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O elevador e a democracia

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CRÔNICAS METROPOLITANAS
Por Alvin Wolf
“Porque toda cidade esconde histórias que passam despercebidas”

Há lugares onde a democracia funciona com mais eficiência do que nas urnas. O elevador, por exemplo.

Basta apertar o botão do térreo para que empresários, aposentados, estudantes, médicos, motoboys, síndicos, estagiários e aquele vizinho que insiste em puxar assunto sobre o clima dividam, durante alguns segundos, exatamente o mesmo espaço. Não há primeira classe, camarote ou área VIP. Ali dentro, todos têm o mesmo direito de esperar a porta abrir.

É curioso como um ambiente de poucos metros quadrados consegue revelar tanto sobre uma sociedade.

Existe quem entre e cumprimente. Existe quem faça de conta que está sozinho no planeta. Há os especialistas em apertar o botão cinco vezes, como se isso acelerasse a física. Há quem espere educadamente a saída antes de entrar e há quem tente invadir o elevador antes mesmo que a porta termine de abrir, numa versão cotidiana do “cada um por si”.

O espelho, presente em quase todos eles, também merece um estudo. Oficialmente, serve para dar sensação de amplitude. Na prática, virou camarim improvisado. Gente ajeitando o cabelo, conferindo a gravata, treinando sorriso para a reunião ou simplesmente encarando a própria imagem como quem tenta descobrir onde a vida começou a dar errado.

O silêncio também é fascinante.

Quatro pessoas entram. Nenhuma se conhece. Durante vinte segundos, todos passam a estudar obsessivamente os números luminosos dos andares, como se jamais tivessem visto um painel eletrônico. Qualquer conversa parece proibida por um código invisível. Se alguém ousa dizer “bom dia”, produz quase um terremoto diplomático.

E quando o elevador lota?

Surge uma coreografia involuntária. Mochilas mudam de posição, barrigas recolhem o que podem, cotovelos negociam tratados de paz e alguém inevitavelmente pede licença para alcançar o último canto disponível, como se disputasse uma vaga na final olímpica de encaixe humano.

No Brasil, porém, existe uma modalidade exclusiva.

É o cidadão que aperta o botão para subir, entra, percebe que queria descer e resolve permanecer mesmo assim. Vai até o último andar apenas para depois iniciar a viagem correta. Um pequeno desvio que parece resumir muitas decisões nacionais: em vez de admitir o erro, seguimos viagem esperando que tudo se resolva mais adiante.

Talvez o elevador seja uma metáfora perfeita da vida urbana.

Estamos todos indo para andares diferentes, carregando problemas que ninguém vê, tentando ocupar nosso pequeno espaço sem esbarrar demais nos outros. Alguns seguram a porta para quem vem correndo. Outros preferem apertar o botão de fechar antes mesmo de olhar para trás.

É nesses detalhes aparentemente insignificantes que uma cidade revela seu caráter.

A civilidade nunca começa nos grandes discursos. Ela começa quando alguém espera o outro sair antes de entrar.

Ou quando segura a porta por mais três segundos.

A democracia também mora ali.

Entre um andar e outro.

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