Tarifaço pode levar empresas brasileiras a ampliar presença nos Estados Unidos
Novas barreiras comerciais aumentam custos de exportação e fazem empresários reavaliar estratégias para manter presença no mercado americano
A escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos está levando empresas brasileiras a reavaliar suas estratégias de internacionalização. Com o aumento das tarifas e a possibilidade de novas medidas de retaliação, manter uma operação baseada exclusivamente na exportação pode deixar de ser a alternativa mais competitiva para alguns negócios.
Na última quinta-feira, 13 de agosto, o Brasil abriu formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, que pode resultar na adoção de contramedidas às tarifas impostas pelos Estados Unidos. A medida amplia as incertezas para empresas brasileiras que têm o mercado americano como destino de seus produtos.
Para o especialista em internacionalização Renato Alves de Oliveira, CEO da Be International, o novo cenário pode acelerar uma discussão que já fazia parte dos planos de algumas empresas: a possibilidade de estabelecer uma presença física nos Estados Unidos. “Quando o custo de levar um produto de um país para outro aumenta, o empresário naturalmente começa a rever toda a estrutura da operação. Em alguns casos, deixa de fazer sentido pensar apenas em exportação e passa a ser necessário estudar presença local, parceiros, distribuição ou até produção dentro dos Estados Unidos”, afirma.
5,6 mil empresas brasileiras afetadas
Cerca de 5,6 mil empresas brasileiras são diretamente afetadas pelas tarifas americanas, distribuídas por diferentes setores da economia. Diante desse cenário, o governo brasileiro anunciou medidas para estimular a diversificação dos destinos das exportações. A estratégia prevê ações de promoção comercial em 36 mercados alternativos aos Estados Unidos, enquanto a ApexBrasil deverá apoiar aproximadamente 5,3 mil empresas de 35 setores na busca por novos compradores e mercados. A diversificação, porém, não significa necessariamente abandonar os Estados Unidos. Para empresas que consideram o país estratégico, a alternativa pode estar na mudança do modelo de atuação.
O mercado americano permanece relevante pelo tamanho da economia, pelo potencial de consumo e pela possibilidade de escala. Nesse contexto, empresários passam a analisar se é mais vantajoso continuar exportando a partir do Brasil ou estabelecer estruturas locais, como centros de distribuição, parcerias comerciais ou unidades produtivas.
Estados Unidos seguem atraindo capital estrangeiro
Apesar das incertezas provocadas pela disputa comercial, os Estados Unidos continuam entre os principais destinos globais para investimentos estrangeiros.Dados do Bureau of Economic Analysis (BEA), divulgados em 10 de junho de 2026, apontam que investidores estrangeiros destinaram US$ 232,2 bilhões em 2025 à aquisição, criação ou expansão de empresas no país. O volume representou crescimento de 49,5% em relação a 2024. Outro levantamento, divulgado em julho, registrou 485 projetos de investimento estrangeiro anunciados nos Estados Unidos entre janeiro e março de 2026, envolvendo US$ 73,2 bilhões em capital. Os números ajudam a explicar por que o mercado americano continua no radar de empresas de diferentes países, mesmo diante do atual ambiente de incerteza comercial.
Empresas brasileiras já têm presença no país
O movimento de internacionalização não é novo entre companhias brasileiras. Empresas do país já acumulam quase US$ 40 bilhões em investimentos diretos nos Estados Unidos, com operações associadas a mais de 100 mil empregos no mercado americano.
O país também mantém programas voltados à atração de investimentos estrangeiros, como o SelectUSA, iniciativa do Departamento de Comércio dos Estados Unidos destinada a facilitar a entrada e a expansão de empresas internacionais. Para os empresários brasileiros, esse ambiente pode representar uma oportunidade, mas a decisão de instalar uma operação nos Estados Unidos exige uma análise que vai muito além do impacto imediato das tarifas.
Internacionalização exige planejamento
A eventual mudança do modelo de exportação para uma operação local envolve fatores como custos, tributação, logística, mão de obra, fornecedores, localização, legislação e potencial de mercado. Por isso, a avaliação precisa considerar não apenas o cenário comercial atual, mas também os objetivos de longo prazo da empresa.
“Não existe uma fórmula que diga que toda empresa brasileira deve abrir uma operação nos Estados Unidos por causa das tarifas. Para algumas, isso não fará sentido. Para outras, a nova estrutura de custos pode justamente antecipar uma discussão que já estava sendo feita: se o mercado americano é importante para o negócio, até que ponto vale continuar atendendo esse consumidor exclusivamente a partir do Brasil?”, explica Renato.
Nesse cenário, o tarifaço pode funcionar como um fator de aceleração para empresas que já estudavam a internacionalização. A decisão, entretanto, tende a depender da estrutura de cada negócio e da capacidade de transformar uma presença no mercado americano em uma operação sustentável no longo prazo.
Mais do que uma resposta às barreiras comerciais atuais, a instalação de uma operação nos Estados Unidos representa uma decisão estratégica que pode redefinir a forma como empresas brasileiras acessam um dos maiores mercados consumidores do mundo.

