De 19º à vitória: Antonelli faz Monza trocar a Ferrari pela Itália
Italiano recupera 18 posições, encerra jejum de 60 anos no GP da Itália e transforma uma tarde que começou com esperança ferrarista em uma celebração nacional
Monza começou vermelha. Terminou italiana.
As arquibancadas estavam como tantas vezes estiveram nas grandes tardes da Fórmula 1: tomadas por bandeiras, bonés e camisas da Ferrari. No templo dos tifosi, torcer pela equipe de Maranello quase se confunde com torcer pela própria Itália. Charles Leclerc e Lewis Hamilton carregavam a esperança de uma vitória em casa, enquanto Andrea Kimi Antonelli, punido pela troca de componentes da unidade de potência, tinha uma missão aparentemente muito diferente: largaria em 19º e precisaria atravessar praticamente todo o pelotão para sonhar com alguma coisa grande.
Poucas horas depois, aquelas mesmas arquibancadas predominantemente vermelhas comemoravam a vitória de uma Mercedes. Antonelli recuperou 18 posições, superou o companheiro George Russell nas voltas finais e venceu o GP da Itália aos 20 anos. Tornou-se o primeiro italiano a ganhar a corrida de casa desde Ludovico Scarfiotti, em 1966, encerrando uma espera de 60 anos. Russell completou a dobradinha da Mercedes, com Max Verstappen em terceiro.
A Ferrari sai cedo do roteiro
A esperança ferrarista sofreu um golpe quase imediato. Na segunda volta, Leclerc disputava posição com Oscar Piastri quando perdeu o controle do carro na saída da Parabolica e bateu forte, provocando a bandeira vermelha. Hamilton também já havia enfrentado uma largada complicada e perdido posições, enquanto Antonelli fazia justamente o movimento contrário. Antes da interrupção, o italiano já havia avançado do 19º para o 12º lugar.
Na relargada, a recuperação ganhou velocidade. Antonelli entrou rapidamente entre os dez primeiros e continuou avançando até alcançar o grupo da frente. A princípio, parecia uma daquelas grandes corridas de recuperação de um piloto tentando minimizar o prejuízo de uma punição no grid. Aos poucos, porém, a percepção mudou: primeiro havia a possibilidade de muitos pontos, depois a de um pódio. Quando chegou aos líderes, outra pergunta começou a surgir para quem acompanhava a prova: Antonelli poderia vencer?
Quando a recuperação virou disputa pela vitória
A resposta começou a aparecer na parte final da corrida. Um safety car virtual deu a Antonelli a oportunidade de colocar pneus médios novos, enquanto Russell permaneceu com os duros usados. Com mais aderência, o italiano começou a reduzir a vantagem do companheiro de Mercedes e, faltando dez voltas, tinha aproximadamente cinco segundos para buscar.
A diferença desapareceu rapidamente. Na primeira tentativa de ultrapassagem, Russell defendeu a posição e Antonelli acabou passando pela brita, num daqueles momentos em que uma corrida extraordinária pode escapar em poucos segundos. Ele voltou à pista, manteve-se próximo e atacou novamente. Na volta 50 de 53, conseguiu a ultrapassagem que decidiu o GP da Itália. O piloto que começara a tarde em 19º estava na liderança em Monza.
Depois de 53 voltas, Antonelli recebeu a bandeirada cerca de quatro segundos à frente de Russell. Era a conclusão de uma recuperação de 18 posições e, por si só, uma das atuações mais marcantes da temporada. Mas o que acontecia ao redor da pista dava à vitória uma dimensão que a classificação final não consegue registrar.
O vermelho continuou nas arquibancadas
A transmissão produziu uma das imagens mais simbólicas da corrida. Diante de Antonelli havia uma multidão predominantemente vestida de vermelho. Camisas e bonés da Ferrari continuavam espalhados pelas arquibancadas, mas agora aquela torcida celebrava o italiano que acabara de vencer com uma Mercedes. Entre o vermelho surgiam também bandeiras tricolores, como se, por alguns minutos, a identidade nacional tivesse se sobreposto à rivalidade entre equipes.
Isso não significava que os tifosi tivessem deixado de ser ferraristas. A relação entre Monza e Maranello é muito mais profunda do que o resultado de uma corrida. O que surgia ali era outra forma de pertencimento: depois de 60 anos, um italiano voltava a vencer o GP da Itália.
Scarfiotti conseguira o feito em 1966, ao volante de uma Ferrari. Desde então, nenhum compatriota havia repetido a vitória. Antonelli encerrou a espera dentro de uma Mercedes e, naquele momento, a origem do piloto pareceu importar mais para muitos daqueles torcedores do que a origem do carro.
O hino que traz outra Monza de volta
O pódio acrescentou outra camada àquela tarde. Para quem acompanhou a Fórmula 1 nos anos de Michael Schumacher, ouvir o hino italiano depois de uma corrida em Monza traz uma lembrança quase automática. Era o som das tardes em que a Ferrari vencia, Schumacher subia ao pódio e o circuito se transformava numa enorme arquibancada vermelha.
A memória ganhou significado especial neste fim de semana. A Ferrari chegou a Monza celebrando os 30 anos da primeira vitória de Schumacher no GP da Itália pela equipe, conquistada em 1996. Os carros receberam uma pintura especial inspirada naquele período e a história do alemão voltou a ocupar o imaginário do circuito onde ele venceu cinco vezes vestido de vermelho.
Trinta anos depois daquela primeira vitória, o hino italiano voltou a acompanhar o vencedor de Monza. Nos tempos de Schumacher, um alemão fazia a Itália cantar ao vencer com a Ferrari. Neste domingo, foi um italiano quem fez Monza cantar, desta vez ao volante de uma Mercedes.
Scarfiotti deixou de ser o último. Ascari ainda é
A vitória também muda a dimensão com que Antonelli deve ser observado nesta temporada. Ele chegou a Monza como líder do Mundial e saiu ainda mais forte. A vantagem sobre Russell, seu companheiro e principal perseguidor, passou de 59 para 66 pontos depois de 13 etapas.
A Itália conhece bem o tamanho da próxima espera que Antonelli tenta encerrar. Alberto Ascari conquistou os campeonatos de 1952 e 1953 e permanece como o último italiano campeão mundial de Fórmula 1. Setenta e três anos se passaram desde aquele segundo título.
Há uma diferença importante entre as duas histórias. Scarfiotti já pertence ao passado que Antonelli conseguiu mudar. Ascari representa uma história que ainda está sendo escrita. A temporada não terminou e transformar uma grande vantagem em campeonato exige muito mais do que uma tarde extraordinária em Monza. Mas a possibilidade, agora, está diante dos italianos.
Durante 60 anos, Ludovico Scarfiotti foi o último italiano a vencer o GP da Itália. Neste domingo, deixou de ser.
Ascari ainda é o último italiano campeão mundial.
Antonelli terá o restante da temporada para descobrir se também conseguirá mudar essa frase.
Monza, porém, já teve seu momento. Depois de uma corrida iniciada com a esperança depositada nos carros de Maranello, a torcida encontrou outro italiano para celebrar. E talvez nenhuma imagem explique melhor aquela tarde do que as arquibancadas vermelhas festejando a passagem de uma Mercedes.
Os tifosi chegaram ao circuito esperando comemorar a Ferrari. Foram embora comemorando a Itália.

