.

E pode surgir uma descoberta incômoda:

“Não era isso que eu imaginava.”

Há estudantes que ingressam justamente no curso que desejavam e, durante a graduação, descobrem que a área ou a formação não correspondem às expectativas que tinham quando fizeram a escolha.

Talvez esteja aí uma das perguntas mais importantes quando falamos em orientação profissional:

Como diminuir a distância entre a profissão imaginada e a profissão real?

Escolher deveria incluir conhecer

Durante muito tempo tratamos a escolha profissional quase como uma decisão tomada diante de uma lista de cursos.

Qual matéria você gosta? Qual profissão paga melhor? Em qual curso sua nota permite entrar? O que sua família espera de você?

São perguntas que podem fazer parte da decisão. Não deveriam encerrá-la.

Antes de escolher uma profissão, um jovem deveria ter oportunidades de investigá-la.

Conversar com quem exerce aquela atividade. Conhecer ambientes de trabalho. Perguntar não apenas quanto um profissional ganha, mas como é sua rotina. Descobrir as partes menos atraentes da profissão. Entender a formação necessária, as responsabilidades, as dificuldades e as diferentes possibilidades dentro da mesma área.

E talvez fazer uma pergunta muito simples:

Eu me imagino vivendo isso?

Não se trata de procurar uma profissão perfeita. Provavelmente ela não existe.

Trata-se de reduzir a distância entre a imagem que construímos de uma carreira e aquilo que ela realmente exige de quem a exerce.

É nesse espaço que o VemSer encontra uma de suas razões de existir: aproximar o estudante do mundo real das profissões para que uma decisão tão importante não seja tomada apenas no campo da imaginação.

E quando a escolha já foi feita?

Prevenir é melhor. Mas prevenção não muda uma decisão que já aconteceu.

Há jovens no segundo, terceiro ou quarto semestre percebendo que alguma coisa não se encaixa. Para eles, simplesmente dizer “não desista” pode ser tão precipitado quanto dizer “abandone”.

Antes, é preciso investigar.

O problema está no curso ou na profissão? É uma dificuldade passageira? É a instituição? A adaptação à universidade? Uma questão financeira? O estudante deixou de se identificar com a área ou apenas atravessa um período difícil?

E existe uma pergunta ainda mais delicada:

Se pudesse escolher hoje, conhecendo o que conhece agora, escolheria novamente?

A resposta não precisa determinar uma desistência. Mas merece ser ouvida.

Permanecer exclusivamente para justificar os anos já investidos não recupera esses anos. Pode apenas acrescentar outros.

Por outro lado, mudar sem compreender por que a primeira decisão não funcionou também traz um risco: levar para o próximo caminho os mesmos critérios que conduziram ao anterior.

É por isso que recomeçar não deveria significar apenas escolher outra coisa.

Deveria significar escolher de outra maneira.

Talvez esteja aí uma das lições mais importantes que podemos oferecer a quem está diante de uma profissão.

Escolher exige coragem, mas coragem não basta.

Exige informação. Exige autoconhecimento. Exige contato com a realidade.

E exige algo que muitas vezes esquecemos de oferecer aos jovens: a oportunidade de conhecer antes de decidir.

Isso não eliminará a evasão. Seria irresponsável fazer essa promessa diante de um fenômeno que tem tantas causas.

Mas talvez possamos evitar que algumas decisões importantes sejam tomadas quase às cegas.

E, quando uma escolha já tiver sido feita e precisar ser revista, que a experiência não seja tratada apenas como tempo perdido.

Ela pode deixar uma pergunta muito mais valiosa para a próxima decisão:

O que sei hoje que gostaria de ter sabido antes de escolher?

VemSer é uma coluna semanal de Valdecir Saraiva dedicada à reflexão sobre vocação, educação, profissões, mercado de trabalho e escolhas que transformam vidas.

VemSer — Escolhas hoje. Propósitos sempre