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Quando o mundo perdeu a cor

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CRÔNICAS METROPOLITANAS – Por Alvin Wolf

Outro dia eu estava na calçada esperando o sinal abrir quando comecei a olhar os carros que passavam.

Branco.

Cinza.

Preto.

Prata.

Outro branco.

Depois um cinza mais escuro, provavelmente vendido com algum nome sofisticado que justificasse alguns milhares de reais a mais.

Não estava fazendo pesquisa. Também não havia bebido o suficiente para transformar a espera de um semáforo em investigação sociológica.

Apenas reparei.

Parecia que alguém havia mexido na saturação da cidade.

Então passou um carro vermelho.

E eu olhei.

Não era uma Ferrari, não era um clássico restaurado, não roncava como fera nem tinha qualquer outra justificativa para chamar atenção.

Era apenas vermelho.

Mesmo assim, acompanhei o carro por alguns segundos, até ele desaparecer entre os outros.

Foi quando me ocorreu uma pergunta que certamente não estava entre as grandes preocupações da humanidade naquela manhã:

quando foi que os carros perderam a cor?

Pode ser a idade.

Chega uma fase da vida em que começamos a desconfiar que tudo era mais bonito antigamente. As músicas, os bares, as viagens, as mulheres — melhor interromper a lista enquanto ainda preservo algumas amizades.

Desconfio da nostalgia. Ela é uma excelente editora das nossas lembranças: corta as partes ruins e ainda melhora a fotografia.

Mas os carros eram mais coloridos.

Disso eu me lembro.

E, pensando melhor, não era só a cor.

Eles eram diferentes.

Um Fusca tinha cara de Fusca. Uma Brasília podia ser reconhecida antes de chegar perto. Havia faróis redondos, grades, frisos cromados, maçanetas aparentes, curvas e para-choques que pareciam realmente dispostos a cumprir a função anunciada pelo nome.

Alguns eram bonitos. Outros eram horrorosos.

Mas até os horrorosos tinham personalidade.

Os carros de hoje são melhores em quase tudo que realmente importa. Mais seguros, confortáveis, econômicos, tecnológicos.

Seria uma estupidez trocar airbag por nostalgia.

Só que muitos parecem parentes.

Muda o farol, mexe na grade, estica uma curva, troca o emblema.

E a cor?

Branco. Preto. Prata. Cinza.

Cinza-claro. Cinza-escuro.

Um cinza com nome em inglês.

Foi inevitável lembrar de Cinquenta Tons de Cinza.

Pelo que me recordo, a proposta original era que o cinza fosse sedutor.

Naquela rua, não estava funcionando.

O sinal abriu.

Atravessei.

E cometi o erro de levantar os olhos.

Foi quando descobri que os cinquenta tons não estavam apenas no trânsito.

Tinham subido pelas fachadas.

Vidro, concreto, branco, preto, cinza. Um grande retângulo com outros retângulos dentro. De vez em quando, uma faixa imitando madeira, talvez para demonstrar que alguém no projeto ainda guardava alguma lembrança das árvores.

Olhei para as casas.

Também elas pareciam ter passado pela mesma faxina.

Ainda encontramos uma varanda aqui, um azulejo ali, um portão trabalhado, uma janela com desenho. Mas é preciso procurar.

Até os beirais parecem estar desaparecendo.

Estamos ficando, literalmente, sem eira nem beira.

Continuei andando.

Um friso cromado nunca fez um carro andar melhor. O desenho de um portão não ajudava ninguém a entrar em casa. Um azulejo decorado não segurava parede. Uma curva podia perfeitamente ser uma linha reta.

Nada daquilo era necessário.

A beleza talvez more justamente naquilo que não precisava estar ali.

Num friso. Numa curva. Num azulejo escolhido simplesmente porque alguém o achou bonito.

Ou numa parede pintada de azul porque seu dono gostava de azul.

Sem justificativa.

Sem conceito.

Sem precisar combinar com a paleta.

Foi então que a falta de cor começou a me parecer ainda mais estranha.

Afinal, estamos no Brasil.

Um país tropical.

Aqui basta um ipê resolver florescer para arruinar qualquer projeto de sobriedade.

Temos amarelos que quase doem nos olhos, flamboyants vermelhos, céu azul e uma vegetação que jamais demonstrou grande preocupação em combinar tons.

As frutas também não são discretas.

Os pássaros, muito menos.

A natureza brasileira nunca pareceu muito interessada em ser clean.

Nós, sim.

Basta olhar em volta.

Talvez não tenhamos simplesmente perdido o gosto pela cor. Talvez tenhamos aprendido a desconfiar dela.

Em algum momento, adotamos uma ideia de sofisticação em que o neutro ficou elegante, o sóbrio se tornou contemporâneo e o ornamento começou a parecer excesso.

Curioso.

Num país tropical, elegância virou quase sinônimo de dia nublado.

Não pretendo iniciar uma revolução cromática.

Eu também moro neste século. Gosto de linhas simples, frequento cafés de cimento queimado e não tenho a menor intenção de pintar minha sala de laranja apenas para defender uma tese.

Principalmente se não combinar com o sofá.

Na esquina seguinte, parei novamente para atravessar.

Os carros passaram diante de mim.

Branco.

Preto.

Prata.

Cinza.

Outro cinza.

Mais um branco.

Então apareceu um amarelo.

Não sei a marca.

Não sei o modelo.

Nem sei se era bonito.

Mas acompanhei aquele carro com os olhos até ele desaparecer no fim da rua.