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Não basta escolher o motorista

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Quatro dos seis votos das eleições de 2026 serão para o Legislativo, que aprova leis, fiscaliza governos e ajuda a decidir por onde o país seguirá

ELEIÇÕES 2026: O PODER DO VOTO

Nas eleições, os holofotes quase sempre estão voltados para quem ocupará o banco do motorista. Discute-se quem será o presidente da República, quem governará o estado e qual direção cada candidato pretende seguir. Mas uma democracia não é conduzida por uma única pessoa.

Deputados e senadores ajudam a definir o caminho, controlam parte do combustível e estabelecem as regras da viagem. Podem aprovar, modificar ou impedir projetos apresentados pelo Executivo. Também fiscalizam quem está ao volante e participam das decisões sobre o destino do dinheiro público.

Em 4 de outubro de 2026, cada eleitor fará seis escolhas na urna eletrônica. Quatro delas serão destinadas ao Poder Legislativo: um deputado federal, um deputado estadual e dois senadores. Apesar disso, esses votos frequentemente recebem menos atenção do que as disputas pela Presidência da República e pelo governo de São Paulo.

É provável que muitos eleitores já tenham preferência para presidente ou governador. Mas quantos conseguem dizer, sem consultar o celular, em quem pretendem votar para deputado estadual, deputado federal e nas duas vagas para o Senado?

Não é necessário que todos já tenham escolhido seus candidatos. O problema surge quando essas decisões são deixadas para os últimos minutos da campanha, tomadas apenas pela indicação de conhecidos ou improvisadas diante da urna.

Em outras palavras: votar em um presidente sem observar quem estará no Congresso é escolher o motorista e ignorar quem controla o caminho, o combustível e as regras da viagem.

Quais cargos serão escolhidos em 2026

No primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a ordem de votação será:

• Deputado federal;

• Deputado estadual ou distrital;

• Senador — primeira escolha;

• Senador — segunda escolha;

• Governador;

• Presidente da República.

Serão seis votos para cinco cargos diferentes, porque cada estado escolherá dois senadores. A renovação será de dois terços das 81 cadeiras do Senado, o equivalente a 54 vagas em todo o país.

Deputados federais, estaduais, presidente e governadores terão mandatos de quatro anos. Os senadores serão eleitos para mandatos de oito anos.

Em São Paulo, estarão em disputa 70 vagas para deputado federal e 94 para deputado estadual, além das duas cadeiras no Senado. Segundo dados oficiais divulgados em julho, o estado possui 34.104.226 eleitores aptos a votar, o maior colégio eleitoral do país.

O que faz um deputado estadual

Os deputados estaduais representam a população na Assembleia Legislativa. Entre suas principais atribuições estão elaborar e votar leis estaduais, fiscalizar o governador, acompanhar a utilização dos recursos públicos e analisar o orçamento do estado.

Na Assembleia, os deputados participam de comissões, promovem audiências públicas e podem requerer a convocação de secretários estaduais. Também podem propor a instalação de CPIs para investigar fatos determinados, desde que sejam atendidos os requisitos legais.

Decisões sobre áreas como segurança pública, educação estadual, transportes intermunicipais, universidades estaduais e parte das políticas de saúde passam pela atuação da Assembleia Legislativa.

Ao escolher um deputado estadual, portanto, o eleitor também está escolhendo quem fiscalizará o governador.

O que faz um deputado federal

Os deputados federais representam a população na Câmara dos Deputados, em Brasília. Eles discutem e votam leis de alcance nacional, propostas de emenda à Constituição, medidas provisórias, orçamento federal e projetos encaminhados pelo governo.

A Câmara também fiscaliza os atos do Executivo, pode convocar ministros, instalar CPIs e analisar as contas públicas. Cabe aos deputados autorizar, por dois terços de seus integrantes, a abertura de processo por crime de responsabilidade contra o presidente da República.

Nenhum presidente governa sozinho. Para transformar promessas de campanha em leis, aprovar reformas, manter vetos e executar parte de sua agenda, o governo precisa construir apoio no Congresso Nacional.

Negociar faz parte da democracia. O problema aparece quando o diálogo político perde transparência e se transforma em troca de cargos, liberação de recursos ou acordos que colocam interesses particulares acima do interesse público.

O papel dos senadores

O Senado representa os estados e o Distrito Federal. Cada unidade da Federação possui três senadores, independentemente do tamanho de sua população.

Além de votar leis, medidas provisórias e mudanças na Constituição, os senadores analisam indicações para cargos importantes, como ministros de tribunais superiores, presidente do Banco Central, procurador-geral da República e chefes de missões diplomáticas permanentes.

O Senado também julga presidentes da República e outras autoridades em processos de impeachment, depois de cumpridas as etapas constitucionais.

Diferentemente dos deputados, os senadores são eleitos pelo sistema majoritário. Em 2026, como haverá duas vagas por estado, serão eleitos os dois candidatos mais votados. O eleitor deverá escolher dois nomes diferentes. Se repetir o mesmo número nas duas oportunidades, o segundo voto será anulado.

O Legislativo também controla o combustível

O poder dos parlamentares não está restrito à elaboração de leis. Deputados e senadores também participam das decisões sobre o orçamento público e podem apresentar emendas para direcionar recursos a estados, municípios, hospitais, obras e políticas públicas.

As emendas individuais e as emendas de bancadas estaduais são impositivas. Isso significa que o governo deve executá-las, salvo quando houver impedimento técnico ou outra limitação prevista nas regras orçamentárias.

As emendas podem levar recursos importantes aos municípios. Ao mesmo tempo, o aumento do controle parlamentar sobre parte do orçamento exige transparência, fiscalização e acompanhamento da sociedade.

Quando escolhe um deputado ou senador, o eleitor também entrega a esse parlamentar poder para influenciar o destino do dinheiro arrecadado por meio dos impostos.

Para deputado, o mais votado nem sempre é eleito

Uma das partes menos compreendidas das eleições brasileiras é o sistema proporcional utilizado para deputados federais, estaduais e distritais.

Muitos eleitores acreditam que basta organizar todos os candidatos do mais votado para o menos votado e preencher as vagas nessa ordem. Não é assim que funciona.

Na eleição proporcional, o voto dado a um candidato também é contabilizado para o partido ou para a federação à qual ele pertence. Primeiro, a Justiça Eleitoral calcula quantas cadeiras cada partido ou federação conquistou. Depois, verifica quais candidatos ocuparão essas vagas.

O cálculo começa pelo chamado quociente eleitoral. O total de votos válidos para determinado cargo é dividido pelo número de cadeiras em disputa.

Em um exemplo simplificado, se uma eleição tivesse 1 milhão de votos válidos e dez vagas, o quociente eleitoral seria de 100 mil votos.

Em seguida, é calculado o quociente partidário. Somam-se os votos recebidos por todos os candidatos de um partido ou federação, além dos votos dados diretamente à legenda. Esse total é dividido pelo quociente eleitoral para determinar o número inicial de cadeiras conquistadas pelo grupo.

Se um partido recebesse 300 mil votos naquele exemplo, teria direito inicialmente a três vagas. Elas seriam preenchidas pelos candidatos mais votados dentro do partido ou da federação, desde que alcançassem o desempenho individual mínimo estabelecido pela legislação.

Por isso, um candidato pode receber mais votos do que outro e, mesmo assim, não ser eleito. O primeiro pode pertencer a um partido que não conquistou cadeiras suficientes, enquanto o segundo pode integrar uma legenda com melhor desempenho coletivo.

As cadeiras que não forem preenchidas na primeira etapa são distribuídas por meio das chamadas sobras eleitorais, conforme as regras e os cálculos definidos pela Justiça Eleitoral.

Seu voto também ajuda o partido

Nas eleições para deputado, o eleitor pode votar diretamente em um candidato ou optar pelo voto de legenda, digitando somente os dois números do partido.

O voto de legenda ajuda o partido ou a federação a conquistar cadeiras, mas não é atribuído nominalmente a um candidato. Depois, as vagas obtidas serão ocupadas de acordo com a votação individual e as demais regras do sistema proporcional.

Desde as eleições municipais de 2020, não existem coligações nas disputas proporcionais. Os partidos podem concorrer isoladamente ou integrar federações, que funcionam de maneira unificada durante a eleição e também na atuação parlamentar pelo período mínimo previsto em lei.

Isso significa que pesquisar apenas o nome do candidato não é suficiente. O eleitor também precisa conhecer seu partido, a federação da qual participa, suas alianças e os demais nomes apresentados pelo grupo.

Na eleição proporcional, você não vota apenas em uma pessoa. Também ajuda a decidir o tamanho da bancada do partido ou da federação à qual ela pertence.

Antes de digitar os números

O eleitor pode adotar alguns cuidados antes de escolher seus representantes:

• Verificar a trajetória política e profissional do candidato;

• Conhecer o partido e a federação;

• Conferir se as propostas são compatíveis com as atribuições do cargo;

• Pesquisar atuação anterior, presença, votações e gastos, quando o candidato já exerceu mandato;

• Consultar patrimônio declarado, receitas e despesas de campanha;

• Pesquisar condenações e processos relevantes e verificar informações que circulam sobre o candidato;

• Identificar quem financia e apoia politicamente a candidatura;

• Avaliar o compromisso do candidato com Campinas e a Região Metropolitana;

• Acompanhar o mandato depois da eleição.

Informações oficiais sobre candidaturas e contas eleitorais estarão disponíveis no sistema DivulgaCandContas, da Justiça Eleitoral. A Câmara dos Deputados, o Senado e a Assembleia Legislativa de São Paulo também mantêm portais nos quais é possível consultar projetos, votações, presença, gastos, emendas e prestação de contas dos parlamentares.

O voto consciente não termina quando a urna exibe a palavra “fim”. Ele continua durante os quatro ou oito anos seguintes, por meio da fiscalização dos representantes eleitos.

Quem falará por Campinas?

Segundo levantamento realizado a partir dos dados municipais da Justiça Eleitoral, a Região Metropolitana de Campinas reúne aproximadamente 2,39 milhões de eleitores, o equivalente a cerca de 7% do eleitorado paulista. Não existem, entretanto, cadeiras reservadas para Campinas ou para qualquer outra região do estado.

Os candidatos a deputado disputam votos em todo o território paulista. Quando o eleitor da RMC escolhe alguém sem ligação com a região, seu voto pode ajudar a eleger um parlamentar cuja atuação esteja concentrada em outra localidade ou em determinado segmento social, profissional, religioso ou ideológico.

Isso não significa que o eleitor deva votar obrigatoriamente em quem mora perto. Significa que precisa fazer também uma pergunta regional: o candidato conhece os problemas de Campinas e pretende representar os interesses da metrópole?

Uma região economicamente forte não transforma automaticamente sua população em força política. Essa influência depende das candidaturas apresentadas, da organização dos partidos e, principalmente, das escolhas feitas pelos eleitores.

O voto para o Legislativo não é um complemento às escolhas para presidente e governador. Ao eleger deputados e senadores, o cidadão decide quem fiscalizará os governos, votará leis e influenciará o destino dos recursos públicos.

Em 2026, quatro dos seis votos serão para o Legislativo. Tratá-los como escolhas secundárias significa entregar uma parcela decisiva do poder sem examinar quem a receberá.