Eu não gosto de política
CRÔNICAS METROPOLITANAS – Por Alvin Wolf
O boteco estava cheio o suficiente para ninguém prestar atenção em ninguém.
Lá fora, Campinas terminava mais um domingo. Dentro, eu estava ocupado com uma cerveja e com a difícil decisão entre a calabresa e o torresmo quando ouvi, na mesa atrás de mim:
— Eu não gosto de política.
Não olhei.
Há confissões que merecem privacidade.
— Mas você é de esquerda ou de direita?
— Direita.
Olhei.
Não resisti.
A mulher que não gostava de política havia levado aproximadamente quatro segundos para localizar-se politicamente.
— Por quê?
— Porque eu defendo a família.
Voltei para a cerveja.
A família.
Ultimamente ela anda muito requisitada em época de eleição.
Deus também.
A pátria, então, mal consegue descansar.
São três palavras extraordinárias. O candidato diz que está com Deus, defende a pátria e protege a família e parece que apresentou um programa de governo inteiro.
Ninguém pergunta muito.
Qual família?
Que pátria?
E Deus, até onde sei, não costuma conceder entrevistas para confirmar apoio.
Talvez seja essa a vantagem.
Pensei na minha família.
Tenho uma.
Nunca me perguntaram em qual seção eleitoral ela estava registrada.
A garçonete chegou com duas cervejas e precisou pedir licença para entrar na conversa sem participar dela.
— Eu sou de esquerda — disse a outra mulher.
Pronto.
Finalmente alguém havia confessado.
— E você não defende a família?
— Claro que defendo.
Silêncio.
Era um problema.
Se as duas defendiam a família, alguém teria que devolver a escritura.
A segunda mulher tentou explicar:
— Eu penso na coletividade.
Coletividade.
Gostei da palavra.
Não anda muito na moda. A gente ouve bastante sobre sucesso, mérito, empreendedorismo, liberdade. Coletividade aparece menos.
Talvez porque não caiba muito bem numa bio de Instagram.
E certamente não funciona tão bem num palanque.
Tente imaginar uma multidão gritando:
— Co-le-ti-vi-da-de! Co-le-ti-vi-da-de!
Não vai.
Família funciona melhor.
Pedi o torresmo.
Foi quando um homem no balcão resolveu entrar na conversa.
Boteco é assim. Ninguém é convidado. Todos têm credencial.
— Eu não sou de esquerda nem de direita.
Essa eu conhecia.
— Político é tudo igual.
Conhecia também.
— Já votei no Bolsonaro.
Aí melhorou.
— E votaria de novo?
— Deus me livre.
Olhei para ele.
Deus havia voltado à conversa.
Dessa vez para recusar candidatura.
A mulher riu.
— Então vai votar no Lula?
Ele fez uma careta.
— Lula pra mim não fede nem cheira. Eu sou classe média. Agora, pros mais humildes, foi o melhor presidente que esse país já teve.
O torresmo chegou na hora certa.
Precisei mastigar.
Não por Lula.
Por “eu sou classe média”.
Olhei para o homem.
Camisa de futebol. Chave do carro no balcão. Celular com a tela rachada.
Pouco antes, ele havia reclamado do preço da cerveja. Depois falou da gasolina. O plano de saúde tinha subido de novo. E ainda faltavam não sei quantas prestações do carro.
Mas trabalhador, não.
Classe média.
Trabalhador é sempre outro.
É o pedreiro.
O motoboy.
A moça que limpa o escritório.
A garçonete passou novamente por nós equilibrando garrafas e copos. O homem afastou a cadeira para deixá-la passar e continuou falando sobre os trabalhadores.
Fiquei pensando que há no Brasil um elevador social curioso.
O salário entra pela porta de serviço.
A imaginação aperta o botão da cobertura.
Deixei o homem em paz.
Ele tinha problemas suficientes.
Falou de imposto, aposentadoria, salário mínimo. Reclamou da gasolina outra vez. Alguém puxou o SUS, depois segurança, corrupção, escola pública.
E ele não gostava de política.
Comecei a entender.
Talvez não gostar de política seja parecido com não gostar de chuva.
É um direito.
Só não impede que você se molhe.
Olhei em volta.
Na porta, um entregador esperava um pedido e olhava o celular de poucos em poucos segundos.
Na cozinha, alguém fritava nosso torresmo.
Uma mesa reclamava do aluguel.
Na outra, um casal dividia a conta.
A garçonete voltou ao balcão, deixou os copos sujos e já saiu com outra bandeja.
Nenhum deles parecia particularmente interessado na luta de classes.
A luta de classes, por sua vez, parecia bastante interessada neles.
Continuei bebendo.
Na televisão, sem som, aparecia um político discursando.
Ninguém prestava atenção.
Achei apropriado.
A conversa atrás de mim já tinha crescido.
A mulher que não gostava de política falava do país.
A outra falava da coletividade.
O homem que não era de esquerda nem de direita discutia eleição.
Em algum momento alguém falou dos pobres.
“Os pobres.”
Sempre acho curioso quando essa expressão aparece.
Os pobres costumam estar em algum lugar distante, quase uma categoria da meteorologia nacional. Existem, provocam preocupação, aparecem nas pesquisas e, de tempos em tempos, recebem a solidariedade de alguém.
Raramente estão à mesa.
A garçonete trouxe mais uma cerveja.
Agradeci.
O entregador finalmente recebeu o pacote e saiu.
Da cozinha veio outro pedido.
O homem olhou o celular.
— Amanhã cedo tenho que trabalhar.
Disse isso com o cansaço de quem acabara de lembrar da segunda-feira.
Guardou o aparelho no bolso, terminou a cerveja e pediu a conta.
Ninguém comentou.
Nem eu.
Às vezes é melhor deixar uma frase onde ela caiu.
Ele pagou, despediu-se e saiu.
A mulher que não gostava de política continuou falando de política.
A outra ainda tentava explicar a coletividade.
A garçonete recolheu o copo do homem e passou um pano no balcão.
Pensei em Marx.
Mas não por muito tempo.
Afinal, era domingo.
Olhei para a garçonete.
Depois para a porta por onde o homem havia saído.
Na manhã seguinte, provavelmente os dois acordariam cedo para trabalhar.
Talvez consciência de classe comece por uma descoberta bem menos sofisticada do que parece.
Descobrir de que lado do balcão a gente está.

