O elogio ao ocupado
CRÔNICAS METROPOLITANAS
Por Alvin Wolf
Há respostas que deixaram de responder qualquer coisa.
A mais famosa delas é:
— Na correria.
Pergunte a qualquer pessoa como ela está e as chances são enormes de ouvir exatamente isso. Não importa se ela acabou de sentar, se está tomando um café ou se saiu de férias. A correria deixou de ser uma condição. Virou uma credencial.
Quem responde “estou tranquilo” parece quase pedir desculpas.
Vivemos a era em que o relógio virou currículo.
Quanto menos tempo alguém diz ter, mais relevante parece ser.
Existe até uma competição silenciosa.
Você comenta que teve uma semana cheia.
O outro responde que mal conseguiu almoçar.
Você diz que dormiu seis horas.
Ele dormiu quatro.
Você recebeu cinquenta mensagens.
Ele ainda nem terminou de responder as cento e vinte.
Ninguém vence essa disputa.
Mas ninguém desiste dela.
É estranho.
Durante muito tempo, riqueza significava comprar tempo.
Hoje, riqueza parece ser não ter nenhum.
Há quem olhe para o relógio de cinco em cinco minutos, mesmo sem ter hora marcada.
Há quem caminhe tão depressa que parece perseguido pela própria agenda.
Há reuniões marcadas para decidir quando acontecerá a próxima reunião.
E há pessoas que suspiram antes de responder “tudo bem”, como se a agenda precisasse ser consultada antes do humor.
Talvez o trabalho nunca tenha ocupado tanto espaço.
Ou talvez tenha sido o orgulho de parecer indispensável.
Quem é realmente indispensável raramente precisa anunciar.
O farol não toca a buzina para avisar que está iluminando.
Ele apenas ilumina.
Tenho a impressão de que confundimos agenda cheia com vida cheia.
São coisas diferentes.
Uma agenda pode estar completamente ocupada e, ainda assim, um dia passar em branco.
No fim das contas, ninguém se lembra da terça-feira em que respondeu todos os e-mails.
Mas quase todo mundo se lembra de uma conversa que começou sem pressa e terminou sem perceber o horário.
Talvez seja esse o maior mal-entendido do nosso tempo.
Passamos tanto esforço tentando provar que somos ocupados…
…que às vezes esquecemos de parecer vivos.


