O Centro de Campinas não precisa voltar ao passado. Precisa construir o futuro
Há uma cena que se repete diariamente no Centro de Campinas. Lojas fechadas, imóveis vazios, calçadas desgastadas, fachadas degradadas e um número crescente de pessoas vivendo em situação de rua. Para muitos campineiros, a região central tornou-se um lugar de passagem, quando não de abandono.
É compreensível que a memória coletiva olhe para trás com certa nostalgia. Nas décadas de 1980 e 1990, o Centro era o coração econômico, cultural e social da cidade. As ruas fervilhavam de pessoas. Os cinemas atraíam famílias. Restaurantes tradicionais faziam parte da identidade local. Fazer compras significava ir ao Centro.
Mas a verdade é que o mundo mudou.
Os shopping centers transformaram os hábitos de consumo. O comércio eletrônico reduziu a necessidade de deslocamento. Novos polos empresariais surgiram. Bairros como Nova Campinas, Cambuí e Taquaral passaram a concentrar parte significativa da vida gastronômica e de lazer da cidade.
Diante dessa realidade, talvez a maior pergunta não seja como fazer o Centro voltar a ser o que era. A pergunta correta é: qual deve ser o papel do Centro de Campinas no século XXI?
As experiências urbanas mais bem-sucedidas do mundo oferecem uma pista importante. Paris, Barcelona e Tóquio possuem centros vibrantes não porque concentram lojas, mas porque concentram pessoas. São lugares onde se mora, trabalha, estuda, passeia, consome cultura e convive.
Nenhuma dessas cidades apostou apenas no comércio para recuperar suas áreas centrais. Apostaram em moradia, mobilidade, segurança, patrimônio histórico e qualidade dos espaços públicos.
Campinas deveria seguir caminho semelhante.
A prioridade precisa ser transformar o Centro em um bairro desejável para viver. Há centenas de imóveis subutilizados e edifícios vazios que poderiam ser convertidos em habitação. Mais moradores significam mais movimento nas ruas, maior demanda por serviços, mais segurança natural e uma economia local mais dinâmica.
O comércio viria como consequência, não como ponto de partida.
Ao mesmo tempo, é necessário devolver ao Centro sua vocação cultural. Uma cidade com mais de um milhão de habitantes não pode aceitar passivamente o desaparecimento gradual de cinemas, teatros, galerias e espaços de convivência em sua região mais simbólica. Cultura não é um luxo urbano. É um instrumento de desenvolvimento econômico e social.

A gastronomia também precisa voltar a ocupar espaço central nessa estratégia. Os grandes centros urbanos do mundo atraem visitantes porque oferecem experiências. Restaurantes, cafés, mercados gastronômicos e eventos permanentes geram circulação de pessoas muito além do horário comercial.
A mobilidade exige uma visão igualmente moderna. O Centro deve ser mais amigável para pedestres e ciclistas, mas sem transformar o acesso de automóveis em uma guerra contra quem deseja frequentar a região. Estacionamento rotativo inteligente, calçadas acessíveis, transporte coletivo eficiente e integração entre diferentes modais são soluções complementares, não concorrentes.
A ideia de reservar a Avenida Francisco Glicério para atividades culturais e lazer aos domingos merece debate. Em diversas cidades do mundo, a ocupação temporária de grandes avenidas por pedestres fortalece o vínculo da população com os espaços urbanos e estimula a economia local.
Outra medida que poderia ser estudada é a criação de um sistema de circulação gratuita dentro do Centro, utilizando veículos leves e sustentáveis. Mais importante do que reproduzir os antigos bondes seria oferecer deslocamento simples, rápido e acessível para moradores, trabalhadores e visitantes.
Nenhum projeto de requalificação, entretanto, prosperará sem segurança pública. A presença permanente da Guarda Municipal e das forças policiais é indispensável. Mas segurança não se resume a policiamento. Ruas iluminadas, imóveis ocupados, praças bem cuidadas e espaços públicos movimentados costumam ser os melhores aliados da prevenção.
Da mesma forma, a questão da população em situação de rua exige seriedade e humanidade. Não há solução baseada apenas em remoção ou deslocamento territorial. É necessário ampliar políticas de acolhimento, saúde mental, qualificação profissional e reinserção produtiva. O desafio social deve ser enfrentado como política pública, não apenas como questão de ordem urbana.
Campinas não precisa de um plano de revitalização do Centro. Precisa de um projeto de requalificação urbana capaz de adaptar a região às transformações econômicas, sociais e culturais do século XXI.
Campinas possui patrimônio histórico, localização estratégica, universidades, capacidade econômica e uma população que ainda guarda profundo afeto por seu Centro. O que falta não é potencial. Falta um projeto.
A requalificação do Centro não será obra de um mandato, nem resultado de uma única intervenção. Exigirá planejamento de longo prazo, diálogo com a sociedade e coragem política para pensar além das próximas eleições.
O Centro de Campinas não precisa competir com os shoppings. Não precisa derrotar a internet. Não precisa reviver os anos 1980.
Precisa apenas voltar a ser aquilo que toda grande cidade necessita: um lugar onde as pessoas queiram estar.

