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Áudio de oito minutos não é mensagem

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CRÔNICAS METROPOLITANAS
Por Alvin Wolf

Entre o desabafo em formato de podcast e a resposta automática, transformamos a conversa em dois monólogos que quase nunca se encontram.

O áudio de oito minutos não é uma mensagem. É uma decisão editorial.

Quem aperta o microfone e permanece falando durante tanto tempo não pretende apenas contar alguma coisa. Pretende lançar uma série documental, ainda que sem roteiro, edição ou intervalo comercial.

Tudo começa com uma frase aparentemente inofensiva:

“Amigo, vou tentar resumir.”

Nunca acredite.

Quando alguém anuncia que vai resumir, é porque já desistiu de qualquer compromisso com o relógio. O resumo começa na infância, passa por dois relacionamentos, explica o temperamento da mãe, apresenta personagens secundários e só no sexto minuto revela o verdadeiro assunto:

“Então, lembra que eu falei que talvez fosse ao mercado?”

Lembro. Ou pelo menos lembraria, se ainda soubesse em qual parte da história estamos.

O áudio longo exige preparação. Não pode ser ouvido de qualquer maneira. Você olha a duração, respira fundo e procura um momento adequado. Oito minutos pedem fones de ouvido, água por perto e, dependendo da pessoa, um pequeno lanche.

Há quem escute acelerado. A tecnologia permitiu que amigos falem conosco como esquilos sob efeito de cafeína. Em duas vezes a velocidade, o drama amoroso vira narração de corrida de cavalos. A pessoa chora, acusa, perdoa e termina o relacionamento antes que você consiga atravessar a rua.

Mas o verdadeiro fenômeno não é quem envia o áudio de oito minutos.

É quem responde.

Existem diferentes escolas.

A primeira é a do minimalismo afetivo. Depois de ouvir uma história envolvendo traição, mudança de emprego, crise familiar e um cachorro desaparecido, a pessoa responde:

“Complicado.”

Uma palavra.

O remetente entregou uma minissérie. Recebeu de volta uma legenda.

Há também o especialista em respostas universais:

“É isso.”

Ninguém sabe exatamente o que é “isso”, mas a expressão serve para tudo. Demissão, casamento, divórcio, nascimento, falência, viagem ou infiltração no banheiro.

É isso.

Outra categoria é a de quem não ouviu, mas tenta parecer participativo:

“Nossa, nem me fale.”

O risco é grande. O áudio pode ter anunciado uma gravidez, a compra de um apartamento ou a morte de uma samambaia. Ainda assim, “nem me fale” mantém certa aparência de intimidade. É a camuflagem oficial do desatento.

Os mais ousados escolhem um emoji. O coração pode significar carinho, solidariedade ou que o dedo encostou na tela por engano. A carinha pensativa demonstra profundidade sem exigir opinião. As mãos juntas resolvem qualquer situação, desde que ninguém pergunte o que exatamente elas querem dizer.

Mas existe uma espécie ainda mais perigosa: quem responde ao áudio de oito minutos com outro de onze.

Não é conversa. É uma disputa territorial.

Nenhum dos dois comenta verdadeiramente o que o outro disse. Cada participante apenas aguarda a própria vez de gravar. São dois programas de rádio transmitidos na mesma frequência, mas em horários diferentes.

Talvez o áudio tenha revelado algo que já desconfiávamos: gostamos muito de falar e temos cada vez menos tempo para escutar.

A voz aproxima. Carrega pausa, hesitação, riso, cansaço e tudo aquilo que o texto costuma esconder. Ao mesmo tempo, transformamos essa proximidade em tarefa. Escutamos enquanto dirigimos, caminhamos, cozinhamos ou respondemos outras mensagens. A pessoa está nos contando a vida, mas nós estamos procurando uma vaga para estacionar.

Depois, respondemos com um “entendi”.

Nem sempre entendemos.

Às vezes, apenas chegamos ao final.

Talvez amizade seja justamente encontrar alguém disposto a ouvir os oito minutos sem acelerar. Alguém que perceba a mudança de voz no quinto minuto, entenda o silêncio antes da última frase e não responda com uma solução pronta.

Porque há momentos em que ninguém precisa de conselho, análise ou emoji.

Precisa apenas saber que, do outro lado, havia alguém realmente escutando.

Alvin Wolf é cronista e observador da vida metropolitana. Entre cafés, viagens, livros e boas taças de vinho, escreve sobre os hábitos, as contradições e os pequenos absurdos do cotidiano com humor, elegância e um olhar atento às entrelinhas. Assina a coluna Crônicas Metropolitanas, na Gazeta da Metrópole.