Sabor chocolate
Crônicas Metropolitanas | Alvin Wolf
A internet descobriu uma expressão maravilhosa: sabor alguma coisa.
A coisa chegou a tal ponto que apareceu até energético sabor energético. A imaginação popular fez a festa. Afinal, se existe chocolate sabor chocolate, nada impede que um dia inventem água sabor água.
Achei graça. Depois fui ao supermercado.
Foi ali que descobri que a piada estava espalhada pelas prateleiras. Havia cobertura sabor chocolate, salgadinho sabor queijo, tempero sabor carne e bebidas sabor fruta. Uma infinidade de produtos empenhados em reproduzir o gosto de alguma coisa.
O chocolate estava na fotografia, na cor, no aroma e na promessa. Nem sempre estava na composição que eu imaginava.
A indústria aperfeiçoou tanto a arte de reproduzir sabores, aromas e texturas que já nem precisamos olhar a embalagem para acreditar que estamos comendo aquilo que imaginamos. O paladar reconhece, a memória confirma. Só os ingredientes, às vezes, contam outra história.
Continuei minha investigação particular até a geladeira dos laticínios.
De um lado, iogurtes. Do outro, bebidas lácteas. Embalagens semelhantes, frutas sorridentes, promessas de cremosidade. Virei os potes e comecei a ler. Leite, soro de leite, fermentos, espessantes, aromatizantes. As composições variavam, assim como as denominações.
Não havia necessariamente nada de errado. Bebida láctea é bebida láctea. Iogurte é iogurte. Mas a frente da embalagem parecia muito mais interessada em despertar meu apetite do que em explicar a diferença.
E então olhei os preços.
O produto que eu pretendia comprar custava consideravelmente mais do que a alternativa ao lado.
Aí a piada perdeu um pouco da graça.
Porque é fácil recomendar que as pessoas leiam os rótulos. Difícil é explicar o que fazer quando elas leem, compreendem e descobrem que o orçamento só permite levar o produto mais barato.
A escolha deixa de ser apenas uma questão de preferência. Passa a ser uma negociação entre o desejo, a informação e o dinheiro disponível.
Voltei a caminhar entre as prateleiras.
Comecei a reparar em como nos acostumamos a reconhecer a comida pela fotografia da embalagem, pelo aroma que sai do pacote, pela textura cuidadosamente desenvolvida para agradar ao paladar.
O gosto se tornou uma espécie de documento de identidade. Se parece chocolate, cheira a chocolate e tem gosto de chocolate, por que desconfiar?
Talvez porque o paladar não saiba ler a lista de ingredientes.
E talvez porque, de tanto nos acostumarmos com as imitações, já nem sempre saibamos distinguir o alimento que procurávamos da experiência que nos ofereceram em seu lugar.
Não significa que todos esses produtos sejam enganosos. Significa apenas que o sabor, sozinho, já não conta a história inteira.
Fiquei pensando se ainda sabemos exatamente o que estamos comendo. Ou se aprendemos a confiar tanto no gosto que deixamos de fazer perguntas.
Não encontrei resposta.
Voltei à prateleira do chocolate.
Olhei o preço, suspirei e levei o original. Depois que a gente se acostuma com o gosto das coisas boas, fica difícil convencer o paladar a aceitar uma imitação.
O problema de aprender a ler os rótulos é que a ignorância costuma sair mais barata.
Paguei a conta. O chocolate era bom. O preço, nem tanto.
Na saída, a moça do caixa me desejou um bom dia.
Respondi que estava tudo bem.
Era uma manhã sabor felicidade.

Alvin Wolf é observador profissional de cidades e pessoas. Escreve sobre os pequenos hábitos que revelam quem estamos nos tornando.

