Unicamp aprova criação do Centro de Pesquisas para Sustentabilidade
Novo órgão nasce da fusão entre Cepagri, NEPA e Nepam, reunindo pesquisas sobre clima, ambiente, alimentação, cultura e sociedade
Em sessão realizada no dia 26 de maio, o Conselho Universitário da Unicamp (Consu) aprovou por unanimidade a criação do Centro de Pesquisas para Sustentabilidade (CPqS). A nova estrutura será resultado da fusão entre o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), três unidades com trajetória consolidada em áreas complementares.
O novo centro nasce com a missão de reunir competências já consolidadas na Universidade para produzir conhecimento e apoiar respostas aos desafios contemporâneos em diferentes escalas, do local ao global.
“Apresentamos essa proposta ao conselho por entendermos que é um projeto maduro que trará ganhos importantes à Universidade. A aprovação, em sessão histórica, representa não apenas uma reorganização administrativa, mas a consolidação de uma estratégia baseada na integração de competências e na produção de conhecimento orientado a problemas complexos”, declara Raluca Savu, coordenadora da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (Cocen).
A partir da publicação da deliberação, a Cocen terá prazo máximo de 18 meses para conduzir a implantação do CPqS e organizar as etapas necessárias para o início de seu funcionamento.
“A sustentabilidade do planeta será pauta no mundo por, pelo menos, algumas décadas. Este centro vai monitorar e projetar cenários em diferentes escalas espaciais e temporais, buscando soluções inovadoras e inclusivas para o enfrentamento das crises planetárias”, complementa Savu.
O novo centro será organizado em quatro grandes áreas de pesquisa: Clima, biodiversidade e sistemas socioecológicos; Agricultura, produção, sistemas alimentares e bem-estar; Governança, políticas públicas e transformações sociais; e Cultura e comunicação para a sustentabilidade.
A partir desses eixos, reunirá estudos sobre diferentes temas, incluindo modelagem climática e de ecossistemas, impactos do clima na agricultura, sensoriamento remoto, segurança alimentar e nutricional, desenvolvimento de produtos alimentícios, educação ambiental, memória, patrimônio, direitos humanos e arqueologia pública.
Na avaliação das coordenações das três unidades de pesquisa envolvidas, a integração deve ampliar a capacidade da Unicamp de produzir conhecimento interdisciplinar e aproximar ainda mais a pesquisa da sociedade.
Até a posse da primeira coordenação do novo centro, Cepagri, NEPA e Nepam seguirão em funcionamento. A extinção formal das três unidades será realizada somente após essa etapa.
A proposta prevê um prédio próprio em terreno já reservado ao Cepagri, próximo ao Museu Exploratório de Ciências.
Construção coletiva
“Está posto pela ciência que a sustentabilidade é uma questão de sistemas complexos cujas partes se retroalimentam”, declara Cristiana Seixas, coordenadora adjunta do Nepam.
Seixas conta que a criação do CPqS resultou de uma articulação “de baixo para cima”, construída a partir do diálogo entre os envolvidos. “Foi muito trabalhoso e levou quase quatro anos desde que surgiu a ideia até este dia histórico de aprovação no Consu”, afirma.
Essa articulação ganhou impulso entre 2022 e 2023, no contexto do Edital Convergências Cocen, iniciativa idealizada por Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, então coordenadora do órgão, para estimular projetos conjuntos entre Centros e Núcleos Interdisciplinares da Unicamp em torno de grandes desafios contemporâneos.
Embora o edital previsse inicialmente convergências em torno de projetos específicos de pesquisa, as dinâmicas revelaram afinidades mais amplas entre Cepagri e Nepam, abrindo caminho para uma aproximação acadêmica e institucional mais estrutural. Em 2025, o NEPA entrou formalmente na articulação.
O processo envolveu 25 reuniões com pesquisadores e funcionários das três unidades. Versões preliminares da proposta também foram discutidas com a coordenação e o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade, atualmente sediado no Nepam e vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).
“Sem dúvida, as três unidades já eram muito conceituadas, mas entendemos que o CPqS será maior que a soma dessas unidades e potencializará ainda mais pesquisa, formação de recursos humanos e extensão universitária”, complementa Seixas.
O coordenador do Cepagri, David Lapola, observa que o CPqS formaliza uma aproximação já existente na prática. “O novo Centro nasce da convergência entre trajetórias que já dialogavam há décadas dentro da Universidade.”
Segundo Lapola, a criação do Centro responde a uma demanda própria da ciência contemporânea. “Do ponto de vista científico, faz muito sentido aumentar o nível de interdisciplinaridade das pesquisas. A sustentabilidade exige isso. Basta olhar para os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas), que são profundamente interdisciplinares.”
Já Alline Tribst, coordenadora do NEPA, destaca que o Núcleo leva ao CPqS uma trajetória de mais de 40 anos em pesquisas sobre alimentação, abrangendo temas como segurança alimentar, desenvolvimento de processos e políticas públicas.
Para Tribst, a aproximação com as áreas de clima e meio ambiente abre novas possibilidades para pesquisas sistêmicas sobre sistemas alimentares sustentáveis, adaptação às mudanças climáticas e soluções voltadas à mitigação dos impactos das crises planetárias.
“A expectativa das equipes de pesquisa e dos servidores em relação à fusão é positiva, especialmente pela perspectiva de maior integração entre áreas complementares, de fortalecimento institucional, de ampliação de projetos e de criação de uma estrutura mais moderna e colaborativa”, relata Tribst.
Do Convergências ao CPqS
O Projeto Convergências foi inspirado em uma missão acadêmica realizada por Maciel em Paris, em 2022, no Institut Convergences Migrations, sediado no Campus Condorcet.
“Voltei profundamente impactada por aquele modelo organizacional, que reúne centenas de pesquisadores de diferentes instituições e áreas do conhecimento em torno de temas complexos e estratégicos para a sociedade”, relata.
A experiência motivou um mapeamento das possíveis convergências temáticas entre os Centros e Núcleos Interdisciplinares da Cocen, tomando como referência os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
“O resultado foi surpreendente: identificamos inúmeras possibilidades de investigação conjunta que ainda eram pouco exploradas”, relembra Maciel.
A partir desse diagnóstico, a Cocen promoveu workshops e dinâmicas com pesquisadores, docentes e dirigentes dos Centros e Núcleos, movimento que levou ao primeiro Edital Convergências.
“Isso posiciona a Unicamp num patamar de excelência, alinhando-se às mais bem-sucedidas experiências internacionais. Essa iniciativa vai impactar a sociedade mediante a condução de pesquisas orientadas pelos grandes desafios contemporâneos que, seguramente, vão oferecer respostas transformadoras”, avalia Maciel.

