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Quem está escolhendo o seu futuro: você ou os outros?

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Família, dinheiro, prestígio e profissões da moda podem influenciar uma decisão que deveria começar pelo autoconhecimento

Escolher uma profissão é uma das decisões mais importantes da vida. Entretanto, nem sempre essa escolha nasce verdadeiramente dentro de quem terá de vivê-la.

Antes mesmo de o jovem compreender seus interesses, suas habilidades e a vida que deseja construir, muitas vozes começam a indicar o caminho: a família, os amigos, a escola, as redes sociais e o mercado. Algumas oferecem conselhos sinceros. Outras, mesmo bem-intencionadas, acabam impondo expectativas.

Há famílias que sonham com um médico, um advogado, um engenheiro ou alguém que dê continuidade ao negócio construído pelos pais. Se já existe uma clínica, um escritório ou uma empresa, a trajetória parece pronta. O argumento costuma ser convincente: “Você já tem tudo encaminhado”.

De fato, pode existir uma oportunidade. Mas oportunidade não é necessariamente vocação.

Seguir uma estrutura familiar pode ser uma excelente escolha quando existe identificação verdadeira. O problema começa quando o jovem aceita esse caminho apenas para não decepcionar os pais, preservar uma tradição ou corresponder a um projeto de vida que foi imaginado por outras pessoas.

Em algumas reuniões familiares também aparece a figura que costumo chamar de “tio mercado”. É aquele parente que sempre sabe qual profissão está em alta, qual curso “dá dinheiro” e qual carreira, segundo ele, não tem futuro.

Ele compara salários, cita o sucesso de alguém conhecido e apresenta previsões como se o futuro fosse uma estrada completamente sinalizada. Muitas vezes, sua intenção é ajudar. No entanto, no meio de tantos conselhos, existe o risco de a voz mais importante não ser ouvida: a do próprio jovem.

Quando o conselho se transforma em pressão

A influência familiar nem sempre acontece por meio de uma ordem direta. Ela também pode aparecer em forma de promessa, recompensa ou expectativa:

“Quando você entrar na faculdade, ganhará um carro.”

“Essa profissão trará prestígio para a família.”

“Seu pai trabalhou a vida inteira para deixar esse negócio para você.”

“Nós investimos muito na sua formação.”

O jovem pode, então, começar a confundir amor com obrigação. Passa a acreditar que escolher um caminho diferente seria uma demonstração de ingratidão.

É importante reconhecer que as famílias também sentem medo. Os pais desejam segurança para os filhos e, por isso, frequentemente valorizam profissões que conhecem ou que parecem oferecer maior estabilidade. Essa preocupação é legítima. Porém, existe uma diferença fundamental entre orientar e determinar.

Orientar é apresentar possibilidades, conversar sobre consequências e ajudar o jovem a enxergar a realidade. Determinar é entregar uma vida pronta e esperar que ele apenas a cumpra.

Escolher apenas pelo dinheiro também tem um preço

A condição financeira precisa fazer parte da reflexão profissional. Seria irresponsável fingir que remuneração, empregabilidade e condições de trabalho não importam.

Mas escolher exclusivamente pela promessa de dinheiro pode produzir outro tipo de pobreza: a falta de sentido.

Nenhuma profissão é composta apenas pelo salário recebido no final do mês. Ela também envolve rotina, responsabilidades, ambiente, relacionamentos, ferramentas, estudos, pressões e decisões. É nesse cotidiano que o profissional passará uma parcela significativa de sua vida.

Uma carreira socialmente valorizada pode se transformar em uma prisão quando não existe identificação. E até mesmo uma boa remuneração pode parecer insuficiente quando cada dia de trabalho é vivido com frustração.

As profissões da moda

Outro fator de interferência é o modismo. Em determinados momentos, algumas carreiras ganham grande exposição, prometendo reconhecimento, liberdade ou enriquecimento rápido.

Nas redes sociais, quase sempre vemos o resultado. Raramente vemos o processo.

Vemos o profissional bem-sucedido, mas não os anos de preparação, as dificuldades, os riscos e a rotina menos atraente que existe por trás da imagem. O jovem pode acabar escolhendo não a profissão real, mas uma versão editada e idealizada dela.

Por isso, não basta perguntar: “Essa profissão está em alta?”. É necessário perguntar também:

“Eu conheço sua realidade?”

“Tenho interesse pelas atividades que ela exige?”

“Estou disposto a enfrentar seu processo de formação?”

“Essa profissão combina com meus valores e com a vida que pretendo construir?”

O direito de escutar a si mesmo

Autoconhecimento não significa ter todas as respostas. Um jovem não precisa sair da adolescência com a vida completamente definida. Escolher conscientemente é investigar, perguntar, experimentar e admitir dúvidas.

Também não significa ignorar os pais ou desprezar pessoas mais experientes. Os conselhos da família podem ser valiosos. A experiência de quem já percorreu determinados caminhos pode evitar erros e ampliar horizontes.

Mas aconselhar alguém é diferente de escolher por ele.

A família deve ser um lugar seguro para que o jovem possa expressar incertezas, mudar de opinião e até descobrir que não deseja continuar uma tradição familiar. Uma conversa verdadeira pode ser mais importante do que uma resposta imediata.

Em vez de perguntar apenas “qual curso você vai fazer?”, talvez devêssemos começar com outras perguntas:

“Quem você é?”

“O que desperta sua curiosidade?”

“Quais problemas gostaria de ajudar a resolver?”

“Que atividades fazem sentido para você?”

“Como você imagina sua vida, para além do cargo e do salário?”

Uma escolha consciente não é uma escolha solitária

Nenhuma decisão profissional é tomada sem influências. Somos formados pelas pessoas, experiências e oportunidades que encontramos ao longo da vida.

O objetivo não é eliminar as referências externas, mas reconhecê-las. É preciso perceber quando uma orientação amplia a liberdade e quando uma expectativa começa a sufocá-la.

Família, escola e sociedade devem ajudar o jovem a construir sua decisão, e não entregar a ele uma escolha pronta. Afinal, depois da formatura, das comemorações e das fotografias, será ele quem enfrentará a rotina daquela profissão.

Conselhos podem iluminar caminhos. O mercado pode oferecer informações. A família pode dar apoio e segurança. Mas ninguém deveria escolher, no lugar do outro, a vida que ele terá de viver.

Antes de perguntar ao jovem o que ele pretende fazer, talvez seja necessário oferecer espaço para que descubra quem deseja ser.

VemSer é uma coluna semanal de Valdecir Saraiva dedicada à reflexão sobre vocação, educação, profissões, mercado de trabalho e escolhas que transformam vidas.

“VemSer, o momento em que a educação encontra o sucesso.”