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Brasil registra menor nível de insegurança alimentar severa da série histórica

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Relatório das Nações Unidas aponta queda do indicador para 0,6% da população; país permanece fora do Mapa da Fome, mas 21,1% dos brasileiros ainda não conseguem pagar por uma alimentação saudável

O Brasil alcançou o menor nível de insegurança alimentar severa desde o início da série histórica acompanhada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO. O índice caiu para 0,6% da população no triênio entre 2023 e 2025, segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo 2026, divulgado em 21 de julho.

Produzido em conjunto pela FAO, Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, Unicef, Programa Mundial de Alimentos e Organização Mundial da Saúde, o levantamento também confirmou que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome.

Para integrar esse mapa, um país precisa apresentar prevalência de subnutrição igual ou superior a 2,5% da população. No Brasil, o indicador permaneceu abaixo desse limite no período analisado.

A redução mais expressiva ocorreu na insegurança alimentar severa, condição na qual as pessoas enfrentam restrições graves no acesso aos alimentos e podem passar um dia inteiro ou mais sem comer.

Uma família à mesa representa um avanço que precisa chegar a todos

O índice brasileiro passou de 6,6% no triênio 2021-2023 para 3,4% em 2022-2024, até chegar aos atuais 0,6%. De acordo com os dados apresentados pelo governo federal com base no relatório, aproximadamente 16,7 milhões de brasileiros deixaram essa condição entre os triênios considerados.

Avanço não significa problema superado

Embora o resultado seja o melhor da série histórica da escala utilizada pela FAO, iniciada em 2014, os números não permitem afirmar que a fome tenha sido completamente erradicada do país.

O relatório trabalha com indicadores diferentes. A Prevalência de Subnutrição, conhecida pela sigla PoU, estima a parcela da população que não consegue consumir a quantidade mínima de calorias necessária para uma vida saudável. É esse indicador que determina a entrada ou a saída de um país do Mapa da Fome.

Já a Escala de Experiência em Insegurança Alimentar, a FIES, é baseada em entrevistas e avalia as dificuldades enfrentadas pelas famílias para obter alimentos. Foi por esse segundo critério que a insegurança alimentar severa chegou a 0,6%, seu menor patamar registrado.

Os dados mostram uma melhora consistente e relevante, mas não significam que todos os brasileiros tenham acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade.

Alimentação saudável ainda pesa no orçamento

Um dos principais alertas do relatório está no custo da alimentação adequada. Apesar da queda da fome e da insegurança alimentar severa, 21,1% da população brasileira ainda não consegue pagar por uma dieta saudável. O percentual representa aproximadamente 44,8 milhões de pessoas.

A FAO e a Organização Mundial da Saúde consideram saudável uma alimentação adequada, equilibrada, variada e moderada, capaz de oferecer energia e nutrientes em quantidade suficiente. O conceito vai além da simples ingestão mínima de calorias.

No Brasil, o custo estimado de uma dieta saudável foi de US$ 4,89 por pessoa ao dia, calculado em dólares por Paridade do Poder de Compra. O valor ficou ligeiramente abaixo das médias da América do Sul, de US$ 4,94, e da América Latina e do Caribe, de US$ 4,91.

Essa diferença ajuda a explicar por que deixar o Mapa da Fome, embora seja uma conquista importante, não encerra o desafio da segurança alimentar. Uma pessoa pode consumir calorias suficientes e, ainda assim, não ter recursos para manter uma alimentação equilibrada e nutritiva.

Renda, emprego e políticas públicas

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social relaciona a melhora dos indicadores à retomada de políticas de transferência de renda, à valorização do salário mínimo, à redução do desemprego, ao acesso ao crédito para a agricultura familiar e aos programas públicos de aquisição de alimentos.

O contexto econômico também contribuiu. Segundo dados do IBGE citados pelo ministério, o rendimento domiciliar médio mensal por pessoa chegou a R$ 2.264 em 2025, o maior valor da série iniciada em 2012. A taxa de desemprego ficou em 5,6%, enquanto a inflação dos alimentos encerrou o ano em 2,95%.

Esses fatores aumentam a capacidade das famílias de comprar alimentos, mas o relatório mostra que renda e preços ainda representam obstáculos para uma parcela expressiva da sociedade.

Fome diminui no mundo, mas ainda atinge 645 milhões

A melhora brasileira ocorre em um cenário internacional que apresenta avanços, mas continua preocupante. Segundo o relatório SOFI 2026, cerca de 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome no mundo em 2025, o equivalente a 7,8% da população global.

O número representa uma redução de quase 14 milhões de pessoas em comparação com 2024 e de 43 milhões em relação a 2022. Foi o terceiro ano consecutivo de queda da fome no mundo.

Apesar do avanço, a recuperação permanece desigual entre as regiões. África, Ásia, América Latina e Caribe apresentam realidades distintas, influenciadas por conflitos, eventos climáticos extremos, inflação, desigualdade e dificuldades de acesso aos alimentos.

Em 2025, aproximadamente 2,1 bilhões de pessoas, ou 25,8% da população mundial, viviam em situação de insegurança alimentar moderada ou severa. Isso significa que precisaram reduzir a quantidade ou a qualidade dos alimentos consumidos.

Dieta saudável continua fora do alcance de bilhões

O acesso a uma alimentação saudável permanece como um dos maiores desafios mundiais. De acordo com a ONU, 2,69 bilhões de pessoas, o equivalente a 32,7% da população global, não conseguiam pagar por uma dieta saudável em 2025.

O número apresentou melhora em relação a 2021, quando 2,97 bilhões de pessoas estavam nessa situação. Ainda assim, praticamente uma em cada três pessoas no planeta continua sem condições financeiras de manter uma alimentação adequada e nutritiva.

O custo médio mundial de uma dieta saudável chegou a US$ 4,28 por pessoa ao dia em 2025, calculado por Paridade do Poder de Compra. Na América Latina e no Caribe, o valor foi de US$ 4,91, o mais elevado entre as regiões analisadas.

Segundo o relatório, frutas, vegetais e alimentos de origem animal representam as maiores parcelas desse custo. Processamento, logística e comércio atacadista também têm peso significativo no preço final pago pelo consumidor.

As agências das Nações Unidas defendem investimentos em infraestrutura, pesquisa, irrigação, armazenamento, transporte e cadeias de refrigeração, além de políticas de proteção social e de incentivo à produção de alimentos nutritivos.

Uma conquista que precisa ser preservada

O resultado brasileiro confirma uma mudança importante de trajetória e merece ser reconhecido. A redução da insegurança alimentar severa para 0,6% e a permanência fora do Mapa da Fome representam avanços concretos.

Ao mesmo tempo, o fato de mais de um quinto da população ainda não conseguir pagar por uma dieta saudável mostra que o trabalho está longe de terminar.

O próximo desafio do Brasil não é apenas garantir que todos tenham alguma comida à mesa. É assegurar que cada família possa ter acesso permanente a uma alimentação suficiente, saudável, variada e digna.

Fontes: Relatório SOFI 2026, Nações Unidas no Brasil e Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

*Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial/Gazeta da Metrópole.